Viajar no tempo pode ser possível — e só há uma forma

Só a existência de universos paralelos elimina todos os paradoxos que impossibilitariam as viagens no tempo.

Alguma vez cometeu um erro que desejava poder desfazer? Corrigir erros passados é uma das razões que tornam o conceito das viagens no tempo tão fascinante.

Tal como é mostrado na ficção científica, com uma máquina do tempo, nada é permanente — podemos sempre voltar atrás e mudar. Mas será que viajar no tempo é mesmo possível no nosso universo, ou é só ficção científica?

Na realidade, viajar no tempo pode ser possível, mas apenas com múltiplos universos, ou seja, linhas de tempo paralelas — explica Barak Shoshany, físico teórico da Brock University, no Canadá, num artigo no The Conversation.

O nosso entendimento moderno sobre o tempo e a causalidade vem da relatividade geral. A teoria do físico Albert Einstein combina o espaço e o tempo numa única entidade — espaço-tempo — e dá uma explicação notavelmente complexa sobre como eles funcionam, com um nível incomparável ao de outra qualquer teoria.

Há décadas que os físicos estão a tentar usar a relatividade geral para perceberem se as viagens no tempo são possíveis.

Acontece que podemos escrever equações que descrevem as viagens no tempo e são completamente compatíveis e consistentes com a relatividade. Mas a física não é matemática e as equações são inúteis se não corresponderem a nada na realidade.

Argumentos contra as viagens no tempo

Há dois problemas principais que nos fazem pensar que estas equações são irrealistas.

O primeiro é prático: a construção de uma máquina do tempo aparenta precisar de matéria exótica, que é matéria com uma energia negativa. Toda a matéria que vemos nas nossas vidas diárias tem energia positiva, a matéria com energia negativa não é algo que se encontra por aí.

Da mecânica quântica, sabemos que este tipo de matéria pode teoricamente ser criada, mas em quantidades demasiado pequenas e por períodos pequenos.

No entanto, não há provas de que é impossível criar matéria exótica em quantidades suficientes. Mais, outras equações podem ser descobertas que permitam as viagens no tempo sem matéria exótica.

Por isto, este problema pode ser só uma limitação na nossa tecnologia atual ou na compreensão da mecânica quântica.

O outro grande problema é menos prático, mas mais significativo: a observação de que as viagens no tempo parecem contradizer a lógica, sob a forma de paradoxos de viagens do tempo. Há vários tipos destes paradoxos, mas os mais problemáticos são os paradoxos de consistência.

Uma história comum na ficção científica, os paradoxos da consistência acontecem quando há um certo evento que leva a uma mudança no passado, mas a mudança em si previne que este evento aconteça em primeiro lugar.

Por exemplo, considere um cenário onde alguém entra na máquina do tempo, usa-a para voltar atrás no tempo cinco minutos e imediatamente a destrói. Agora que a máquina do tempo foi destruída, seria impossível usá-la cinco minutos depois.

Mas se não se pode usar a máquina do tempo, então não de pode voltar atrás no tempo para a destruir. Assim, este cenário é inconsistente e paradoxal.

Eliminando os paradoxos

Há um engano comum na ficção científica de que os paradoxos podem ser “criados”. Os viajantes no tempo são geralmente avisados para não fazerem mudanças significativas no passado e para evitarem conhecer as suas versões passadas por esta exata razão.

Exemplos disto podem ser encontrados em muitos filmes, como na trilogia do Regresso ao Futuro.

Mas na física, um paradoxo não é um evento que pode realmente acontecer — é um conceito teórico que aponta para um inconsistência na teoria em si. Por outras palavras, os paradoxos da consistência não se limitam a insinuar que viajar no tempo é perigoso, mas sim que simplesmente não é possível.

Esta foi uma das motivações para que o físico Stephen Hawking formulasse a uma conjetura de proteção da cronologia, que define que viajar no tempo deve ser impossível.

No entanto, esta conjetura continua sem ser provada. Além disto, o universo seria um lugar muito mais interessante se em vez de eliminarmos as viagens no tempo devido aos paradoxos, eliminássemos apenas os paradoxos em si.

Uma tentativa para a resolução de paradoxos é a conjetura da auto-consistência do físico Igor Dmitriyevich Novikov, que define que podemos voltar atrás no tempo, mas não o podemos mudar.

De acordo com Novikov, se alguém tentasse destruir a máquina do tempo cinco minutos antes da viagem, seria impossível fazê-lo e as leis da física iriam preservar a consistência.

Introduzir histórias múltiplas

Mas qual é o objetivo de voltar atrás se não podemos mudar o passado? Um estudo recente mostra que há paradoxos nas viagens no tempo que a conjetura de Novikov não consegue resolver. Isto leva-nos de volta à estaca zero, já que mesmo que só um paradoxo não possa ser eliminado, viajar no tempo continua logicamente impossível.

Então, é este o prego final no caixão das viagens no tempo? Nem por isso. A pesquisa mostra que permitir histórias múltiplas ou linhas temporais paralelas pode resolver os paradoxos que a conjetura de Novikov não resolve. De facto, pode resolver qualquer paradoxo que surja.

A ideia é muito simples. Quando se sai da máquina do tempo, sai-se numa linha temporal diferente. Nessa linha temporal, pode-se fazer o que se quiser sem se mudar nada na linha temporal original de onde se veio.

A mecânica quântica sugere que é possível existirem histórias múltiplas no nosso universo, pelo menos se se subscrever à interpretação de muitos muitos de Everett, onde uma história se pode “partir” em histórias múltiplas, uma para cada desfecho possível — por exemplo, com o gato de Schrödinger a estar vivo ou morto.

As viagens no tempo e as linhas temporais paralelas andam quase sempre de mãos dadas na ficção científica, mas agora temos provas de que também andam de mãos dadas na ciência verdadeira.

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  ZAP // The Conversation

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