António Cotrim / Lusa
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Almirante Henrique Gouveia e Melo
Gouveia e Melo explicou a importância dos gastos com a Defesa, apelou a uma mudança inteligente de paragdigmas; e lançou o debate à governação (na qual pode, por volta daqui a um ano, quem sabe, ter alguma interferência).
Henrique Gouveia e Melo participou, esta terça-feira, num debate sobre “O Papel de Portugal no Mundo”, organizado pela SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social) Jovem, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Não foi desta que o Almirante desfez o tabu sobre se vai ou não candidatar-se à presidência da República, apesar de, no dia anterior, à margem da mesma iniciativa na FDUL, o já candidato Luís Marques Mendes lhe ter dado as boas-vindas.
Na conferência desta terça-feira, o especialista Gouveia e Melo explicou a importância dos gastos do Estado com a Defesa.
O Almirante disse que era possível defender o Estado Social ao mesmo tempo que se investe na Defesa, esclarecendo que, na sua visão de Estado, tão importante são os canhões como a manteiga – não existindo um sem outro.
“Não há aqui uma dicotomia. Essa dicotomia, canhões ou manteiga, é uma dicotomia que se quer fazer passar, mas é canhões e manteiga. Neste caso, os canhões para proteger a manteiga; e, claro, a manteiga para sustentar as pessoas que estão a tratar os canhões“, argumentou.
Precisamente sobre a “defesa do Estado Social”, Gouveia e Melo recusa cortes, porque é o Estado Social que nos “diferencia, portugueses e europeus”.
Isso não quer dizer que não haja, paralelamente, um investimento na defesa.
“Eu não vou falar sobre a Europa, vou falar sobre Portugal porque é o que nos interessa. Não há um ‘ou’, há um ‘e’. Tem de ser as duas coisas. Claro que nós não devemos cortar no Estado Social, porque isso é o que garantiu a solidariedade e a coesão europeia, que no mundo inteiro é uma das marcas da nossa sociedade e do nosso diferencial positivo”, esclareceu o ex-Chefe do Estado-Maior da Armada.
Reino Unido corta na ajuda humanitária
Estas declarações de Henrique Gouveia e Melo acontecem no mesmo dia em que o Reino Unido, pela voz do seu primeiro-ministro Keir Starmer, anunciou um “grande desvio” do seu Orçamento para a Defesa.
É o “maior aumento desde o fim da Guerra Fria” na despesa em Defesa dos britânicos. Para isto, Starmer cortou a ajuda a países em desenvolvimento.
“Este aumento, a curto prazo, só pode ser financiado através de escolhas difíceis. Isso significa que reduziremos a nossa despesa com a ajuda ao desenvolvimento, passando dos atuais 0,5% do Rendimento Nacional Bruto [RNB] para 0,3% em 2027″, esclareceu o primeiro-ministro britânico, esta terça-feira.
“Temos de mudar a nossa postura em matéria de segurança nacional porque um desafio único exige uma resposta única. Isso exige algumas escolhas extremamente difíceis e dolorosas“, lamentou.
Este anúncio surge dias antes de Keir Starmer se reunir com Donald Trump, na Casa Branco. O Presidente dos EUA tem pressionado os europeus a aumentarem o investimento em Defesa.
Gouveia e Melo concorda que é preciso investir mais, mas com inteligência.
“Nós gastamos cerca de 65% da despesa do Estado na área social. Se gastarmos 64,5%, o Estado Social não cai no dia seguinte”, disse o Almirante.
No entanto, se investirmos,”com mais inteligência, eficiência e mais tecnologia” em Defesa, podemos ter efeitos positivos, “porque o investimento em Defesa pode refletir-se no PIB“, fazendo-o crescer.
“Temos de encontrar sinergias e ser mais eficientes”, apontou. Gouveia e Melo garante que “numa economia de maior valor acrescentando teremos mais recursos para investir no Estado Social”.
Almirante lança debate à governação
Reafirmando-se contra o serviço militar obrigatório, o ex-Chefe do Estado-Maior da Armada disse que havia mais formas de um país se organizar.
Gouveia e Melo disse preferir algo “mais inteligente”, sem especificar exatamente o quê. Ainda assim, deu como exemplo (lamentando) o facto de em Portugal haver “o dobro de polícias” em relação ao número de militares.
O Almirante confessou que gostaria de ter mais militares disponíveis para qualquer eventualidade.
E poderia resolver isso através de “incentivos, fiscais ou monetários, aos militares que saem para que, quando saírem, fiquem na reserva. Em vez de ser um serviço obrigatório, ia ser um serviço voluntário“.
O Almirante não se estendeu muito sobre as soluções que tem para a defesa, referindo apenas que “o debate fica lançado à governação”.
Será o prenúncio de um anúncio que aí virá? Hoje já não será e também não há pressa. Para Gouveia e Melo, depois de tantos anos nas Forças Armadas, é um alívio poder intervir no espaço público e expressar as suas opiniões.
“Há muito tempo para decidir, há muito tempo para refletir, não há necessidade de nenhuma pressa. E hoje estou a fazer o meu percurso. Acabei de sair das Forças Armadas, deixei um tempo a me distanciar das Forças Armadas e estou a intervir no espaço público com a minha opinião”, afirmou.
O ex-Chefe do Estado-Maior sublinhou que, depois de sair das Forças Armadas, esta é primeira vez que tem “liberdade cívica” para falar de outros assuntos, enquadrando o artigo publicado na semana passada Expresso nessa participação cívica.