Resolvido o mistério de 100 anos do “Deus Anónimo de Palmira”

Musée des Beaux-Arts de Tours

“As ruínas de Palmira”, de Louis-François Cassas, 1785.

Afinal, o “Deus Anónimo de Palmira”, uma divindade cuja identidade era desconhecida, não é um deus, mas sim vários.

A arqueóloga polaca Aleksandra Kubiak-Schneider encontrou cerca de 200 textos datados principalmente dos séculos II e III dC numa antiga metrópole localizada naquilo que é hoje a Síria. As frases misteriosas dirigiam-se a uma divindade.

“Aquele cujo nome é bendito para sempre”, “Senhor do Universo” e “Misericordioso” são algumas das frases encontradas por Kubia-Schneider.

Nos últimos 100 anos, os investigadores têm tentado perceber quem é esta divindade mencionada nas frases. Chamaram-lhe o “Deus Anónimo de Palmira”.

“Estas inscrições estavam em altares de pedra destinados a queimar o sacrifício perfumado de incenso, grãos de zimbro e outros aromas e derramar líquidos”, disse Kubiak-Schneider ao portal Science in Poland.

“Isto foi interpretado como manifestações monoteístas e tendências de adoração ao Deus único, uma dimensão mística do culto ao Senhor dos Céus, Baalshamin, bem como o tabu contra falar o nome da divindade, semelhante ao existente no judaísmo, porque essas frases têm evocado e ainda evocam conotações bíblicas”, acrescentou Kubiak-Schneider.

A equipa de Kubiak-Schneider reparou que a forma específica de abordar a divindade era semelhante aos hinos cantados e recitados nos templos do primeiro milénio aC da antiga Mesopotâmia.

A arqueólogo argumenta que o facto de não ser usado o nome do deus era um sinal de respeito. Os habitantes de Palmira estavam perfeitamente cientes dos nomes das suas divindades, mas simplesmente optavam por não usá-los.

“Não surpreende, portanto, que a imagem da divindade não se encontre nos altares, o que neste caso não está relacionado com a proibição de apresentar o rosto divino. Não havia um Deus Anónimo, todos os deuses que ouviam e mostravam favor aos pedidos mereciam louvor eterno”, explicou Kubiak-Schneider, citada pelo The Jerusalem Post.

O deus supremo era Bel, deus do oásis, que estava cercado por acólitos como Yarhibol, o deus sol da fonte Efqa, e Aglibol, o deus da lua, e Malakbel e Bolastor. Outros deuses locais continuaram a ser adorados, como Arsu, um deus militar identificado como o deus grego Ares.

Os habitantes de Palmira também adotaram divindades de países vizinhos. Alguns vieram da Mesopotâmia como Nabu, o escriba divino, Shamash, o deus do sol e Nergal.

A Síria sedentária emprestou à cidade os seus principais deuses, incluindo Baalshamin, o “deus do céu”, que trouxe chuva e fertilidade, e Atargatis, grande deusa do norte da Síria, dona dos animais. Também adoravam deuses árabes, os deuses dos nómadas, como Allat, a deusa guerreira, e Shai al-Qaum, o deus “que não bebe vinho”.

Palmira era uma antiga metrópole que mediava o comércio entre o Império Romano e o Extremo Oriente. Nos séculos I e II era uma das maiores metrópoles da região do Mediterrâneo.

Tornou-se famosa principalmente pela sua pitoresca e monumental arquitetura de pedra. Palmira foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO em 1980.

  Daniel Costa, ZAP //

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