Surfista inglês descobriu que “era” o falso fotógrafo de guerra brasileiro

Max Hepworth-Povey / Instagram

Max Hepworth-Povey, o surfista britânico que viu as suas fotos serem roubadas para ilustrarem a conta falsa no Instagram de Eduardo Martins

Um surfista britânico descobriu agora que as suas fotografias foram usadas para ilustrar o perfil falso no Instagram do alegado fotógrafo brasileiro que registava a guerra na Síria e no Iraque.

“Quando um amigo meu me mostrou as fotos, primeiro, achei que fosse uma piada, que estava a gozar comigo. Mas, na verdade, as minhas fotos foram roubadas. É bastante estranho uma pessoa aleatória ter decidido usar a minha imagem entre tantas opções em toda a Internet”, afirmou, esta segunda-feira, o britânico Max Hepworth-Povey, de 32 anos, à BBC Brasil, que o entrevistou por telefone.

Quer fosse através de fotografias banais a fazer surf ou através da manipulação de imagens em zonas de guerra, foi este o surfista que ilustrou (sem saber) o perfil falso do brasileiro Eduardo Martins no Instagram, conta com 127 mil seguidores.

Seguidores nos quais se incluía o perfil oficial das Nações Unidas (ONU) e portais reconhecidos como a Vice e a Al Jazeera. Uma leucemia que paralisou a sua vida durante sete anos levou-o a querer uma vida nova e, por isso, partiu como voluntário em missões humanitárias, enquanto aproveitava para registar o sofrimento no Iraque e na Síria.

Era assim que o fotógrafo brasileiro se apresentava às dezenas de jornais, TVs, rádios e revistas que, entre 2016 e 2017, o entrevistaram. As alegadas fotos que capturava valeram-lhe a fama e alguns milhares de dólares em trabalhos vendidos para órgãos como a DW, BBC e Wall Street Journal.

Entretanto, o perfil no Instagram desapareceu misteriosamente e o site foi apagado.

Perfil de Eduardo Martins tinha fotos das ondas apanhadas na Austrália ao fogo cruzado no Médio Oriente

“Algumas fotografias são muito antigas, com cinco anos”, explica Max à BBC.

“Eu trabalho muito longe das zonas de guerra, com viagens de surf. Todas as minhas fotos sempre foram tiradas nesse contexto”, afirmou o britânico. “Não gosto da ideia de se ‘glamourizar’ um país em guerra”, acrescentou.

O surfista, nascido na Cornualha, sudoeste da Inglaterra, vive e trabalha há cerca de três meses no norte de Espanha, perto da praia de Santander, conhecida pelas poderosas ondas e uma das melhores da Europa para a prática da modalidade.

À BBC, Max contou que soube da história por um amigo, editor da revista Wavelength, para a qual escreve, que lhe enviou um link com a reportagem que revelava a história.

“Estava a relaxar, a beber um copo de vinho, quando um amigo entrou em contacto comigo a dizer que tinham roubado a minha identidade numa espécie de brincadeira na Internet”, recorda.

Fotojornalista português encontrou Max

A primeira identificação chegou pelo fotojornalista português Paulo Nunes dos Santos. A viver na Irlanda, comentou uma publicação de um outro fotógrafo no Facebook sobre a história e, com isso, uma sua conhecida da região da Cornualha afirmou conhecer o rosto. Santos resolveu pesquisar e chegou à conta de Instagram de Max.

“Esse falso fotógrafo seguia-me no Instagram, fazia comentários nas minhas fotos. E chamava-me a atenção que eu nunca tivesse visto esse tal Eduardo. Trabalho há muitos anos na Síria, Líbia, Malawi, Sudão do Sul, somos poucos colegas nesse campo, então, acabamos por nos conhecer todos”, explica o fotojornalista.

“Quando saiu a publicação fiquei espantado que alguém pudesse ter feito isto durante tanto tempo, a receber tanta atenção, sem ser descoberto. É algo fora do comum”, afirmou Santos, que tem trabalhos publicados no jornal norte-americano New York Times.

Embora afirme não saber quem se pode ter apropriado das suas fotos, Max recorda-se de um episódio que pode dar sinais de como tudo começou.

“Quando tinha Facebook, há três anos, uma pessoa que se identificou como Bruno entrou em contacto comigo e disse que queria propor um trabalho sobre surf. Tivemos uma conversa bizarra por Skype, o vídeo dele não estava a funcionar bem, então disse que não estava mais interessado”, contou, acrescentando ter achado estranho que a pessoa tivesse conta no Facebook há menos de um ano, um indício de um possível perfil falso.

“Uma semana mais tarde, alguém fez um perfil falso de mim mesmo no Facebook. Achei aquilo muito sinistro e decidi fechar a minha conta no Facebook. Talvez tenha a ver com isso”, afirma.

(ce) Instagram

O perfil do Instagram do falso fotógrafo Eduardo Martins

A história de Max coincide com o possível período em que o perfil de Eduardo Martins foi criado, em 2014. Além disso, pessoas entrevistadas pela BBC Brasil que tiveram contacto com o suposto fotógrafo afirmam que a sua versão soava verosímil porque, em conversas por Skype, conseguiam ver a imagem do homem loiro apenas por alguns minutos.

O vídeo e o som surgiam sempre com problemas e a conexão ficava insustentável muito rapidamente. Segundo a BBC, o autor do perfil falso pode ter gravado as imagens da conversa por Skype com Max para reproduzi-las mais tarde.

Embora impressionado com toda a história, o surfista britânico não pensa em processar ninguém, até porque seria muito difícil encontrar a pessoa que fez isto.

O que esta pessoa fez é realmente impressionante. A dedicação é inacreditável. Adoraria ter tantos seguidores para promover as coisas nas quais acredito, entre elas: não faça mal a ninguém”, conclui o surfista.

ZAP // BBC

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