Quebra do Sporting é culpa de Paulinho? Eis o que dizem as estatísticas

Hugo Delgado / Lusa

A opinião pública aponta Paulinho como o principal responsável pela quebra de rendimento do Sporting. Mas será que as estatísticas sustentam esta alegação?

Após o apito final do Sporting – Famalicão já não havia dúvidas: a nação leonina lançava-se definitivamente numa inquietação colectiva, também conhecida por “tremideira”. A coisa é particularmente notória e quantificável, nesta nova forma de vermos Futebol.

Por essas apps de chat, caixas de comentários e fóruns diversos a preocupação deu rapidamente lugar às teorias sobre o momento actual dos comandados de Rúben Amorim. Uma dessas teorias despertou a minha curiosidade, pela recorrência: “a culpa é do Paulinho!”. Seria verdade?

A teoria da “culpa do Paulinho” divide-se em duas escolas. A primeira teoria, mais simplista, advoga que o avançado pouco ou nada jogou até agora pelo Sporting. A segunda, mais elaborada, evita “demonizar” o desempenho do jogador em si, atribuindo sim à sua entrada na equipa a suposta “sabotagem” das dinâmicas e produção ofensiva leonina. Sem ensaiar tese, levemos então ambas as teorias ao “teste rápido”.

Teoria 1: “O Paulinho não anda a jogar nada”

Esta é a teoria mais simplista e, confesso, a que me fez de imediato mais confusão, ou não tivesse o Sporting acabado de objectivamente evitar as suas duas primeiras derrotas na Liga em jogos onde foram as acções para golo (um marcado, outro assistido) oferecidas pelo avançado português em cheque. Ainda assim decidi validar a tese, chegando aos seguintes dados:

GoalPoint

  • Paulinho é o 3º melhor GoalPoint Rating (6.36) dos “leões” desde que chegou a Alvalade, entre jogadores com pelo menos 200 minutos disputados. À sua frente apenas dois nomes: Daniel Bragança (6.80) e Seba Coates (6.72)
  • O avançado soma duas acções para golo em 417 minutos (ambas decisivas, nos últimos dois jogos). À sua frente surgem apenas dois nomes: Pote (5) e Coates (3), mas ambos com mais do dobro de minutos jogados nos dez jogos da Liga em análise.
  • Paulinho é também o 3º jogador com mais remates enquadrados (5). À sua frente, mais uma vez, apenas Gonçalves e Coates, ambos com sete, mas, novamente, no dobro dos minutos.
  • Por fim, e para não destoar, o recém-chegado é o 4º jogador com mais passes para finalização (8), batido apenas por Porro (15), Pote (10) e João Mário (9), todos eles com pelo menos mais 200 minutos jogados que o avançado.
  • Se restringirmos os passes para finalização aqueles que resultaram em ocasiões flagrantes, Paulinho sobe à liderança: soma três nos jogos que disputou, igualado apenas por Coates no mesmo período, mas em mais do dobro dos minutos jogados.
  • E se julga que Paulinho não ajuda a defender desengane-se: o avançado regista uma média de três acções defensivas a cada 90 minutos desde que chegou ao Sporting, quase o dobro de colegas como Tiago Tomás ou Nuno Santos e em linha com, por exemplo João Mário, no mesmo período.

Os números arrasam, sem grande surpresa, a teoria da sub-produção do ex-Braga desde que chegou ao Sporting. Mas isso não encerra o tema, pois estará a mera presença de Paulinho a baixar o rendimento colectivo dos “leões” na Liga?

Teoria 2: “A entrada de Paulinho deu cabo das dinâmicas ofensivas”

A hipótese da entrada de um novo jogador de alguma forma mexer com a produção dos “leões” tem outro potencial. A ser verdade não seria certamente o primeiro caso. Ora cingindo a análise a dados objectivos mensuráveis, decidimos levantar algumas variáveis fundamentais de produção do Sporting, antes e após a chegada do Paulinho, com e sem o avançado em campo. As métricas escolhidas foram as seguintes:

  • Expected Goals, a favor e contra
  • Total de remates
  • Total de remates enquadrados
  • Acções com bola dentro da área adversária

Pegando nestas métricas identificámos um primeiro indicador promissor (na perspectiva dos autores da teoria), ao compararmos o Sporting pré-Paulinho (até à 16ª jornada) e pós (a partir da 17ª jornada), expresso nos seguintes dados:

GoalPoint

É visível a quebra leonina a partir da 17ª jornada (à 16ª recebeu e venceu o Benfica, com Paulinho contratado mas ainda fora dos trabalhos), ainda que estatisticamente ligeira, se atendermos aos Expected Goals, tanto a favor como contra. A verdade é que o Sporting não se destacou até então por criar muitas ocasiões, mas sim por aproveitá-las com eficácia e permitir poucas veleidades aos adversários, este último mérito sem alterações.

Mas para percebermos se Paulinho é o denominador-comum da “quebra” temos de recordar que, nos dez jogos em análise, o avançado esteve ausente por lesão em quatro, um pormenor que de imediato ameaça as fundações da teoria. No entanto, a coisa torna-se ainda mais curiosa ao compararmos os mesmos indicadores, nestas últimas dez jornadas, com e sem Paulinho:

GoalPoint

O Sporting está em quebra sim, mas parece ter tudo menos que ver com Paulinho, cuja presença em campo corresponde até a melhores desempenhos médios em remates, acções com bola na área, xG a favor e contra, versus o desempenho médio dos “leões” até à sua chegada a Alvalade.

O único ponto em que o Sporting está pior, seja com ou sem Paulinho, reside no facto de o “leão” estar a enquadrar menos um remate com a baliza contrária, por jogo. Mas tendo em conta os números individuais já referidos, é muito difícil atribuir esse facto à entrada de Paulinho, sendo mais razoável até argumentar que o avançado devia sim estar a receber mais situações de remate, sendo ele até o que vai apresentando a pontaria mais afinada, conforme o grafismo do artigo demonstra.

Este remate enquadrado a menos por jogo surge associado a outro sinal de alarme: os “leões” estão a criar menos uma ocasião flagrante por jogo, ainda que com uma taxa de aproveitamento semelhante à que vinham apresentando até à vitória frente ao Benfica.

Explicações? Normalmente as mais simples são as mais acertadas

As teorias em redor do (sub-)rendimento de Paulinho ou do efeito nocivo da sua entrada na produção ofensiva dos “leões” não apresentam sustento analítico. No entanto, resulta óbvio o facto do Sporting estar em sub-produção, ainda que ligeira, se tivermos em conta que também não foi, até à 17ª jornada, uma equipa que se tenha destacado pelo volume, mas sim pela eficácia das suas acções ofensivas.

O Sporting empatou dois jogos consecutivos, é certo. Mas em ambos produziu o suficiente para vencer, desperdiçando três ocasiões flagrantes (e uma tecnicamente não considerada como tal estatisticamente, mas que o foi, futebolisticamente, por Tiago Tomás, frente ao Famalicão).

Nesses jogos o Sporting deixou de confirmar o talento até então demonstrado para gerir vantagens, recentemente analisado, mas nem por isso apresentou sinais de estar mais permissivo defensivamente (permitiu dois golos em apenas três remates enquadrados, com xG contra que não fundamentam os desfechos).

Perante tudo isto, o que será mais provável? Atribuir a um jogador (ou à sua entrada) um decréscimo de produção não sustentando nos factos, ou encontrar no contexto de uma equipa que há muito contraria, pela positiva, as expectativas nela depositadas (investimento, quantidade de opções, juventude/maturidade de muitas das escolhas, histórico e experiência em cenários de corrida ao título) as razões de oscilação?

Será a “culpa de Paulinho” ou estarão apenas Rúben Amorim e seus comandados a ser finalmente confrontados com a pressão, com a sua e com a das equipas que defrontam, também elas pressionadas, numa fase decisiva da época? Por vezes as explicações mais simples são as mais acertadas, afinal e apesar da exactidão de todos os dados aqui apresentados, isto ainda é Futebol, talvez a menos exacta das paixões desportivas que podemos analisar.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Eu acho que a pressão do sistema é que está a quebrar o desempenho da equipa.
    Começam as equipas adversárias a jogar como se estivessem na final da liga dos campeões, foras de jogo de 2cm, penaltis que o VAR prefere ignorar, cartões amarelos ao palhinha aos 10″ de jogo por faltas que nem sequer existem, etc. Enfim a podridão do sistema a “apertar”.

  2. Agora necessário e imprescindível é olhar para a frente. E de uma forma ou de outra INTERIORIZAR que é preciso GANHAR. Seis pontos de avanço poderão ser uma bonita distância para o segundo. Agora o que é preciso é não perder mais pontos.
    O Ruben devia ter agora uma atitude “à Mourinho” no tempo dos primeiros tempos dele no Chelsea. Pelo que li várias vezes, para além do normais treinos, tinha muita carga psicológica sobre os jogadores. E os resultados foram o que se viu.
    A verdade é que é indescritível aquilo que os jogadores do Sporting poderão sentir – e pode ser fantástico em termos de consequências comerciais… – quando perceberem que um grupo com uma média de idades muito inferior à da concorrência teve a arte e o engenho de conquistar um primeiro lugar na Liga Principal de um país da Europa como é o nosso – Campeão Europeu, com muitos “craques” ali nascidos e formados, etc.

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