Carrie Lam nega mas, se pudesse, desistia da liderança de Hong Kong

Jerome Favre / EPA

A líder do Governo de Hong Kong disse, esta terça-feira, que nunca pediu a demissão a Pequim, depois de uma gravação áudio ter vindo a público na qual afirmou que, se tivesse escolha, renunciaria ao cargo.

“Nunca ofereci a minha demissão ao Governo Popular Central. Nunca pensei em renunciar. A escolha de não renunciar é minha”, garantiu Carrie Lam em conferência de imprensa.

Desta forma, a líder do Executivo de Hong Kong respondeu às gravações áudio que vieram a público relativas a uma reunião onde participou com empresários locais. “Se tivesse uma escolha, a primeira coisa (que faria) seria renunciar, depois de me desculpar convenientemente”, disse, de acordo com o áudio que foi agora divulgado.

Estas são declarações registadas durante uma reunião realizada na semana passada, na qual Lam também disse que “o espaço político de manobra do chefe do Executivo deve responder constitucionalmente a dois soberanos”: o Governo Popular Central e o povo.

De acordo com a gravação, Lam afirmou que o Governo de Pequim “não tem absolutamente nenhum plano de enviar o Exército de Libertação Popular (EPL) para Hong Kong” e que Pequim está disposto a “jogar a longo prazo” e está ciente de que não há “solução de curto prazo” para o problema de Hong Kong.

A líder de Hong Kong disse ainda que ficou “muito triste” por as suas declarações “numa sessão totalmente privada” terem sido gravadas e disponibilizadas à imprensa. “É inaceitável”, afirmou, negando que a fuga de informação tenha sido feita pelo seu Executivo numa tentativa de transferir a culpa para Pequim.

É infundado pensar que eu ou o Governo desempenhamos algum papel” na fuga de informação, apontou, acrescentando que, pessoalmente, a renúncia “poderia ter sido a maneira mais fácil” mas é um caminho que optou por não seguir: “ficámos para ajudar Hong Kong a ultrapassar esta difícil situação”.

Numa conferência de imprensa esta segunda-feira, a polícia de Hong Kong anunciou que desde o início dos protestos pró-democracia foram detidas 1.117 pessoas, 159 das quais no fim-de-semana, marcado por manifestações não autorizadas e confrontos violentos.

Dos 159 detidos, 132 são homens e 26 mulheres entre os 25 e os 38 anos, adiantaram as forças de segurança numa conferência de imprensa transmitida em direto no Facebook, durante a qual se destacaram os atos de vandalismo de alguns “manifestantes radicais”.

Os manifestantes foram detidos por participação em manifestações ilegais e agressões a elementos das forças de segurança.

A escalada de violência na região administrativa especial chinesa traduziu-se em 241 disparos de gás lacrimogéneo e 92 balas de borracha por parte da polícia, que foi obrigada a efetuar dois disparos de aviso para o ar.

Os protestos em Hong Kong duram há quase três meses. Na semana passada, foram detidos proeminentes ativistas e três deputados do parlamento.

A polícia deixou de fazer policiamento a pé pelas ruas para evitar quaisquer emboscadas às forças de segurança. Um ativista foi atacado com tacos de basebol por homens com o rosto tapado. Um polícia foi alvo também de um violento ataque com uma faca à saída de um turno, na sexta-feira.

Em Hong Kong vive-se um impasse político, depois de os manifestantes terem exigido inicialmente a retirada de uma lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China, para depois somarem outras reivindicações, uma delas o sufrágio universal naquela região administrativa especial chinesa.

A chefe do Governo admitiu chamar a si poderes reforçados face à situação de emergência que se vive no território e com a China a estacionar tropas na cidade vizinha, Schenzen.

O movimento pró-democracia definiu cinco reivindicações: a retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins, um inquérito independente à violência policial, e finalmente a demissão da chefe de Governi Carrie Lam e consequente eleição por sufrágio universal para este cargo e para o Conselho Legislativo, o parlamento de Hong Kong.

A transferência de Hong Kong para a República Popular da China, em 1997, decorreu sob o princípio “um país, dois sistemas”, precisamente o que os opositores às alterações da lei da extradição garantem estar agora em causa.

Tal como acontece com Macau, para aquela região administrativa especial da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário. O Governo central chinês é responsável pelas relações externas e defesa.

// Lusa

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