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“É quase repugnante”. Ucrânia usada pelas petrolíferas para disparar preços

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Os democratas americanos acusaram CEOs de grandes companhias petrolíferas, como a ExxonMobil, Chevron e Shell, de gerarem lucros recorde com o aumento dos preços da gás, usando a guerra da Ucrânia como pretexto.

A RawStory entrevistou o ambientalista Bill McKibben e o advogado ambientalista ucraniano Svitlana Romanko sobre o impacto da guerra na Ucrânia nos mercados energéticos em todo o mundo.

“Estas são empresas predadoras que têm usado todas as desculpas — e esta é uma das piores — para tentar aumentar as suas margens de lucro“, nota McKibben.

“O fim da horrível guerra de Putin contra a Ucrânia irá desmantelar o sistema que permite a esta indústria de combustíveis fósseis obter lucros excessivos”, sublinha ainda Romanko.

No Capitólio, os legisladores da Câmara acusaram os executivos de algumas das maiores companhias petrolíferas e de gás de terem desvalorizado os consumidores, mesmo quando obtiveram lucros recorde.

Os democratas da Comissão de Energia e Comércio da Câmara acusaram os CEO’s de companhias de combustíveis fósseis de explorarem a pandemia e a guerra na Ucrânia para lucrarem mais.

Diana DeGette, membro do Partido Democrata e presidente do Comité do Colorado, pergunta porque é que “o preço do petróleo está a descer, mas o preço na bomba [de gasolina] ainda está perto de atingir níveis recorde.”

“Se o preço dos combustíveis é impulsionado pelo mercado global” e “se é uma questão de oferta e procura, isso não se refletiria também no preço global do petróleo? Algo simplesmente não bate certo”, insiste a política.

Entretanto, os Republicanos utilizaram a audiência de quarta-feira sobre os preços elevados do gás para apoiar as grandes companhias petrolíferas.

Bill Johnson, deputado republicano e membro do Congresso de Ohio, refere que culpam os executivos “pelos preços elevados do gás, pela inflação, pelo mau tempo e por todos os problemas do mundo”, mas a indústria “tem muito de que se orgulhar”.

Executivos da ExxonMobil, Chevron, BPAmerica, Shell USA e outras empresas participaram virtualmente durante a audiência, apesar de terem sido convidados a comparecer pessoalmente.

Darren Woods, CEO da ExxonMobil, alegou que a solução para baixar os preços nas bombas de gasolina é o aumento da produção de petróleo e gás.

“Atualmente, a Rússia fornece cerca de 10% do petróleo necessário para satisfazer a procura mundial, e cerca de 30% da procura de gás natural da Europa”, indica o CEO.

“Uma perda deste volume será bem mais significativa do que o impacto do embargo do petróleo árabe e representaria a maior perturbação do aprovisionamento na história da nossa indústria”, continua. “Infelizmente, não há uma solução rápida“.

O executivo realça, no entanto, que, a curto prazo, a resposta é simples: “Se quisermos reduzir os preços, precisamos de aumentar a oferta“.

Um novo relatório publicado pela Friends of the Earth, Public Citizen e BailoutWatch analisou os registos financeiros da ExxonMobil, Chevron, ConocoPhillips e outras petrolíferas e descobriu que aumentaram as compras de ações e os dividendos desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.

O relatório mostra que esta ação enriqueceu os investidores, em vez de reduzir os preços do petróleo e do gás para os consumidores.

“As ações destes executivos petrolíferos deixam claro que por muito que reclamem das políticas ambientais da Administração Biden e culpem Putin pelos preços elevados, o seu foco continua a ser inteiramente o de encher os seus próprios bolsos”, comenta Christopher Kuveke, analista de dados da BailoutWatch.

Bill McKibben, autor, professor e ambientalista, e Svitlana Romanko, ativista climática ucraniana e advogada ambiental também deram o seu parecer.

McKibben considera que é “quase repugnante” ver os CEOs da Exxon “a falar assim”, recordando que o antecessor de Darren Woods, Rex Tillerson, era “tão amigo de Vladimir Putin, que Putin lhe atribuiu uma medalha”.

A Exxon, segundo o docente, sabia perfeitamente o tipo de regime de Putin, “a investir centenas de biliões de dólares na tentativa de chegar ao petróleo do Ártico, a que só conseguiram chegar porque já tinham derretido o Ártico”.

Os irmãos Koch, barões do petróleo e do gás, que ainda fazem negócios com a Rússia atualmente, conseguiram a sua fortuna de família a construir refinarias para Estaline, nota o ambientalista.

“Eles sabem qual é a alternativa. A alternativa é a rápida utilização de energia renovável, tal como o relatório do IPCC pedia no início desta semana”, acrescenta.

McKibben admite que a utilização da guerra na Ucrânia como pretexto para subir os preços e gerar lucro não é surpreendente, tendo em conta “o papel da indústria petrolífera na nossa história”.

“São empresas predadoras que utilizam todas as desculpas — e esta é uma das piores — para tentar aumentar as suas margens de lucro”, realça.

“Não é como se tivessem feito algo novo este ano que proporcionasse lucros mais elevados. A única coisa nova que aconteceu foi que Vladimir Putin, quem eles têm vindo a encorajar há décadas, lançou uma guerra brutal na Ucrânia”, explica.

Agora, são eles que estão a fazer “uma matança, enquanto pessoas como Svitlana se sentam ali e são bombardeadas” diariamente.

O senador Whitehouse propôs recentemente a Windfall Tax Act, que teria como objetivo fazer com que estes CEO’s pagassem um preço — seriam devolvidos cerca de 250 dólares a todos os americanos pela subida de preços do petróleo.

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Segundo o docente, a proposta iria retirar “algum desse dinheiro em excesso das mãos da indústria de combustíveis fósseis, porque para que é que o utilizam? Utilizam-no para comprar o Congresso”.

Joe Manchin, sozinho, “tem atrasado qualquer trabalho sobre as alterações climáticas em toda a Administração Biden, e é o maior destinatário desses dólares de combustíveis fósseis, que são sujos”, acrescenta.

Svitlana Romanko, da Ucrânia Ocidental, também acredita que nos estamos a “aproximar da era em que a licença social para estas empresas e indústrias de combustíveis fósseis será rapidamente desmantelada”.

Mas, neste momento, estamos no “ponto de viragem para isso, porque os lucros recorde que dos últimos anos já não são aceites pela sociedade e mesmo por alguns governos, pelo que terão de parar”.

No momento em que Romanko estava a dar o seu parecer à televisão norte-americana, deputados do Parlamento Europeu votavam a favor de um embargo total ao petróleo e ao gás russos, por parte dos países da UE.

A advogada ambiental ucraniana acredita que, “juntamente com o desmantelamento e o fim da horrível guerra de Putin contra a Ucrânia, deitaremos abaixo o sistema que permite a esta indústria de combustíveis fósseis lucrar demasiado com vidas humanas e com a destruição de infraestruturas”.

  Alice Carqueja, ZAP //

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