Lei do Clima exige neutralidade carbónica até 2050. Greta Thunberg diz que a UE desistiu

Patrick Seeger / EPA

Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia

A Comissão Europeia adotou, esta quarta-feira, uma proposta legislativa para garantir o cumprimento do compromisso recentemente assumido pela União Europeia de alcançar a neutralidade carbónica até 2050, com a nova Lei do Clima a fixar metas vinculativas.

Segundo o executivo comunitário, trata-se de consagrar na legislação comunitária o compromisso político dos líderes europeus no sentido de assegurar a neutralidade carbónica na Europa o mais tardar até dentro de 30 anos, um dos pilares do Pacto Ecológico, a grande bandeira da Comissão liderada por Ursula von der Leyen.

A Lei Europeia do Clima adotada pela Comissão Europeia propõe uma meta legalmente vinculativa de zero emissões de gases com efeito de estufa até 2050 e inclui medidas para ir avaliando os progressos — o que acontecerá a cada cinco anos — e ajustar ações em conformidade.

A proposta legislativa traça também o caminho para a UE chegar ao seu objetivo de neutralidade carbónica, tendo a Comissão anunciado que, com base numa avaliação de impacto abrangente, irá em breve propor novas metas para 2030 a nível de redução das emissões de dióxido de carbono (CO2), traçando posteriormente uma trajetória para o período entre 2030 e 2050, também para proporcionar “previsibilidade às autoridades públicas, empresas e cidadãos”.

O executivo comunitário aponta que até junho de 2021 irá passar em revista — e, quando necessário, alterar — todos os instrumentos políticos relevantes para garantir o cumprimento das reduções suplementares de gases com efeito de estufa até 2030, e a partir de 2023 avaliará “a consistência das medidas europeias e nacionais relativamente ao objetivo de neutralidade carbónica e à trajetória 2030-2050″.

A Comissão tenciona também ter poderes reforçados para emitir recomendações aos Estados-membros cujas ações sejam “inconsistentes com o objetivo de neutralidade carbónica”, sendo os países obrigados a agir em conformidade com estas recomendações.

Por fim, Bruxelas indica que também será pedido aos Estados-membros “que desenvolvam e implementem estratégias de adaptação para reforçar a resiliência e reduzir a vulnerabilidade aos efeitos das alterações climáticas”.

“Estamos a agir hoje para tornar a União Europeia o primeiro continente neutro em termos de clima até 2050. A Lei do Clima é a tradução legal do nosso compromisso político e traça de forma irreversível o nosso caminho para um futuro mais sustentável. É o coração do Pacto Ecológico europeu. Oferece previsibilidade e transparência para a indústria e investidores europeus. E traça uma direção para a nossa estratégia de crescimento verde, garantindo que a transição será gradual e justa”, comentou von der Leyen.

Por seu lado, o vice-presidente executivo responsável pelo Pacto Ecológico, Frans Timmermans, comentou que a adoção desta proposta de lei não só mostra aos cidadãos europeus que a UE leva a sério o seu compromisso de atingir zero emissões de gases com efeito de estufa até 2050, mas constitui também uma mensagem para o resto do mundo.

“A Lei do Clima europeia é igualmente uma mensagem para os nossos parceiros internacionais no sentido de que este é o ano para, juntos, aumentarmos a ambição global, em busca dos nossos objetivos comuns do Acordo de Paris” sobre o clima, disse.

Num Conselho Europeu celebrado em dezembro passado em Bruxelas, os chefes de Estado e de Governo da UE chegaram a um acordo político sobre a neutralidade carbónica até 2050, tendo a Polónia ficado, para já, de fora deste compromisso, mas sem bloquear as conclusões do Conselho.

Em junho, a questão voltará a ser abordada a nível do Conselho, esperando-se que então Varsóvia se junte aos restantes 26 Estados-membros (o que terá de fazer inevitavelmente caso a Lei do Clima seja efetivamente aprovada).

Os líderes da União Europeia já tinham procurado chegar a acordo sobre atingir a neutralidade carbónica até meados deste século na cimeira de junho de 2019, mas na altura esse objetivo foi vetado por Polónia, Hungria, República Checa e Estónia.

“A UE está a dizer que se rende”

A ativista sueca Greta Thunberg, que esteve presente na reunião do colégio como convidada, já criticou esta nova lei, considerando-a pouco ambiciosa.

“Não faz nenhum sentido. Se a nossa casa está em chamas, não esperamos uns anos para apagar o fogo. No entanto, é isso que a Comissão propõe hoje”.

Para a jovem ativista, “quando a UE apresenta esta lei e a neutralidade climática para 2050, indiretamente está a admitir a capitulação, está a dizer que se rende, que deixa de lado o Acordo de Paris, as promessas de fazer todos os possíveis para assegurar um futuro seguro para os seus filhos”.

“Emissões zero até 2050 para a UE são iguais à rendição. Significa desistir. Não precisamos de metas apenas para 2030 ou 2050. Nós, acima de tudo, precisamos delas para 2020 e todos os meses e anos seguintes”, lê-se também numa carta assinada por Greta Thunberg e por outros 33 ativistas do clima.

Questionado sobre as duras críticas da ativista à proposta da Comissão, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Pacto Ecológico, Frans Timmermans, admitiu uma divergência de pontos de vista, ainda que assegurando que os objetivos são os mesmos.

“Eu apresentei o meu ponto de vista à Greta Thunberg esta manhã e aparentemente ela não concorda. Não há problema. Estamos todos a lutar para alcançar os mesmos objetivos. Ela aparentemente tem mais ambição, ou pensa que nós não conseguimos alcançá-los. Eu acho que podemos. E nisso discordamos, não há qualquer problema”, respondeu.

ZAP // Lusa

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