Colisão secreta entre navios soviéticos e britânicos podia ter tido um desfecho drástico

(cv) Pravda

Submarino russo K-329 Belgorod

A colisão aconteceu durante um dos períodos mais quentes da Guerra Fria e foi camuflada pela marinha britânica, que tratou de fazer regressar a sua embarcação à base de Devonport durante a noite para evitar dar nas vistas. Versão comunicada aos jornalistas também não correspondia à verdade.

Na década de 80, o mundo assistia a um dos períodos mais críticos da Guerra Fria, com a ameaça de uma guerra nuclear ao virar da esquina. Os aparelhos bélicos das grandes potencias eram o reflexo disso mesmo, com muito do clima de tensão a escapar despercebido à maioria da população, já que se passava em bases militares longínquas ou nas profundezas dos oceanos.

De facto, foi neste meio que se deu um episódio entre as marinhas da União Soviética e do Reino Unido que poderia ter influenciado o rumo da história mundial.

Em maio de 1981, o submarino soviético K211 Petropavlovsk, com 155 metros de comprimento e conhecido pelo grande compartimento de boxe na sua estrutura que era capaz de acomodar tubos de lançamento de 16 mísseis balísticos R-29R — cada um deles transportava três ogivas nucleares —, navegava sem destino e de forma incógnita, esperando apenas um sinal que alertasse para um embate nuclear entre as duas potências e ordens para desencadear um ataque de grandes dimensões contra os adversários.

Do outro lado da barricada, também os Estados Unidos e o Reino Unido dispunham dos seus próprios submarinos, os SSN’s ou os “caçadores-assassinos, enviados frequentemente para detetar mísseis balísticos soviéticos, de forma igualmente discreta, enquanto também aguardavam por indicações para disparar e tentar torpedar os submarinos soviéticos.

Consciente desta ameaça, às sete e meia da noite, um dos comandantes do K-211 parou o submarino para que o sistema de som MGK-400 Rubikon conseguisse detetar possíveis embarcações que se esgueirassem no ponto morto do seu rasto — uma manobra conhecida como limpeza de defletores. Um objetivo que não foi concretizado, já que nenhum sinal foi detetado.

No entanto, um ataque aconteceu poucos minutos depois: três pequenos impactos à popa e de baixo para cima, cada um deles com apenas alguns segundos. O submarino regressou de imediato à profundidade de periscópio, com a equipa responsável pelo som a detetar o ruído de uma hélice a cerca de 127 graus. A colisão, pensou-se, foi com um submarino.

Após voltar à superfície, foram identificados no revestimento do submarino soviético marcas que indicavam um embate, assim como fragmentos de metal que estavam incrustados num parafuso e que tinham perfurado um tanque traseiro.

Uma investigação posterior levada a cabo pelas autoridades soviéticas revelaou que os vestígios pertenciam a um submarino da classe Sturgeon da marinha dos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, relatos da imprensa britânica davam conta do regresso do submarino caçador-assassino Sceptre com a estrutura danificada após a colisão com um “glaciar descolado“.

O mistério acabaria por ser revelado, quando o oficial da marinha britânica David Forghan, numa entrevista ao programa de televisão This Week, descreveu as circunstâncias em que o acidente verdadeiramente aconteceu.

O Sceptre, submarino em causa, era um dos seis submarinos de ataque nucleares da classe Swiftsure, lançados pela Vickers nos anos 70. Os Swifts eram mais curtos e mais largos do que a primeira geração de embarcações da classe Churchill do Reino Unido. Todos, à exceção do navio almirante, utilizavam um propulsor de jato em vez de uma hélice convencional para um funcionamento mais silencioso e tinham os seus mecanismos internos isolados com borracha para diminuir ainda mais a assinatura acústica.

Naquele mês de maio de 1980, o Sceptre estave a seguir o K-211 e a utilizar o seu sistema de som tipo 2011, com um alcance de deteção subaquática de 25 a 30 milhas. Neste contexto, terá perdido esta capacidade ao mesmo tempo que a marinha soviética reportou uma mudança de posição do K-211 para manobras de limpeza dos seus defletores. O submarino britânico, por sua vez, continuou a navegar à frente quando a sua proa embateu na cauda do K-211.

Uma das hélices de cinco lâminas do submarino soviético também terá danificado o casco frontal do Sceptre, arrancando um pedaço de 23 pés de comprimento da sua proa e arrancando a frente da sua torre de cone, aponta o site Business Insider.

Normalmente, danos desta dimensão significariam o desligar automático do reator do submarino, no entanto, o capitão do Sceptre terá desencadeado uma “batalha curta”, uma manobra que corresponde à anulação manual do sistema de segurança, de forma a manter o submarino de 5.500 toneladas sob controlo. Os ocupantes da embarcação britânica acreditaram mesmo que estavam a ser perseguidos por forças soviéticas durante dois dias.

Mais uma vez, só quando o submarino chegou à superfície foi possível ver as verdadeiras consequências do incidente. “A fratura começou com cerca de três polegadas da escotilha de fuga para a frente. Se essa escotilha tivesse sido atingida ou danificada, então as extremidades teriam enviado água, o que teria tornado o barco muito pesado. Provavelmente, teríamos afundado“, revelou o oficial Michael Cundell no livro The Silent Deep.

Com algum esforço, o Sceptre conseguiu regressar à base de Devonport, com o escuro da noite a esconder os danos, juntamente com mantos de tecidos e tinta preta aplicada pela tripulação. Já no porto, os fragmentos da hélice russa que tinham penetrado parcialmente no casco de pressão tiveram de ser removidos e a marinha britânica tratou de fabricar a versão dos acontecimentos que mais tarde fez chegar à imprensa.

ARM, ZAP //

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