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Sepultura da civilização Maia revela uma intriga política ancestral

As sepulturas do mundo antigo têm sido objeto de fascínio para a arqueologia. Os mortos podem já não falar, mas os seus corpos e objetos contam muito sobre as vidas que viveram.

Um túmulo recentemente revelado na cidade de Cahal Pech, em Belize, está a abrir portas para o entendimento sobre as intrigas políticas das elites da civilização Maia.

De acordo com um artigo publicado na revista Latin American Antiquity, foi estudada com recurso a uma variedade de métodos arqueológicos tradicionais, análises osteológicas e estudos epigráficos.

Durante o chamado Período Clássico, os Maias construíram dúzias de cidades na Península de Iucatão, no México, e outras regiões nos arredores – nas atuais nações moderna de Belize, Guatemala, Honduras e El Salvador.

Estas cidades nunca foram unificadas por única uma entidade política. Em vez disso, havia uma paisagem complexa de alianças políticas inconstantes e todas as intrigas que surgem em tais situações.

Líderes e elites da sociedade Maia usava diversos títulos, incluindo Sajal para um “lorde menor”, Ajaw para um “lorde” e Kalomte para um “lorde de prestígio”. Até mesmo cidades poderosas poderiam enfortecer a sua presença ao adotar títulos. Embora os glifos funcionem de maneira semelhante a um nome de cidade, apenas as cidades mais influentes poderiam exibi-los.

Nesta paisagem complexa, até os rituais funerários faziam parte do processo pelo qual as famílias de elite podiam disputar posições – e a nova sepultura em Cahal Pech mostra como é que esta estratégia funcionava.

O túmulo – chamado Túmulo 7 – incluí os restos mortais de três pessoas. “Pessoa 3” foi a primeira a ser enterrada no ano 250, mas apenas fragmentos do esqueleto foram encontrados. “Pessoa 1”, uma mulher adulta, e “pessoa 2”, um homem adulto, foram acrescentados à sepultura séculos mais tarde, entre os anos 525 e 600.

O facto de que pessoas – e objetos – terem sido acrescentados ao túmulo em épocas diferentes representa uma prática conhecida para a sociedade Maia. Os autores do estudo escreveram que “grandes exibições funerárias, incluindo rituais de reentrada, eram provavelmente um aspeto importante do teatro necessário para manter o poder político estável na antiga sociedade maia.”

De particular interesse para o Túmulo 7 é que, em algum momento, após a pessoa 2 ter sido enterrada, alguém removeu o fémur esquerdo do túmulo. Em seu lugar, foi encontrado um fémur de um jaguar pintado e esculpido, juntamente com restos de ossos da perna.

O objetivo deste ritual não é claro, mas reflete o poder que a pessoa 2 possuía, mesmo depois da sua morte. Da mesma forma, os objetos encontrados no túmulo refletem um elevado status e o poder. Dois anéis ósseos tinham inscrições que incluem um título de elite pouco conhecido (Kan Hix… w).

Numerosos exemplos de contas de jade e jóias também foram encontrados em todo o túmulo, assim como muitos exemplos de vasos de cerâmica trabalhados. Entre esses, um era feito no estilo de Teotihuacan, uma cidade não-maia encontrada a centenas de quilómetros a oeste nas montanhas do centro do México. Vasos semelhantes foram encontrados em muitos túmulos noutros locais maias, sugerindo que a elite maia via valor na manutenção de relações internacionais.

Outro objeto notável recuperado do enterro foi uma concha que tinha sido cortada ao meio e usado como uma paleta para tintas. A principal autora do estudo, Anna Novotny, disse que “a concha estava no peito do homem” e “estava totalmente plana”. “As cores das tintas ainda eram brilhantes. É muito raro encontrar uma ferramenta como esta com todas as cores ainda presentes e tão bem preservadas!”, referiu.

Essa paleta pode significar que, provavelmente, a pessoa 2 terá sido um escriba ou artista de murais, profissões importantes na cultura focada na exibição.

Apesar de tudo, os arqueólogos determinaram que as pessoas no Túmulo 7 não eram os líderes de Cahal Pech. A quantidade de bens e títulos encontrados reflete um status de elite, mas notavelmente menor do que “realeza” entre os maias clássicos.

O Túmulo 7 serve como lembrete intrigante de que as comunidades de elite maias eram formadas por diversos indivíduos que procuravam provar o seu valor para a sociedade tanto na vida como na morte.

  MC, ZAP // Forbes

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