O génio de Peppa Pig, inspiração em Lenine e o vroom vroom dos carros. Discurso bizarro abala (ainda mais) confiança em Johnson

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Andy Rain / EPA

Entre escândalos de corrupção dentro dos Conservadores, um discurso incoerente de Boris Johnson a empresários está a levantar ainda mais críticas dentro do seu partido.

Pelos vistos não são só as crianças que são fãs da Peppa Pig — podemos juntar Boris Johnson à lista de adeptos da série televisiva. Num discurso errante aos empresários presentes na Confederação da Indústria Britânica (CBI), o primeiro-ministro britânico não poupou elogios a estes desenhos animados made in Britain.

“Ontem fui, como todos devemos ir, ao Peppa Pig World. Não sei se já lá foram, ponham as mãos no ar se já foram ao Peppa Pig World”, começou o primeiro-ministro, mostrando desiludido com os poucos membros da audiência que já tinham ido ao parque de diversões.

Boris Johnson continuou, dizendo que adorou a visita e que o Peppa Pig World é “o meu tipo de lugar” por ter “ruas muito seguras, disciplina nas escolas, muita ênfase nos novos sistemas de tráfego de massas, mesmo que sejam muito estereotipados sobre o pai Pig”.

“A verdadeira lição para mim ao ir ao Peppa Pig World foi sobre o poder da criatividade do Reino Unido. Quem diria que um porco que se parece um secador de cabelo do Picasso e que foi rejeitado pela BBC seria agora exportado para 118 países com parques temáticos na América e na China”, elogiou o líder britânico, dizendo que mais nenhum país podia ter tido a ideia de “génio” de criar a Peppa Pig.

Mas as verborreias de Johnson não se ficaram por aqui. O PM britânico lembrou também o seu passado profissional para sublinhar a importância da transição para os carros elétricos.

“Já tive alguns empregos incríveis, mas entre os mais hedonistas está ser correspondente de automobilismo da revista GQ”, revelou Johnson, que disse só ter experimentado dois carros elétricos nesta altura. O PM lembra também o seu tempo como autarca de Londres, em que tentou impulsionar as alternativas elétricas na cidade, que admite terem falhado.

“Mas dez anos depois disso, chegou o momento decisivo”, afirma Johnson, enquanto bate com o dedo no púlpito. “E esta mudança vai agora acelerar como um Telsa novo, porque posso dizermos enquanto antigo repórter de automobilismo que os VEs podem não borbulhar como pombos ou fazer aquele “vroom vroom raah raah” que adoramos, mas têm tanto torque que arrancam mais rápido que um Ferrari”, afirmou.

Após apelar a que os trabalhadores voltem aos escritórios porque a “Mãe Natureza não gosta do teletrabalho“, Boris Johnson perdeu-se nas notas, limitando-se a folheá-las enquanto repetia “desculpem” durante 20 segundos.

Johnson rematou a intervenção falando sobre o seu plano de 10 medidas para apoiar a transição ambiental dos negócios no futuro, mas não sem antes se comparar a Moisés, visto que “desceu do Monte Sinai e disse aos conselheiros” os seus 10 mandamentos sobre o investimento na energia eólica e no hidrogénio.

Mas Moisés não foi sequer a figura histórica mais inusitada que Johnson trouxe à conversa. O conservador citou também o líder soviético Lenine.

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“O Lenine disse uma vez que a Revolução Comunista foi o poder soviético mais a eletrificação do país inteiro. Bem, eu hesito em citar Lenine perante a Confederação da Indústria Britânica, mas a revolução industrial que vem aí é a energia verde mais a eletrificação do país inteiro”, rematou.

Depois do discurso, um jornalista perguntou a Johnson se ele estava bem, ao que o político respondeu que a intervenção “correu muito bem” e que as pessoas entenderam a sua mensagem.

“Embaraçoso” e “caótico”

Muitos esperavam que este discurso fosse a maior oportunidade para Johnson promover a sua agenda política que promete melhorar “todas as partes do Reino Unido”, mas o entusiasmo do PM com Peppa Pig acabou por ofuscar o anúncio das mudanças às regulações dos edifícios sobre os carregadores para carros elétricos.

Jurgern Maier, vice-presidente da Northern Powerhouse Partnership, considera que este “discurso falhado” podia ter sido uma “enorme oportunidade” para esclarecer os empresários sobre o plano do governo.

“Foi um fiasco. Foi um verborreia. Havia muitas iniciativas desarticuladas, algumas que obviamente não eram relevantes. Enquanto um empresário interessado sobre a reindustrialização do Norte, foi uma enorme desilusão”, criticou.

Outros líderes empresariais presentes criticaram Johnson por preferir falar do Peppa Pig World, que fica a cerca de 500 quilómetros de distância do local onde a conferência teve lugar, em vez de apresentar medidas para a economia.

“Não estava à espera de uma referência à Peppa Pig. Ele parecia bastante perdido“, afirmou Neil Whittaker, director de marketing na Learning Curve Group.

Os Trabalhistas consideraram a intervenção “caótica”. “Ninguém se estava a rir porque a piada já não tem graça“, condenaram.

Já Ed Davey, líder dos Liberais-Democratas, lembrou que as empresas precisam de esclarecimentos, mas que tudo a que tiveram direito foram devaneios.

“O primeiro-ministro famosamente disse que ia f**** os negócios — o mínimo que podia fazer era fazer um discurso fo**** e decente”, disse, recordando os rumores de que em 2018 Johnson teria dito “que se fodam os negócios” quando pressionado sobre as preocupações do sector privado sobre um Brexit sem acordo.

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Mas as críticas não são só da oposição. Dentro dos próprios Conservadores, diz-se que Johnson tem de “acordar” por “estar a perder a confiança do partido“.

Um deputado revelou ao The Guardian que o discurso foi uma “confusão”, enquanto que outro considerou que foi a intervenção “mais embaraçosa de um primeiro-ministro Conservador desde as questões ao PM da semana passada”, referindo-se à sessão semanal no parlamento em que o líder do governo responde aos deputados.

Uma fonte de Downing Street também revelou à BBC que as empresas estavam à espera da “liderança” e que a intervenção foi “um caos”, sublinhando que “há muita preocupação no edifício” com Johnson e que são precisas “mudanças sérias” ou a situação vai continuar a piorar.

Há também “uma acumulação de coisas” sobre a “competência” do primeiro-ministro, que está a começar a “parecer abalada” depois de duas semanas “sangrentas”, referiu um antigo ministro ao The Guardian.

Apesar do desconforto interno, é pouco provável que haja um desafio à liderança enquanto as sondagens forem favoráveis aos Tories no confronto com os Trabalhistas, mas isso pode mudar se houver alterações neste panorama com a proximidade das eleições.

Recorde-se que, nas últimas semanas, os Conservadores têm estado sob fogo devido a escândalos relativos à acumulação de empregos de deputados e de suspeitas de corrupção nalguns casos. Boris Johnson inclusivamente já se mostrou arrependido publicamente por ter inicialmente defendido o deputado Owen Patterson.

  Adriana Peixoto, ZAP //

7 Comments

  1. Hi,
    O cabelo diz tudo … mas tem desculpa porque andou no “vroom vroom raah raah” e foi ao “Peppa Pig World ” “o meu tipo de lugar”…

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