Descoberto o mais antigo “oásis de oxigénio” da Terra

Bobrayner / wikimedia

Rio Pongola, África do Sul

Geoquímicos descobriram indícios que apontam que a produção de oxigénio na Terra começou há 2,97 mil milhões de anos na Bacia de Pongola, na África do Sul.

Há milhares de anos, existiam apenas vestígios de oxigénio na atmosfera e nos oceanos que não permitiam o desenvolvimento na Terra de organismos que respiram ar.

Foram encontrados indícios em camadas de pedra com 2,5 mil milhões de anos que apontam que bactérias foto-sintetizantes criaram oxigénio em grandes quantidades por essa altura.

No entanto, uma nova investigação de geoquímicos de isótopos Benjamin Eickmann e Ronny Schönberg, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, encontrou nos sedimentos da Bacia de Pongola, na África do Sul, indícios da produção de oxigénio que datam de há 2,97 mil milhões de anos.

Este local torna-se, assim, no mais antigo “oásis de oxigénio” da Terra, notam os investigadores no estudo publicado na mais recente edição da Nature Geoscience.

Eickmann e Schönberg lembram que as condições na Terra, na altura, não tinham nada a ver com a realidade actual. “A atmosfera continha apenas um centésimo de milésimo do oxigénio que tem hoje”, sublinham num comunicado sobre o estudo divulgado pelo blogue especializado Archaeology News Network.

“Quando as bactérias começaram a produzir oxigénio, este podia, inicialmente, ligar-se a outros elementos, mas começou a enriquecer a atmosfera num evento de emissão maciça de oxigénio há cerca de 2,5 biliões de anos”, destacam.

Este “Grande Evento de Oxigenação” pode ser detectado “no desaparecimento de minerais reduzidos nos sedimentos dos continentes”, explica Eickmann. “Certas assinaturas de enxofre que só podem ser formadas numa atmosfera com pouco oxigénio deixam de ser encontradas”, acrescenta.

Ora esse “Grande Evento de Oxigenação” envenenou as primeiras bactérias que viviam em condições com pouco oxigénio, embora a atmosfera da altura tivesse apenas 0.2% de oxigénio contra os 21% actuais.

“Expostos a uma atmosfera que continha quantidades crescentes de oxigénio, os continentes foram alvo de erosão avançada”, o que levou a que “mais oligoelementos” entrassem nos oceanos, melhorando “o fornecimento de nutrientes” e, consequentemente, dando origem “a mais formas de vida nos mares”, referem os autores da pesquisa.

A análise aos sedimentos da Bacia de Pongola permitiu concluir, a partir das proporções de isótopos de enxofre, que “a bactéria usou o sulfato nos mares primitivos, como uma fonte de energia, reduzindo-o quimicamente”.

“O sulfato é uma forma de enxofre oxidado”, explica Schönberg, explicando que “uma maior concentração de sulfato na água indica que o oxigénio livre suficiente deve ter estado presente no mar raso da Bacia de Pongola”. Oxigénio este que deve ter sido produzido por uma outra bactéria foto-sintetizante.

Simultaneamente, outra assinatura de isótopo de enxofre detectada nos sedimentos indica uma atmosfera continuada de pouco oxigénio. “Isto torna a Bacia de Pongola o mais antigo oásis de oxigénio conhecido até à data”, destaca Schönberg, concluindo que “o oxigénio estava a crescer na água muito antes do Grande Evento de Oxigenação”.

Várias centenas de milhões de anos depois desse evento, os níveis crescentes de oxigénio originaram a oxidação da atmosfera, criando condições para a vida na Terra tal como hoje a conhecemos.

ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Como é possível se o oxigénio ó foi descoberto no século XVIII?
    algo havia mas desconhecia-se o que era e o alemão Stahl, na sequência dos estudos de um dos seus mentores, Becher lhe chamou de flogisto nome que perdurou largos anos.

      • Claro que não.
        O nome pela qual são conhecidas é que varia conforme a evolução do conhecimento que o HOMEM vai adquirindo.
        O pai da química moderna nos deixou algo que fez lei e ainda não foi ultrapado.
        Antoine Lavoisier “Na natureza nada se perde nada se cria, tudo se transforma”.
        E o flogisto lá continua a existir agora com o nome de Oxigénio.

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