Estudo revela um grande benefício (negligenciado) de ter dislexia

“A visão centrada no défice da dislexia não está a contar a história toda”. Um novo estudo sugere que quem sofre de dislexia tende a ser melhor no raciocínio abstrato e espacial global. São também mais criativos e melhores a prever resultados.

Há muito que a dislexia é considerada um distúrbio de aprendizagem — uma condição neurológica que torna a descodificação do texto tão difícil.

Agora a ciência sugere que também pode beneficiar os indivíduos com esta patologia, num mundo cheio de incógnitas.

De acordo com a Science Alert, Helen Taylor e Martin David, psicólogos da Universidade de Cambridge, reexaminaram a visão tradicional da dislexia do desenvolvimento como uma desvantagem, propondo as suas características neurológicas que poderiam trazer vantagens em diferentes circunstâncias.

No estudo publicado na Frontierns in Psychology em Junho deste ano, os psicólogos sugerem que os cérebros que têm dificuldade em interpretar rapidamente as palavras escritas poderiam achar mais fácil explorar os seus ambientes para obter pistas úteis que melhorem a tomada de decisões.

“A visão centrada no défice da dislexia não está a contar a história toda”, diz Taylor.

“Esta investigação propõe um novo quadro para nos ajudar a compreender melhor os pontos fortes cognitivos das pessoas com dislexia“.

A dislexia de desenvolvimento é caracterizada por dificuldades em transformar o formato visual de uma palavra escrita num conjunto significativo de sons — a que chamam na área da alfabetização “fonemas“.

Afeta entre 5 a 20% da população, geralmente atrasa a capacidade de leitura em cerca de um ano, inferindo com as oportunidades contínuas de aprendizagem à medida que os seus pares progridem.

O efeito de arrastamento deste atraso num sistema de educação padronizado pode ser profundo, reduzindo a confiança e auto-estima e alimentando potencialmente uma série de problemas sociais.

Uma vez que a dislexia afeta uma tão grande diversidade da população mundial, e é tão fortemente influenciada pelos nossos genes, é provável que a evolução a tenha favorecido de alguma forma.

No contexto da evolução humana, a cultura da leitura e da escrita é recente. A dependência geral da alfabetização eficaz é ainda mais recente, o que significa que as influências prejudiciais que a dislexia tem na cognição individual teriam sido negligenciáveis até às gerações recentes.

Ao longo das décadas, os psicólogos têm observado que aqueles que apresentam sinais de dislexia também tendem a ser melhores no raciocínio abstrato e espacial global. Tendem também a ser mais criativos, e são melhores a prever resultados.

Esta poderia ser uma estratégia de sobrevivência num mundo que valoriza a capacidade de extrair informação das “paredes do texto“. Embora Taylor e Vestergaard não pensem que este seja o caso.

“Acreditamos que as áreas de dificuldade experimentadas pelas pessoas com dislexia resultam de uma troca cognitiva entre a exploração de novas informações e a exploração do conhecimento existente, sendo o lado positivo um viés exploratório que poderia explicar as capacidades melhoradas observadas em certos domínios como a descoberta, invenção e criatividade”, diz Taylor.

Psicologicamente falando, as nossas mentes estão limitadas por um constante cabo de guerra chamado “trade-off” de prospeção-exploração. Para tomar uma decisão, é preciso estar confortável de que a informação que há é exata e suscetível de resultar num prognóstico previsível.

“Encontrar o equilíbrio entre a exploração de novas oportunidades e a exploração dos benefícios de uma determinada escolha é fundamental para a adaptação e sobrevivência e está subjacente a muitas das decisões que tomamos na nossa vida quotidiana”, diz Taylor.

Numa outra vida, a dislexia não se manifestaria como uma incapacidade de transformar riscos em sons nas nossas cabeças — melhoraria aquelas rápidas capacidades de decisão que poderiam fazer uma diferença de vida ou de morte para a nossa comunidade.

O quadro reflete uma tendência mais ampla em patologia que vê a neuro-diversidade como fortemente contextualizada por pressões dentro de um ambiente em mudança.

O significado não é que qualquer desordem seja uma super-potência disfarçada, mas que os maiores impedimentos são fatores sobre os quais temos controlo directo.

Mudar a forma como educamos, por exemplo, ou como discutimos uma capacidade puramente em detrimento, pode ser uma “cura” muito mais eficaz do que qualquer pílula ou terapia.

  Inês Costa Macedo, ZAP //

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