Síndrome do Sempre Ligado faz cada vez mais vítimas

Drriss & Marrionn / Flickr

Vai de férias, mas verifica os e-mails do trabalho mal acorda? E fica preocupado se o hotel não tem um bom wi-fi ou se o seu telemóvel fica sem sinal? Esses são indícios típicos de que poderá sofrer do stress conhecido como “always on”, que afecta as pessoas que não conseguem largar os seus telemóveis.

Para alguns, os aparelhos permitiram a libertação da rotina rígida no escritório. As horas de trabalho ficaram mais flexíveis, dando mais autonomia ao funcionário.

Para outros, contudo, os smartphones fizeram com que se transformassem em verdadeiros tiranos dentro do bolso, impedindo os seus utilizadores de se conseguirem desligar do trabalho.

E essa dependência torna-se cada vez mais preocupante, segundo analistas.

O americano Kevin Holesh estava tão preocupado com o facto de ignorar cada vez mais familiares e amigos por causa do seu iPhone que criou uma aplicação – Moment – para monitorizar a sua própria utilização.

A aplicação permite-lhe quantificar o tempo que passa ligado ao smartphone e avisa-o se esse uso ultrapassar limites que Holesh se impôs.

“O objectivo é promover o equilíbrio na vida”, diz no seu site. “Passar um tempo no telefone e um tempo sem ele, aproveitando a companhia de família e amigos.”

Desligar

Alguns empregadores estão agora a perceber que não é fácil manter esse equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Tanto que alguns precisam de ajuda externa.

A empresa de indústria automóvel alemã Daimler, por exemplo, passou recentemente a oferecer um “apagador” automático de e-mails para os funcionários que se encontrem de férias, reconhecendo que muitos têm dificuldade em se desligar do trabalho.

“Os impactos negativos desta cultura do always on são que a mente nunca descansa, a pessoa não dá ao corpo o tempo para se recuperar e fica sempre stressado”, disse à BBC a psicóloga ocupacional Christine Grant, do centro de pesquisas em psicologia e comportamento da Universidade Coventry (Grã-Bretanha).

“E, quanto mais cansaço e stress, mais erros cometemos. A saúde mental e física pode sofrer.”

O facto de podermos estar ligados ao trabalho em qualquer lugar do mundo está a fomentar inseguranças, prossegue Grant.

“Há uma enorme ansiedade no que diz respeito a delegar“, diz. “Na minha investigação, encontrei diversas pessoas exaustas porque viajavam e estavam sempre ligadas, independentemente do fuso horário em que estivessem.”

As mulheres causam uma preocupação especial: muitas passam o dia a trabalhar, voltam para casa para cuidar dos filhos e ainda voltam ao computador para trabalhar antes de dormir.

“Essa jornada tripla pode ter um grande impacto na saúde”, diz Grant.

Adoecendo

O presidente da Sociedade Britânica de Medicina Ocupacional, Alastair Emslie, concorda, alegando que centenas de milhares de britânicos relatam anualmente sofrer de stress no trabalho – ao ponto de adoecerem.

“As mudanças tecnológicas contribuem para isso, sobretudo se fizerem os funcionários sentirem-se incapazes de lidar com as crescentes exigências ou perderem o controlo sobre a sua carga de trabalho.”

Dados indicam que os britânicos passam até 11 horas diárias com consumo de media.

E, com o crescimento no número de smartphones, cresce também a quantidade de dados à nossa disposição – o que pode levar a uma espécie de paralisia, argumenta Michael Rendell, que trabalha com a consultoria PwC.

“Isso cria mais stress no ambiente de trabalho sendo que as pessoas estão a consumir uma maior quantidade de informação e meios de comunicação, e é difícil gerir tudo.

Torna-se mais difícil tomar decisões, e muitos perdem produtividade por estarem sobrecarregados e sentirem que nunca se libertam do trabalho.”

“Achamos que ficar a verificar e-mails é trabalhar, mas muitas vezes não é algo produtivo”, argumenta o advogado britânico Tim Forer.

Forer explica que a verificação constante de e-mails fora do escritório pode, em alguns casos, desrespeitar legislações de trabalho. “Isso coloca em risco o dever da empresa em zelar pelos seus empregados”, diz.

Disponíveis

Uma investigação da empresa de TI SolarWinds diz que mais da metade dos trabalhadores entrevistados sente que é esperado que eles trabalhem mais rápido e cumpram prazos mais curtos por estarem mais conectados. Quase metade deles pensa que os seus empregadores esperam que eles estejam disponíveis a qualquer hora ou lugar.

Claro que nem tudo é negativo. Chris Kozup, diretor da empresa de telecomunicações Aruba Networks, diz que um estudo levado a cabo pela própria empresa “mostra que a ideia de estar ‘always on’ está, na verdade, a ajudar os trabalhadores a gerir o equilíbrio entre trabalho e a vida pessoal”.

A solução é fazer com que essa flexibilidade actue a seu favor e ser disciplinado quanto ao uso de smartphones.

Ou seja, se for de férias, lembre-se de ativar os alertas que avisam que se encontra “fora do escritório”, de desligar o seu telefone e de o manter longe quando for dormir.

E o conselho de Christine Grant é: lembre-se de que “raramente uma pessoa é a única capaz de resolver um problema” no escritório.

ZAP / BBC

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1 COMENTÁRIO

  1. Estamos a criar a geração “always on” e não se conversa em familia não há convívio nas horas das refeições porque está toda a gente agarrada ao telemovel ao notebook. É uma triste realidade. E os papás nem se dão conta do caminho que os filhos estão a trilhar. E até colaboram começando logo por oferecer telemóveis mal as crianças largam as fraldas. É vê-los nas escolas primárias com os seus telemoveis topo de gama para fazer inveja aos colegas e assim poderem alimentar o ego.
    Há pais que adoravam que os filhos já nascessem com um smartfone preso ao cordão umbilical. Vamos ver se está para breve!…………………………

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