Com Berlusconi fora da corrida, o “Super Mario” Draghi tem a presidência de Itália na mira

europeancentralbank / Flickr

Mario Draghi

A chefiar o Governo italiano há quase um ano, Mario Draghi trouxe ao país algo raro: estabilidade. A eleição desta semana para o próximo Presidente de Itália pode ditar a sua vitória e saída do cargo de primeiro-ministro — um cenário que tanto pode ser promissor como ditar o regresso da inconstância no Governo.

Num país com um sistema político tipicamente marcado pela instabilidade, há um nome que tem conseguido escapar aos frequentes escândalos.

Aos 74 anos e há cerca de um ano à frente do Governo italiano, Mario Draghi está a agora com a presidência na mira, numa jogada arriscada, já que pode acabar por perder esta corrida eleitoral e também o cargo de primeiro-ministro.

Em Itália, a escolha do próximo Presidente da República é feita com um colégio eleitoral, num processo que é muitas vezes comparado à escolha de um novo Papa pelos Cardeais.

Mais de 1000 legisladores e delegados regionais vão iniciar esta segunda-feira as votações secretas, que podem demorar até uma semana, já que é preciso que que o vencedor das três primeiras voltas tenha, no mínimo, uma maioria de dois terços. A partir da quarta ronda, uma maioria absoluta é suficiente. Só em três vezes na história é que se elegeu um novo chefe de Estado na primeira volta.

Este processo vai determinar quem vai ser o sucessor de Sergio Matarella, que vai abandonar a Presidência a 3 de Fevereiro. O mandato é de sete anos e, apesar de Itália não ter um sistema presidencialista, o chefe de Estado tem grandes responsabilidades, podendo nomear o primeiro-ministro, dissolver o parlamento, bloquear leis e rejeitar propostas de nomes para novos ministros.

A própria chegada de Mario Draghi à chefia do executivo veio depois de um pedido de Matarella, que o escolheu para suceder ao Governo de Giuseppe Conte, que caiu em Fevereiro do ano passado.

“Acima de tudo, tem muito poder não escrito, especialmente num país onde o Parlamento está frequentemente dividido, onde há instabilidade. O Presidente é crucial em crises, e há crises com frequência no sistema político italiano”, revela Alessandro Speciali ao Observador, jornalista que escreveu dois livros sobre Draghi.

Caso o Super Mario — alcunha que recebeu dos meios de comunicação enquanto foi Presidente do Banco Central Europeu — consiga vencer a eleição, esta transição de primeiro-ministro directamente para Presidente seria inédita em Itália e permitiria a Draghi consolidar o legado de estabilidade que começou a desenhar em Fevereiro de 2021, com uma boa gestão da pandemia, medidas de recuperação económica e um plano de execução dos 200 mil milhões de euros dos fundos europeus.

A mudança na postura externa de Itália desde que Draghi assumiu o poder também é notável, tendo marcado o fim da maior proximidade à Rússia e à China. “Ter Draghi como Presidente significa que, durante sete anos, a Itália se mantém no eixo Atlântico”, aponta o analista Francesco Galietti.

“O último ano foi incrivelmente livre de escândalos”, revela John Hooper, correspondente da Economist em Itália, que lembra ainda que há a proximidade das legislativas de 2023 pode trazer entraves ao Governo de Draghi. “Se ele se mantiver no governo, não vai poder fazer muito, porque os políticos vão em breve entrar em modo pré-eleições e vai ser difícil que apoiem algum tipo de medida mais impopular”.

Mas também há argumentos contra o Presidente Super Mario. Para além do risco de perder tanto o cargo de primeiro-ministro como de chefe de Estado, há receios de que a aplicação dos fundos europeus possa ficar em suspenso caso o novo chefe do Governo não execute o plano que o Draghi apresentou em Bruxelas.

No entanto, a maior preocupação é de que não haja um sucessor à altura na liderança de um Governo que exige talento para a negociação por reunir partidos de todo o espectro político, desde a extrema-direita do Movimento Cinco Estrelas e da Liga, passando pelas forças mais centristas do Força Itália, Partido Democrático e Itália Viva, até ao partido de esquerda Artigo Um.

“O meu receio é se pode ser encontrado um substituto que consiga segurar a coligação. Draghi tem uma espécie de estatuto de ‘Super Mario’, que é quase intimidante para os políticos italianos”, considera John Hooper.

As sondagens mostram que este estatuto não é uma miragem, com Draghi frequentemente a ter taxas de aprovação a rondar os 65%. Um inquérito recente também concluiu que 53% dos italianos quer um Presidente “Super Mario”.

O jornalista Alessandro Speciale enumera os ingredientes da receita do sucesso deste primeiro-ministro que “não tolera disparates”. “Tem uma abordagem diferente para tentar fazer coisas e não se envolve em grandes retóricas ou vaidades, como os políticos normalmente fazem. Não faz muitas promessas, fala pouco e só de factos. Há satisfação com a eficácia e o pragmatismo que tem mostrado”, comenta.

Berlusconi desiste da Presidência

Apesar da preferência dos italianos por ter Draghi como Presidente e deste ser apontado como favorito, ainda nada está garantido, já que são os deputados e delegados regionais que escolhem o chefe de Estado.

Mas pelo menos um obstáculo já caiu neste domingo, com a retirada de Silvio Berlusconi, que serviu quatro mandados enquanto primeiro-ministro italiano.

Não há candidatos oficiais nas eleições Presidenciais, mas o ex-líder do Governo quebrou a tradição e fez uma campanha aberta, apelando ao apoio dos deputados e comprando anúncios de páginas inteiras nos jornais, como lembra o The Guardian.

No entanto, Berlusconi acabou por se retirar da corrida durante o fim de semana, com uma carta endereçada aos seus apoiantes em que lhes pede que escolham outro candidato e revela que desistiu em nome do espírito da “responsabilidade nacional“.

Os problemas de saúde do antigo primeiro-ministro também causaram preocupação, depois dos meios de comunicação italianos darem conta da preocupação da sua família depois de Berlusconi ter sido internado na semana passada.

Recorde-se que o ex-primeiro-ministro, que lidera o Forza Italia, vetou o apoio do partido a Draghi, argumentando que este tem de se manter como primeiro-ministro até ao fim da legislatura em 2023 e evitar assim que haja eleições antecipadas.

Com o seu afastamento, desaparece também um adversário para Draghi que, apesar de ter tido uma carreira marcada por vários escândalos, ainda é um nome de peso na política italiana.

Uma fonte do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, deu conta de alguns receios dos partidos do Governo sobre a escolha de Draghi para a Presidência e eventuais novas legislativas. “Não há muito entusiasmo entre todos os partidos. O Movimento Cinco Estrelas receia que vai levar a eleições antecipadas e alguns dentro do PD temem perder trabalhos ministeriais no novo Governo”, cita o The Guardian.

Mesmo assim, Alessandro Speciale, considera que o Super Mario tem “boas hipóteses”. “É provável que não seja o candidato preferido de nenhum partido, porque todos preferem outra pessoa, mas ao mesmo tempo é a segunda melhor hipótese para a maioria. Isto significa que, quando o parlamento está dividido, quando não entram em acordo, ele é o mais provável consenso”, explica.

Para além de muitos analistas defenderem que as eleições antecipadas devem ser evitadas a todo o custo, já que seria muito difícil voltar a encontrar um acordo entre os partidos.

Há também uma outra motivação para os deputados que queiram evitar as novas legislativas, já que aqueles que não completarem um mandato perdem o direito a uma pensão vitalícia.

De acordo com o jornal La Repubblica, citado pelo Observador, 68% dos deputados e 73% dos senadores estão nesta situação.

Outros possíveis concorrentes para a Presidência incluem o Senador centrista Pier Ferdinando Casini, a ministra da Justiça Marta Cartabia e o antigo primeiro-ministro Giuliano Amato. Há também uma facção do Movimento Cinco Estrelas que quer uma reeleição de Mattarella, mas este já deu a entender que se quer reformar.

Vários nomes também têm sido apontados como possíveis sucessores de Draghi à frente do executivo, como Daniele Franco, actual ministro das Finanças ou Elisabetta Belloni, actual chefe da diplomacia ou Vittorio Colao, ministro da inovação tecnológica e antigo CEO da Vodafone

  Adriana Peixoto, ZAP //

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