O culpado dos incêndios devastadores na Austrália é “primo” do El Niño

Em 2019, incêndios espalharam-se numa grande parte do sudeste da Austrália, alimentados pela vegetação seca e ventilados pelo clima quente e ventoso. No outro lado do oceano Índico, chuvas torrenciais e inundações devastaram partes do leste da África. Agora, as comunidades enfrentam uma praga de gafanhotos e escassez de alimentos.

Todos estes fenómenos têm explicação e resumem-se a ao Dipolo do Oceano Índico extremamente positivo, um fenómeno climático que ocorreu no segundo semestre de 2019.

O dipolo do Oceano Índico – também conhecido como El Niño do Índico, refere-se à diferença na temperatura da superfície do mar em ambos os lados do Oceano Índico, que altera os padrões de precipitação na Austrália e noutras nações da região. O dipolo é um parente menos conhecido do El Niño do Oceano Pacífico.

Este tipo de fatores climáticos são um fenómeno totalmente natural, mas as mudanças climáticas estão a modificar o comportamento desses modos climáticos.

Num estudo publicado na semana passada na revista científica Nature, uma equipa de cientistas reconstruíram a variabilidade dos dipolos no Oceano Índico no último milénio e escobrimos que eventos dipolo “extremamente positivos” no Oceano Índico, como os do ano passado, são historicamente muito raros, mas tornam-se mais comuns devido às mudanças climáticas causadas por seres humanos.

Durante um evento “positivo” de dipolo no Oceano Índico, as águas no leste do Oceano Índico ficam mais frias do que o normal, enquanto as águas no oeste ficam mais quentes do que o normal.

A água mais quente causa o aumento do ar quente e húmido, trazendo chuvas intensas e inundações no leste da África. Ao mesmo tempo, a humidade atmosférica é reduzida nas águas frias do leste do Oceano Índico, desativando uma das principais fontes de chuva da Austrália.

O dipolo do Oceano Índico também tem uma fase negativa, que é importante para trazer chuva à Austrália. Porém, a fase positiva é muito mais forte e tem impactos climáticos mais intensos.

Registos instrumentais do fenómeno começaram em 1958 e, desde então, uma série de dipolos positivos muito fortes no Oceano Índico ocorreu em 1961, 1994, 1997 e 2019. O registo instrumental é muito curto e está contaminado pela influência externa das mudanças climáticas, por isso é impossível dizer só a partir de registos instrumentais a forma como os Dipolos do Oceano Índico podem ser extremos e se as mudanças climáticas causadas pelo homem estão a influenciar o fenómeno.

Para descobrir como o dipolo do Oceano Índico mudou, os cientistas usaram registos naturais: “núcleos” retirados de nove esqueletos de coral – um moderno e oito fossilizados -, colhidos perto de Sumatra, na Indonésia, localizadas para reconstruir o arrefecimento do oceano.

Os corais crescem como as árvores. A cada ano, produzem uma faixa de crescimento. Medir o oxigénio nessas faixas de crescimento fornece um histórico detalhado da temperatura da água em que o coral cresceu e da quantidade de chuvas no recife.

A reconstrução baseada no coral do dipolo do Oceano Índico estende-se durante 500 anos entre 1240 e 2019. Os cientistas encontraram apenas dez eventos extremamente positivos de dipolo no Oceano Índico em todo o registo. Quatro ocorreram nos últimos 60 anos, mas apenas seis ocorreram nos 440 anos anteriores a essa data.

Esta investigação acrescenta mais peso à evidência de que eventos positivos de dipolo no Oceano Índico têm ocorrido com mais frequência nas últimas décadas e têm-se tornado mais intensos.

Porém, eventos como 2019 não são os piores do que o dipolo do Oceano Índico pode causar. Em 1676, houve um evento cerca de 30% a 40% mais forte do que em 2019.

Relatos históricos da Ásia mostram que este evento foi desastroso. A seca severa que causou levou a falhas nas colheitas, fome generalizada e mortalidade e incitou a guerra. Este evento mostra o quão extrema pode ser a variabilidade dos dipolos no Oceano Índico, mesmo sem a solicitação de forças externas, como as mudanças climáticas causadas pelo homem.

As projeções do modelo climático indicam que os eventos de dipolo no Oceano Índico extremamente positivos ocorrerão três vezes mais frequentemente neste século do que no último se as altas emissões de gases de efeito estufa continuarem.

Assim, eventos como o ano passado continuarão a acontecer em breve – e estamos a aumentar as hipóteses de serem ainda piores do que em 2019.

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