Bazuca europeia “não é suficiente”. Economista francês defende rendimento mínimo de 120 mil euros para jovens

Sue Gardner / Wikimedia

Thomas Piketty, professor na Paris School of Economics.

O economista francês Thomas Piketty considera que a “bazuca” da União Europeia (UE) “não é suficiente” para recuperar da crise pandémica, sobretudo para reduzir as desigualdades económicas. Nesse sentido, defende impostos mais elevados sobre os ricos e um rendimento mínimo de 120 mil euros para os jovens.

Ideias que o economista deixa em entrevista à Rádio Renascença (RR) no âmbito do lançamento do seu mais recente livro em Portugal, intitulado “Capital e Ideologia”.

Depois do bestseller “O Capital no Século XXI”, a nova obra, que tem 1200 páginas, “é um livro crítico” para com a China, “mas também com Donald Trump, os EUA, a União Europeia”, relata na RR.

E quanto à bazuca europeia de 750 mil milhões de euros, dos quais quais 15,3 mil milhões vão chegar a Portugal, para responder à crise pandémica, Piketty acredita que os próximos meses vão provar que serão verbas “insuficientes”.

“Seria melhor um plano de recuperação com um número menor de países, talvez a Alemanha, França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica”, constata o economista que defende que é preciso mudar “as regras de jogo” da UE quanto à forma de tomar as grandes decisões.

“Por vezes, é melhor um número menor de países, mas que estão prontos para decidir por maioria, numa nova forma de Assembleia Europeia, baseada nos membros dos parlamentos nacionais”, aponta.

“Em vez de uma sequência de vetos de cada país, é preferível ter uma Assembleia Europeia Comum, representativa destes parlamentos nacionais, onde submeteríamos a decisão à regra da maioria” em vez da unanimidade, acrescenta, considerando que desta forma teria havido “maioria para decidir um Plano de Recuperação ainda maior do que o que foi apresentado”.

“Se dentro de três meses percebermos que isto é pouco, será muito difícil garantir uma unanimidade como tivemos em Julho. E, mesmo essa unanimidade não será suficiente, porque o Plano de Recuperação ainda não está no terreno”, atira ainda Piketty.

O economista refere também que “a UE já está dividida”. “Éramos 28, agora somos 27. Estamos à espera de quê? Vamos esperar até sermos 26, 25, 10, antes de alterarmos as regras do jogo?”, questiona.

Para o francês “é muito importante mudar as regras do jogo, se queremos proteger o modelo de protecção social europeu e avançar na redução da desigualdade”.

Impostos de 80% para os bilionários

Ora, a melhor forma de acabar com a desigualdade são os impostos, defende Piketty, salientando que “a tributação progressiva de vencimentos muito elevados, aplicada por exemplo nos EUA no tempo de Roosevelt, foi um grande sucesso”. “Existia uma taxa sobre os rendimentos, acima de 80% ou mesmo de 90%, dos bilionários de topo e funcionava muito bem”, destaca.

Para evitar a evasão fiscal e “para isto funcionar são necessárias sanções credíveis, sobre quem tentar escapar aos impostos”, assume, realçando que “quando foi aplicado nos EUA, com Roosevelt, foi com pesadas sanções para quem desobedecia à lei”.

“A economia é feita de empreendedores, assalariados, funcionários que trabalham arduamente, que devem conseguir um rendimento anual que proporcione uma boa vida, mas não têm de ser milhares de milhões“, constata Piketty para justificar a sua ideia dos impostos mais elevados para as grandes fortunas.

“Tipicamente, num país como Portugal, 50% da população que está na base recebe 5% da riqueza total. Já os 10% mais ricos do país recebem cerca de 60% da riqueza produzida”, nota o economista, salientando que “a metade das crianças portuguesas que está no fundo da tabela não vai receber nenhum rendimento”.

Assim, Piketty propõe que “todos aos 25 anos, que hoje recebem zero, recebam um rendimento mínimo de 120 mil euros“. “Quem hoje recebe uma herança de um milhão, depois do imposto progressivo ainda ia receber 600 mil euros, que continua a ser muito mais que 120 mil”, destaca.

Medidas radicais que visam “um objectivo de igualdade” e que olham para “os 15% na base da população [que] não recebem hoje”.

“Fala-se muito da igualdade de oportunidades como um ideal, mas quando chega o momento de a pôr em prática, as pessoas são muito mais conservadoras”, reconhece.

Piketty conclui que “ainda nenhum país inventou o sistema perfeito” e, por isso, diz que é preciso “retirar lições de diferentes experiências nacionais, de modo a tentar construir um sistema económico melhor e diferente no futuro”.

ZAP //

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8 COMENTÁRIOS

  1. mais um brilhante….ANTIFA!

    o que funcionava muito bem era antes de 1913 nos EUA não haver qq tributação às pessoas, isso sim funcionava muito bem, não as parvoíces deste senhor.

  2. Se estes pulhiticos lessem Fernando Pessoa nunca se tinham metido numa UE que sempre foi um nado morto:
    Fernando Pessoa
    Primeiro: O DOS CASTELOS
    Primeiro

    O DOS CASTELOS

    A Europa jaz, posta nos cotovelos:

    De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

    E toldam-lhe românticos cabelos

    Olhos gregos, lembrando.

    O cotovelo esquerdo é recuado;

    O direito é em ângulo disposto.

    Aquele diz Itália onde é pousado;

    Este diz Inglaterra onde, afastado,

    A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

    Fita, com olhar esfíngico e fatal,

    O Ocidente, futuro do passado.

    O rosto com que fita é Portugal.

    8-12-1928

  3. Este homem só pode estar alcoolizado.
    Vejamos:
    – Com taxas de 80% as pessoas deixariam de trabalhar. Trabalhar para pagar impostos?!!
    – Um rendimento de 120 mil euros para os jovens apenas promoveria o aumento das importações e muito provavelmente a subida de preços de alguns bens.
    – As duas medidas retirariam pessoas do mercado de trabalho. Os jovens obviamente deixariam de trabalhar e os mais taxados também não estariam para isso.

    e muito mais haveria para dizer desta tonteria

  4. Dá que pensar !…. 1º- Rendimento mínimo de 120 mil €, para Jovens (exclusivamente) ???.. Anualmente, Mensalmente, Diariamente ou a Hora ?…R.Minimo de Salário, o que implica “Trabalhar”, ou R.Minimo de ociosidade ?.. . 2º- Penalizar altamente as grandes fortunas, e vai ser a grande fuga de capitais para ofshores !……..3º- Uma Assembleia Europeia Comum, com votação e aprovação por maioria, para certas decisões, não é de descartar, mas….sim há um mas !… Como ficamos em termos de Soberania de cada Estado ????….. Por fim está mais que comprovado que o Dinheiro é o cerne de todos os males. Em todo o caso parabéns ao Sr . Thomas Piketty, iminente Utópico Economista !…Ou estarei eu equivocado com o arttigo !

  5. Também acho bem, 120 mil euros para malandros gastarem em drogas, bebedeira, discotecas em vez de ensinar-lhes o caminho de produzir riqueza e muitíssimo menos para quem produz a riqueza de um país, ele há de facto políticos cada vez mais evoluídos por este mundo fora! Por este caminhar a humanidade irá chegar longe!

  6. Pena não termos por cá economistas deste calibre.

    O que ele preconiza iria gerar uma sociedade completamente diferente da sociedade por castas que actualmente está instalada no nosso país. Iria gerar uma sociedade de pensadores, criadores, de pessoas que poderiam olhar para além da sobrevivência.

    O poder de escolher pessoas assim para o poder está nas mãos de todos mas, infelizmente, assistimos todos os dias ao zé povinho a votar nos mesmos, a eternizar um regime corrupto que bebe o sangue de quem o sustenta e ainda se ri.

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