Diários de Salazar não eram “merecedores” da Imprensa Nacional. Porto Editora chega-se à frente

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António Oliveira Salazar

A Imprensa Nacional – Casa da Moeda rejeitou os diários de Salazar, durante os 35 anos que o ditador desempenhou o cargo de Presidente do Conselho.

De acordo com o Expresso, o historiador António Araújo considerou a apresentação do e-book “Diários de Salazar (1933-1968)” uma “surpreendente decisão“, por parte da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM).

A imprensa estatal considerava, segundo o historiador, “que a edição destes diários, uma das fontes primordiais de consulta para a compreensão do século XX português, não era merecedora da chancela da imprensa do Estado“.

As negociações para o lançamento da obra, que decorreu a 10 de dezembro, decorreram durante meses, e foram conduzidas por Duarte Azinheira, diretor editorial e de cultura da INCM, e por Silvestre Lacerda, diretor-geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas.

A Torre do Tombo, em Lisboa, pela qual Silvestre Lacerda também é responsável, guarda o Arquivo Oliveira Salazar, que inclui os famosos diários do político.

A arquivista Madalena Garcia, autora do trabalho de transcrição, ao qual se dedicou durante nove anos, e a pessoa que melhor conhece o arquivo do ditador, tendo em conta que o inventariou e organizou, também participou nas conversas.

A publicação dos diários em livro, segundo os cálculos da INCM, seria “um investimento muito significativo, de pelo menos 100 mil euros“.

Dada a sua extensão, a edição impressa teria cerca de 14 mil páginas, o que só seria possível em vários volumes. Provavelmente, seis.

São 72 cadernos de capa vermelha, em formato A5, que cobrem o período de 1 de janeiro de 1933, a 6 de setembro de 1968, véspera da cirurgia ao cérebro de Salazar.

No total, os diários relatam 13 mil dias, com mais de 20 mil páginas, e um total de 9,3 milhões de carateres.

O projeto foi apresentado ao conselho editorial da INCM, um órgão de caráter consultivo, ao qual cabe definir a atividade editorial da empresa do Estado.

O conselho é composto por 7 a 10 membros, e “personalidades de reconhecida capacidade literária, artística e cultural“, como Mega Ferreira, Francisco José Viegas, Guilherme d’Oliveira Martins, José Carlos Vasconcelos e Pedro Mexia.

De acordo com Duarte Azinheira, o conselho editorial considerou que “não fazia sentido” criar uma edição em livros dos diários, devido aos elevados custos, mas que a INCM deveria comunicar à Torre do Tombo que estava disponível para fazer uma edição digital.

O diretor editorial explica que foi isso que comunicou a Silvestre Lacerda, nos primeiros meses de 2020.

O responsável pela Torre do Tombo afirma que o diretor da INCM se limitou a a dizer que o conselho editorial não achava “oportuno publicar os diários de Salazar”.

“E não era oportuno, entendi eu, independentemente do respetivo suporte, em papel ou em formato digital”, acrescenta Silvestre Lacerda.

Madalena Garcia, que acompanhou todo o processo lamenta, por sua vez, que Duarte Azinheira “nunca tenha tido a delicadeza” de lhe “comunicar o parecer do conselho editorial, nem justificado a decisão final da INCM“.

A arquivista, que já foi subdiretora da Torre do Tombo, nota que, “até então, nunca fora equacionada a hipótese de uma edição em formato digital“.

Face à recusa da INCM, e com o apoio do diretor da Torre do Tombo, Madalena Garcia procurou outra editora, privada, que pudesse estar interessada.

Após alguns contactos, acabou por se dirigir à Porto Editora, considerada a principal empresa do setor.

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A arquivista realça que na primeira conversa com Manuel Alberto Valente, diretor literário da editora, foi ela própria que sugeriu a publicação dos diários em e-book.

Estas negociações decorreram nos primeiros meses de 2020, antes da entrada do país em confinamento geral. “Nunca, até então, se falara numa tal hipótese. A Porto Editora concordou de imediato“, revela Madalena Garcia.

Desde 2006 que os diários de Salazar estão digitalizados e disponíveis no site da Torre do Tombo, com acesso universal e gratuito.

A consulta, no entanto, torna-se difícil, senão mesmo impossível, devido à letra de Salazar, que até os seus colaboradores mais próximos eram incapazes de decifrar.

“Diários de Salazar (1933-1968)”

A obra que conta o dia a dia do ditador português, tanto a sua vida pública como a privada, pode ser adquirida através da livraria eletrónica Wook.

A Porto Editora e a Torre do Tombo, representadas por Vasco Teixeira e Silvestre Lacerda, à margem da edição do e-book, celebraram um acordo, permitindo aos investidores o acesso livre e gratuito à obra, na sede do arquivo nacional.

Este acordo não confere qualquer tipo de receita à Torre do Tombo. “Isso foi assumido desde sempre, porque o trabalho não é nosso“, explica Silvestre Lacerda.

O responsável pelo arquivo em Lisboa nota que “há muito” que a Torre do Tombo “fez o seu trabalho de digitalização dos 72 cadernos de Salazar e das suas mais de 20 mil páginas, e posterior publicação online no seu site”.

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“O nosso objetivo”, acrescenta Lacerda, “foi sempre muito claro: disponibilizar ao público, e gratuitamente” as palavras que permitem conhecer melhor António de Oliveira Salazar e a história do Estado Novo.

  ZAP //

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