A Amazónia era um verdadeiro “supermercado pré-histórico” há 2 mil anos

São mais de 500 grandes figuras geométricas e as primeiras foram descobertas na Amazónia há 40 anos. Mas se os chamados geóglifos continuam a ser um grande enigma para os cientistas, o novelo do mistério começa a desenrolar-se e pode reescrever a história da Amazónia.

Estes geóglifos, como são conhecidos, ficaram escondidos durante séculos, debaixo da densa floresta tropical. Mas, graças à desflorestação que afecta Estados como o Acre, o Amazonas e a Rondónia, foi possível descobri-los a partir do ar.

As primeiras amostras foram detectadas em 1977 por um professor brasileiro. Mais recentemente, e graças ao uso de drones, foi possível concluir que existem em grande número, nomeadamente no Acre, onde a investigadora britânica Jennifer Watling identificou mais de 400.

Estamos a falar de trincheiras ou buracos escavados na terra, em forma circular ou quadrada, que terão sido desenhados há cerca de 2 mil anos e que teriam um propósito ritual ainda não totalmente esclarecido.

Muito antes de os europeus  chegarem…

O enigma em torno destes geóglifos persistiu durante muitos anos, mas finalmente, a ciência começa a desenrolar o novelo do mistério, como atesta um novo estudo publicado no jornal Proceedings of the National Academy of Sciences.

Esta pesquisa contraria a ideia de que as florestas amazónicas foram “ecossistemas intocados”, até portugueses e espanhóis terem chegado à região no Século XVI, diz Jennifer Watling, citada pelo Phys.org.

A investigadora nota que os povos indígenas que viviam na zona, há mais de 2 mil de anos, e que terão construído os misteriosos geóglifos, já interferiam na floresta, fazendo uma gestão sustentável da mesma.

Recorrendo às tecnologias mais inovadoras da actualidade, nomeadamente à análise de isótopos estáveis de carbono em componentes químicos, os investigadores conseguiram reconstruir 6 mil anos de história da vegetação, bem como o historial dos incêndios, em torno de dois locais onde se descobriram geóglifos.

Assim, concluíram que “florestas de bambu dominaram a região durante mais de 6 mil anos e que apenas pequenas clareiras temporárias eram feitas para construir os geóglifos”, “dentro de uma floresta antropogénica que vinha sendo gerida activamente, ao longo de milénios”, apontam os autores no artigo científico.

“Supermercado pré-histórico” de produtos florestais

Estes povos indígenas terão alterado de forma significativa a paisagem, mas sem proceder à “desflorestação alargada”, apostando antes na “exploração de produtos florestais”, acrescentam os investigadores.

“Em vez de queimarem grandes extractos de floresta – seja para a construção de geóglifos, seja para práticas agrícolas -, as pessoas transformavam o seu ambiente concentrando-se em espécies de árvores economicamente valiosas, tais como palmeiras, criando um tipo de “supermercado pré-histórico” de produtos florestais úteis“.

Mas esta ideia de que “as florestas amazónicas foram geridas pelos povos indígenas, muito antes do contacto com europeus, não deve ser citada como justificação para o uso insustentável e destrutivo da terra” como se pratica hoje em dia, diz Jennifer Watling.

Pelo contrário, estas provas devem servir para sublinhar “a importância do conhecimento indígena para encontrar alternativas mais sustentáveis para o uso da terra”, diz a investigadora.

Este conhecimento do passado da Amazónia e da forma como a intervenção humana modificou a sua paisagem é importante para a sua conservação futura, realçam os investigadores de Universidades brasileiras e britânicas envolvidos neste estudo.

E “se as florestas da região foram limpas intensivamente para a construção de geóglifos e para uso, isto pode implicar que as florestas de terra firme são mais resistentes aos impactos humanos do que previamente se pensava”, concluem os cientistas.

SV, ZAP //

PARTILHAR

3 COMENTÁRIOS

  1. ZAP…
    Desculpem… mas deve haver um erro aqui: “… povos indígenas que viviam na zona, há mais de 2 milhões de anos…”… em vez de milhões deve ser milhares… pois a nossa espécie não tem nem 1 milhão de anos de existência neste planeta… e teria que ter ainda muito menos por essas partes do mundo…

    • Caro PauloSR,
      Tem toda a razão, a humanidade (ou o que tal se possa chamar) existe há apenas 8 mil anos.
      A referencia a 2 mil anos no título está correcta, os 2 milhões do texto estão obviamente errados. Está corrigido, obrigado pelo seu reparo.

      • ZAP:
        Caro ZAP, “a humanidade (ou o que tal se possa chamar) existe há apenas 8 mil anos”?!
        Apenas posso supor que estava com sono quando fez essa afirmação…

RESPONDER

Veneno de cascavel pode ser o segredo para novo analgésico poderoso

Um composto do veneno da cascavel sul-americana pode ser usado para criar um analgésico poderoso. Os testes feitos em animais foram um sucesso. A crotoxina pode ser encontrada no veneno da cascavel sul-americana, Crotalus durissus terrificus, …

O falecido George Solitário, última tartaruga da sua espécie, pode ter parentes vivos

Uma expedição científica encontrou, em Galápagos, uma tartaruga com uma alta carga genética da espécie a que pertenceu o famoso George Solitário. Em 2012, uma tartaruga gigante, conhecida como George Solitário, faleceu com 100 anos. A …

Vídeo de criança vítima de bullying gera onda de apoio global

Internautas de todo o mundo, inclusive celebridades, uniram-se para dar apoio ao menino australiano, de nove anos, que sofre de bullying por causa da sua aparência. De acordo com a BBC, Yarraka Bayles partilhou o vídeo …

Descoberta nova quasipartícula: o π-ton

Foi descoberta uma nova quasipartícula no Instituto de Tecnologia de Viena. Os cientistas batizaram-na de π-ton, uma quasipartícula que contém dois eletrões e duas lacunas. Existem diferentes tipos de partículas. Um deles, as quasipartículas, são excitações …

É oficial. Friends está de volta para um episódio especial

As preces dos fãs foram finalmente ouvidas. O elenco de Friends vai reunir-se para um episódio especial exclusivo na HBO Max. Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry e David Schwimmer voltarão ao …

Dieta ocidental está a deixar as pessoas menos inteligentes

Uma dieta pouco saudável, à base de hambúrgueres e doces está literalmente a deixar as pessoas menos inteligentes apenas no espaço de uma semana. Esta foi a conclusão de um estudo de investigadores da Universidade …

Pedro Proença: Sociedade deve atuar no combate ao racismo

O presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) disse, esta sexta-feira, que a sociedade portuguesa deve atuar no combate ao racismo, violência, xenofobia e intolerância. A Liga vai lançar, durante este fim-de-semana, uma campanha com …

Na última década, Coreia do Norte gastou mais de meio milhão de dólares em cavalos russos

A Coreia do Norte gastou recentemente dezenas de milhares de dólares na aquisição de 12 cavalos provenientes da Rússia, de acordo com os dados alfandegários. A Coreia do Norte gastou quase meio milhão de dólares (584.302 …

O caranguejo "supervilão" do Canadá vai ser transformado em plástico biodegradável

Uma equipa de cientistas no Canadá desenvolveu um plano para transformar uma espécie invasora de crustáceo - conhecida como como caranguejo supervilão - em copos e talheres  de "plástico", usando as suas carapaças para criar …

Covid-19. Tripulante de navio japonês pode ser o primeiro português infetado

Um português que é tripulante do navio Princess Cruises, atracado no porto de Yokohama, no Japão, pode ter sido diagnosticado "positivo" com o novo coronavírus. Contactada pela agência Lusa, a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, afirma …