Na última década, a Amazónia brasileira emitiu mais carbono do que absorveu

Cícero Pedrosa Neto / Amazonia Real

Queimadas em terras indígenas da Amazónia, Alto Rio Guam, Brasil, em setembro de 2020

Vítima da mudança climática e da atividade humana, a floresta amazónica brasileira emitiu, na última década, mais carbono do que absorveu — uma inversão inédita, aponta um estudo de investigadores na área da matemática e engenharia aeronáutica, publicado esta semana.

Sem as florestas da Terra, que funcionam como “pulmão” do planeta ao absorverem entre 25% e 30% dos gases de efeito estufa emitidos pelos seres humanos, o aquecimento global seria muito maior.

Há vários anos, porém, que os cientistas receiam que esse papel seja cada vez menor, devido à erosão a que as florestas estão sujeitas — especialmente no caso da Amazónia, que representa metade das florestas tropicais do mundo.

O estudo, publicado na quinta-feira na revista Nature Climate Change, analisou imagens de satélite da região brasileira, que representa mais de metade do total da Amazónia.

Entre 2010 e 2019, as perdas de carbono foram 18% superiores aos ganhos, segundo os autores do estudo, realizado por investigadores do instituto francês INRAE, Instituto Nacional de Pesquisa para a Agricultura, Alimentação e o Meio Ambiente.

“É a primeira vez que vejo números que mostram uma inversão, e que a Amazónia brasileira é emissora de carbono”, disse à agência AFP Jean-Pierre Wigneron, investigador do INRAE.

Atualmente, “os outros países compensam as perdas da Amazónia brasileira, e portanto, o conjunto da Amazónia ainda não sofreu essa mudança, mas pode sofrer em breve”, acrescentou o engenheiro aeronáutico francês, doutorado em Análise Climática Remota, que acredita que as florestas tropicais são a “última salvação” do planeta.

O estudo destaca também como a degradação das florestas contribui, em grande parte, para intensificar este fenómeno.

Ao contrário do desmatamento, que faz a floresta desaparecer, as degradações incluem tudo o que pode deteriorar a floresta sem a destrur totalmente, como as árvores frágeis na fronteira em áreas desmatadas, pequenos incêndios, mortalidade de árvores devido à seca, entre outros.

Vinícius Mendonça / Ibama

Fotografia aérea da Amazónia na região de Rondonia, Brasil, agosto de 2019

Para quantificar este problema, os autores do estudo usaram um índice de vegetação obtido mediante observações de imagens de satélite que permitiram analisar o conjunto da vegetação, e não apenas os estratos superiores da floresta.

Os investigadores concluíram que as degradações da floresta contribuíram em 73% para as perdas de carbono, contra 27% no caso do desmatamento — que, no entanto, é muito alto na Amazónia brasileira.

“Prioridade política”

“Isto mostra que a degradação da floresta se transformou no principal motor da perda de carbono e isso deveria ser uma prioridade política”, afirma o estudo, que cita o impacto da “mudança de política” com o governo Bolsonaro, acusado de ter enfraquecido a proteção à Amazónia.

“Todos conhecemos o impacto do desmatamento da Amazónia na mudança climática. Mas nosso estudo mostra que as emissões associadas às degradações das florestas podem ser ainda maiores”, afirmou em comunicado Steph Sitch, co-autor do estudo e investigador da Universidade de Exeter.

A degradação é uma ameaça generalizada para o futuro da integridade das florestas e exige uma atenção urgente por parte da ciência”, defendeu o matemático britânico, doutorado em Ecologia Vegetal.

O estudo mostra também a aceleração do desmatamento na Amazónia brasileira em 2019, ano da chegada de Bolsonaro ao poder, e também de uma forte seca: 3,9 milhões de hectares foram perdidos, ou seja, 30% a mais que em 2015, e quase quatro vezes mais que em 2017 e 2018.

Os autores do estudo, que recolheu dados até ao ano de 2019, pretendem agora continuar a pesquisa, para determinar o efeito das secas e das políticas do governo brasileiro — que, sustentam, “favorece a expansão da agropecuária em detrimento da conservação da floresta”.

AFP // AFP

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