Populistas europeus que o apoiavam desvinculam-se agora de Trump

Chris Kleponis / EPA Pool

A derrota eleitoral de Donald Trump, a sua recusa em aceitá-la e a violência que se seguiu parecem ter prejudicado as perspetivas de líderes de europeus populistas, apoiantes do Presidente dos Estados Unidos (EUA).

“O que aconteceu no Capitólio após a derrota de Donald Trump é um mau presságio para os populistas”, disse ao New York Times Dominique Moïsi, analista do Institut Montaigne, com sede em Paris (França). “Isto diz duas coisas: se os elegemos, não deixam o poder com facilidade” e fazem o que puderem “para desencadear a ira popular”.

A invasão do Capitólio por apoiantes de Trump – marcada por tumultos, violência e morte – mostrou a países como a França, a Alemanha, a Itália, a Holanda e a Polónia que não devem subestimar a prevalência de teorias da conspiração em governos democráticos.

“É importante mostrar aonde leva o populismo e como este brinca com o fogo”, referiu a diretora do Open Society European Policy Institute, em Bruxelas (Alemanha), Heather Grabbe. “Quando os seus apoiantes são despertados com argumentos políticos sobre “nós contra eles”, o “eles” não são oponentes, mas inimigos que devem ser combatidos com todos os meios, o que leva à violência e torna impossível a concessão do poder”.

Após os eventos nos EUA, a francesa Marine Le Pen, líder no partido de extrema direita, recuou no apoio a Trump, afirmando que os tumultos deixaram-na “muito chocada” e condenando “qualquer ato violento que vise interromper o processo democrático”.

Em Itália, o líder populista do partido Liga, Matteo Salvini, afirmou: “A violência nunca é a solução”. Na Holanda, Geert Wilders, líder do partido de direita, criticou o ataque. Com eleições marcadas para março no país, escreveu no Twitter: “O resultado das eleições democráticas deve ser sempre respeitado, quer se ganhe ou perca”.

Para o diretor de estudos do European Policy Centre em Bruxelas, Janis A. Emmanouilidis, não havia uniformidade no populismo europeu. Os vários movimentos têm características diversas em diferentes países e os eventos externos são apenas um fator na sua popularidade variável.

“Agora, a questão mais urgente é a covid-19, mas não está claro como a política se sairá após a pandemia”, disse. “Mas o medo do pior ajuda a evitar o pior”, acrescentou.

A “incrível polarização da sociedade” e a violência em Washington “criam muita dissuasão noutras sociedades”, referiu Emmanouilidis. “Vemos aonde isso leva, queremos evitar, mas estamos cientes de que também podemos chegar a esse ponto, que as coisas podem piorar”, sublinhou.

Na Polónia, o governo tem sido pró-Trump e a televisão pública não reconheceu a sua derrota eleitoral, até que o próprio Presidente o fizesse, disse Radoslaw Sikorski, ex-ministro das Relações Externas e da Defesa, agora presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com os EUA.

“Com a derrota de Trump, houve um som audível de deceção da direita populista na Europa Central”, indicou Sikorski. “Para eles, o mundo será um lugar mais solitário”.

O Presidente da Polónia, Andrzej Duda, classificou a rebelião no Capitólio como um assunto interno. “A Polónia acredita no poder da democracia norte-americana”, frisou.

Da mesma forma, o primeiro-ministro da Hungria, Victor Orban, apoiante de Trump, se recusou a comentar o motim. “Não devemos interferir no que está a acontecer na América, isso é assunto da América, estamos a torcer por eles e confiamos que conseguirão resolver os seus próprios problemas”, declarou a uma rádio estatal.

De acordo com o ex-ministro da Polónia, Wladyslaw Sikorski, a Europa precisa “acordar para os perigos da violência de extrema direita” e das teorias da conspiração. “Há muito mais violência de extrema direita do que violência jihadista. Não podemos presumir que esse tipo de loucura vá embora. A democracia liberal deve se defender”, rematou.

Como aconteceu com Le Pen, os líderes populistas italianos se sentiram “obrigados a cortar os seus laços com algumas formas de extremismo”, notou Enrico Letta, ex-primeiro-ministro de Itália. “Eles perderam a capacidade de preservar essa ambiguidade sobre os seus laços com extremistas”, indicou.

A derrota de Trump e as respostas violentas foram golpes consideráveis ​​para o populismo europeu. O desastre do coronavírus, acrescentou Enrico Letta, representou “a vingança da competência e do método científico” contra o obscurantismo e anti-elitismo do populismo, disse, observando que os problemas em torno do ‘Brexit’ também foram um golpe.

Já Moïsi vê uma analogia perigosa no que aconteceu no Capitólio, com tumultos o remeterem-no para o fracasso no Beer Hall Putsch, de Adolf Hitler, e ao início do Partido Nazi em Munique, em 1923. Esse esforço para derrubar o governo bávaro também foi ridicularizado, mas se tornou “o mito fundamental do regime nazi”, concluiu.

Taísa Pagno Taísa Pagno //

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