Na Antiga Roma já havia “fake news” (e algumas resistiram até hoje)

Riccardo Antimiani / EPA

Palácio de Nero, Roma

As “fake news” manipuladas com intuitos políticos não são uma invenção dos nossos tempos. Já na Antiga Roma se disseminavam boatos para louvar uns e denegrir outros em função de interesses políticos. E alguns desses rumores sobreviveram até hoje.

O livro “Fake News de la antigua Roma. Engaños, propaganda y mentiras de hace 2000 años” (Fake News da antiga Roma. Enganos, propaganda e mentiras de há 2000 anos) que foi lançado em Espanha, pelo arqueólogo Néstor F. Marqués compila algumas das histórias falsas do Império Romano que sobreviveram no tempo.

Uma das figuras mais carismáticas da Antiga Roma é o Imperador Nero que surge sempre retratado como louco e irascível, sendo apontado como o responsável pelo grande incêndio de Roma no ano 64 Depois de Cristo.

Mas afinal, nesse dia, Nero nem sequer estava em Roma, realça o arqueólogo, constatando que o incêndio terá sido acidental.

“Houve um rumor de que Nero tinha sido visto num jardim da cidade, depois alguém ouviu que observava o fogo desde uma torre e anos depois, o Imperador tocava lira no palácio imperial enquanto a cidade ardia, mas a realidade não tem nada a ver com esta versão”, relata Néstor F. Marqués ao jornal espanhol El País.

Criaram-se muitos boatos sobre o mundo romano, alguns geraram-nos os próprios romanos por interesses políticos para prejudicar, por exemplo, um imperador e louvar outro, mas também há histórias que se foram deformando com o passar do tempo”, aponta o arqueólogo.

O caso de Lívia, a “madrasta malvada”

Especiais vítimas de histórias falsas foram as mulheres. “Para os romanos, a mulher, se não estava sob a tutela de um homem, era muito má”, explica o escritor em declarações ao blogue XX Siglos.

Como exemplo paradigmático, Néstor F. Marqués cita o caso de Lívia, a mulher do Imperador Augusto. Os relatos históricos que existem sobre Lívia foram escritos por Tácito, um historiador “republicano e misógino” que “não entendia como a companheira de Augusto podia governar junto com ele”, conta o arqueólogo.

“Na sua ideia das coisas, se tinha tanto poder era porque era malvada“, acrescenta, frisando que “por isso, Tácito insinua que matou os filhos de Augusto” para “favorecer o seu, Tibério”.

“Hoje sabemos que Lívia era muito querida e que chegou a ser proposta como Mater Patriae, mãe da pátria, que era uma honra tremenda”, salienta Néstor F. Marqués, reforçando que “entre os romanos já havia o mito da madrasta malvada, ao estilo da Disney, que era muito fácil de assimilar”.

Bacanais romanos eram rituais religiosos

Outra história falsa que sobreviveu ao tempo prende-se com os bacanais romanos que reportam para a imagem de pessoas a comerem em excesso e a participarem em orgias. “O tema dos bacanais não tem nada a ver com esse conceito”, assegura Néstor F. Marqués, sustentando que eram “rituais religiosos dedicados a Baco, o deus do vinho”.

O arqueólogo revela que a ideia errada que temos dos bacanais resulta de um rumor difundido no ano de 186 Antes de Cristo pelo cônsul Postumio (de 305 a 291 Antes de Cristo). Preocupado com o poder do Senado pelo facto de os homens participarem nos bacanais, Postumio “fez uma caça às bruxas“, assegura o arqueólogo, realçando que tratou de difundir “a falsidade de que nessas celebrações, onde se ligavam a Baco através da dança e da música, havia sexo em grupo e assassinatos“.

Assim, Postumio “convenceu o povo de que o que se fazia era terrível e até executou alguns dos seus seguidores para reduzir o culto a este deus”, conclui.

Também errada é a percepção que temos das perseguições aos cristãos, nomeadamente de que eram devorados por leões. “Esta condenação existia, mas só para determinados delitos, não por questões religiosas”, garante o arqueólogo ao jornal El País.

Néstor F. Marqués diz que há “muito mito” nas perseguições aos cristãos e aponta que “em três Séculos, foram condenados umas centenas, concentrados num período de 13 anos”.

“Os cristãos nunca entenderam que os romanos não os perseguiam por raiva, mas porque para eles era inconcebível que um cidadão do império não venerasse o Imperador e o Império”, pois se não o faziam, “o Império ficava indefeso”, constata.

Mas perante estas “fake news” que resistiram da Antiga Roma, como é que se pode, afinal, conhecer a verdadeira história do que aconteceu? O caminho para a verdade passa por “unir algumas peças dispersas”, diz Néstor F. Marqués, concluindo que a História é “um intrincado conjunto de factos, mentiras e opiniões que se entre-cruzam num grande sistema que, muitas vezes, é difícil de compreender”.

SV, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. ” se não o adoravam como Deus o império ficava indefeso ” isso nem mesmo é compatível com a cultura Romana original que criou o império e o manteve forte , isso só criou déspotas e minou o sistema político romano e se eles o fizessem mesmo tantos imperadores não teriam sido assassinados

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