Cientistas descobriram o ancestral comum de todos os seres vivos

Bob Embley / NOAA

Um retrato surpreendentemente específico do ancestral de todas as coisas vivas foi criado por cientistas.

Batizado de LUCA (Last Universal Common Ancestor, o último ancestral comum universal), este ser provavelmente viveu há quatro mil milhões de anos, quando a Terra era uma jovem de 560 milhões de anos.

A pesquisa foi publicada esta segunda-feira na revista Nature Microbiology.

A natureza do ancestral mais antigo das coisas vivas sempre foi incerta, já que os três domínios da vida – bactérias, arquea e eucariotas – parecem não ter um ponto comum de origem.

Os arqueas são organismos parecidos com as bactérias, mas com um metabolismo diferente, e os eucariotas incluem todas as plantas e animais.

Recentemente, os investigadores passaram a acreditar que as bactérias e arqueas são os domínios mais antigos, com os eucariotas a surgir mais tarde.

Isto abriu caminho para que um grupo de biólogos evolucionistas, liderados por William F. Martin, da Universidade Heinrich Heine, em Dusseldorf (Alemanha), tentassem definir a natureza do organismo que originou bactérias e arqueas.

Os investigadores começaram a pesquisar os genes que codificam as proteínas das bactérias e arqueas, analisando mais de seis milhões desse tipo de genes.

Árvores genealógicas

Genes com a mesma função em humanos e em ratos, por exemplo, normalmente descendem de um ancestral genético em comum, do primeiro mamífero.

Ao comparar as sequências de ADN, os genes podem ser agrupados em árvores genealógicas evolutivas, o que permitiu que Martin e a sua equipa distribuíssem os seis milhões de genes em poucas árvores genealógicas. Destas, apenas 355 têm as características necessárias para serem descendentes do LUCA.

Ao conseguir determinar que genes provavelmente estariam presentes no LUCA, a equipa de Martin conseguiu descobrir onde este vivia.

Estas 355 famílias de proteínas apontam com muita precisão para um organismo que viveu em condições encontradas em fontes hidrotermais profundas, um ambiente intensamente quente e saturado de metais, causado pela interação da água com o magma que surge do fundo do mar.

Entre esses genes, alguns metabolizam o hidrogénio como uma fonte de energia, e outros são responsáveis por uma enzima chamada girase, encontrada apenas em micróbios que vivem em temperaturas extremamente altas.

A descoberta tem “avançado significativamente a nossa compreensão sobre como LUCA viveu”, comentou James McInerney, da Universidade de Manchester (Reino Unido). “É uma visão intrigante sobre a vida há quatro mil milhões de anos”.

Afirmação ousada

William Martin não parou por aqui. O investigador sugere ainda que o LUCA pode estar muito próximo da origem da vida na Terra, já que não tem muitos genes necessários à vida, e que por isso estaria apenas “meio-vivo”.

A declaração gerou controvérsias no meio científico. Outros investigadores acreditam que o LUCA já era um organismo muito sofisticado, muito evoluído em relação ao início da vida. “O LUCA e a origem da vida são eventos separados por uma vasta distância evolutiva”, considera Jack Szostak, investigador especializado nas primeiras membranas celulares.

Outros cientistas concordam que o LUCA provavelmente viveu nas fendas do fundo do mar, mas discordam sobre este ser o local onde a vida se originou.

Para eles, é possível que a vida tenha começado em qualquer outro lugar e depois tenha ficado confinada a este local devido a algum evento catastrófico, como o Intenso Bombardeio Tardio, que aconteceu entre 3,8 e quatro mil milhões de anos atrás. Neste evento, um número imenso de asteróides atingiu o nosso Sistema Solar.

Este assunto ainda está longe de ser esgotado, mas a descoberta desde ancestral em comum já é um grande passo no estudo da origem da vida na Terra.

HypeScience

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