Drone português sobrevoou as Lezírias comandado apenas pelo cérebro

Denis Loctier, @loctier/Twitter

Nuno Loureiro, o piloto da Tekever que controla drones com o cérebro usando uma touca de eléctrodos na cabeça

Nuno Loureiro controla drones com o cérebro usando uma touca de eléctrodos na cabeça

Comandar um avião apenas com o cérebro pode ser realidade em poucos anos e a empresa tecnológica portuguesa Tekever, em colaboração com a Fundação Champalimaud, provou-o hoje, fazendo mover um drone só através da vontade de um operador.

As experiências envolvendo as duas entidades já começaram há alguns anos, mas agora os especialistas saíram de um ambiente de laboratório para, num aeródromo das Lezírias, nos arredores de Lisboa, fazerem o que tinham prometido: um operador com um capacete de eléctrodos, ligado a um descodificador que se liga a um computador, deu ordens a um avião não tripulado, que sobrevoava a zona da lezíria junto de Vila Franca de Xira.

O ambiente nem era dos mais sofisticados. Seis computadores, três monitores, vários técnicos e depois Nuno Loureiro, uma touca de onde saiam fios que se ligavam a uma caixa, que depois se ligava a um computador. E um drone posto no ar, e o jovem engenheiro físico com ar tranquilo, fazendo o avião deslocar-se conforme a sua vontade.

O projecto, chamado Brainflight, parece também assim simples. Os sinais neuronais do cérebro são medidos por um eletroencefalograma que os transmite para um computador que por sua vez os traduz em estímulos – no caso, ordens ao drone.

Toda a técnica parte do princípio de que o cérebro tem uma grande capacidade para aprender regras complexas e adaptar-se a novas situações.

Rui Costa, neurocientista do Laboratório de Neurobiologia da Acção da Fundação Champalimaud e um das caras do projecto simplifica assim a ideia: “não temos desde pequenos movimentos habilidosos, aprendemos a controlar os movimentos pouco a pouco. Aqui utilizamos o mesmo princípio”.

Segundo o cientista, em duas semanas já se atinge um controlo de 80%, ou seja o cérebro aprende a desenvolver os estímulos certos para fazer elevar ou baixar uma bola num computador.

“O que estamos a fazer é gravar sinais neurais, do cérebro, e utilizar esses sinais para controlar por exemplo um rato do computador. Nas primeiras sessões não há muito controlo porque os sinais neurais movem o cursor de forma mais ou menos aleatória, mas muito rapidamente, com uma sessão ou duas, a pessoa aprende que a actividade cerebral está a controlar aquilo e aprende a coordenar a actividade do cérebro para levar o cursor para as posições que quer”, explica Rui Costa.

A técnica, acrescenta aos jornalistas, pode no futuro ser utilizada com pessoas que não se podem mexer e que com ordens cerebrais poderão ligar um computador, a luz ou a televisão ou comandar uma cadeira de rodas.

Rui Costa acredita que no futuro vão existir sistemas híbridos, controlados pelo cérebro e por sensores, que facilitarão a vida às pessoas. E acredita que dentro de duas ou três décadas um cérebro treinado poderá pilotar aviões de carga, esse na verdade um dos objectivos e uma das apostas da União Europeia, que está a financiar a investigação.

Nada de novo, sorri Rui Costa, porque o cérebro já controla tudo, o braço que liga o carro, o braço que vira o volante. “Se não pudermos usar o braço não conseguiremos usar o que o cérebro já faz?”.

Ricardo Mendes, administrador do grupo Tekever, acredita que sim.

“Correu bem, apesar do vento”, disse o responsável, frisando que o processo está em fase inicial de voos reais e que a capacidade de controlo de Nuno Loureiro, aluno de doutoramento da Fundação, também irá aumentando.

Nuno diz que sim mas também diz que “não é fácil de explicar”. Prefere dar o exemplo do automóvel, em que todos os movimentos são pensados quando se começa a conduzir mas que depois com o treino se tornam como que automáticos.

Nuno fala de uma mudança, de o cérebro se “estar a adaptar” a uma realidade nova a que está exposto. E apesar da muita investigação a fazer acredita que no futuro poderá controlar um avião a sério, só porque o deseja.

/Lusa

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