A “Partícula de Deus” pode ter salvado o Universo do colapso cósmico

NRAO/AUI/NSF; Dana Berry / SkyWorks; ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)

O Universo vai expandir-se para sempre ou, eventualmente, entrará em colapso? Esta é uma questão que há anos tira o sono aos cientistas – e parece estar para ficar. Publicações recentes têm deixado a comunidade científica em polvorosa, trazendo mais dúvidas do que certezas.

O campo da Física está a fermentar. Neste momento, há uma nova conjetura que está a causar excitação na comunidade científica que estuda a Teoria das Cordas. Timm Wrase, da Universidade de Tecnologia de Viena, veio acender ainda mais o debate com a publicação de novos artigos científicos.

Na Teoria das Cordas, uma mudança de paradigma pode estar à espreita. No passado mês de junho, uma equipa de teóricos das cordas, de Harvard e Caltech, publicou uma nova conjetura, que parecia bastante revolucionária.

De acordo com o artigo dos teóricos, disponibilizado para pré-publicação no Arxiv.org, a Teoria das Cordas é fundamentalmente incompatível com a nossa compreensão atual da energia escura – mas só a energia escura é que é capaz de explicar a atual e acelerada expansão do Universo.

O nosso Universo está envolvido por uma vasta e invisível força que parece opor-se à gravidade. Os físicos apelidaram esta força de energia escura e acreditam que esta esteja constantemente a empurrar o nosso Universo para fora – ou seja, a expandi-lo.

Mas, o artigo publicado em junho sugere que a energia escura vai mudando com o tempo. Na prática, isto significa que o Universo pode não se expandir para sempre, podendo, eventualmente, entrar em colapso e tornar-se do tamanho que tinha antes do Big Bang.

Apesar de promissora, esta conjetura levantou quase de imediato várias questões, tendo vários grupos de cientistas publicado outros artigos nos quais sugeriam revisões à teoria apresentada pelos teóricos de Harvard e Caltech.

Também Wrase percebeu rapidamente que havia algo estranho com a teoria: da forma que está descrita, é incompatível com o bosão de Higgs, a partícula celebrizada como a “Partícula de Deus” – que sabemos existir, desde 2013, graças ao Grande Colisionador de Hadrões (LHC) localizado na fronteira da Suíça com a França.

De acordo com os seus cálculos, que contaram com a participação de cientistas da Universidade da Columbia em Nova York e da Universidade de Heidelberg, a hipótese do Universo em constante expansão não pode ainda ser descartada – e foi a partícula descoberta no LHC que causou o maior “buraco” na teoria revolucionária de junho.

Ainda assim, explicou Wrase em declarações ao Live Science, a conjetura do Universo em colapso poderia ser viável, mas precisaria de alguns ajustes teóricos. O artigo que baralhou a teoria revolucionária sobre a Teoria das Cordas foi publicado no passado dia 2 de outubro na revista Physical Review D.

Sinteticamente, o artigo de junho sugere que a Teoria das Cordas – um dos maiores modelos no campo da Física – invalida a expansão infinita do universo. “As pessoas ficam muito emotivas porque, a ser verdade e a ser descoberta, seria espetacular”, disse Wrase.

O debate acalorado sobre a Teoria das Cordas e a energia escura continua um pouco por todo o mundo. Wrase espera que toda esta discussão conduza a avanços científicos.

“Toda esta controvérsia é boa para a Teoria das Cordas”, reitera o físico. De repente, muitas pessoas surgem com ideias completamente novas sobre as quais ninguém tinha pensado até então”.

A Teoria de Tudo

Já muito se disse e escreveu sobre a Teoria das Cordas. Esta teoria, também conhecida com a Teoria de Tudo, representa uma estrutura matematicamente elegante para unir a teoria da Relatividade Geral de Einstein à Mecânica Quântica. No entanto, e tal como nota a Phys.org, ainda não foi comprovada experimentalmente.

A Teoria das Cordas é, no fundo, uma teoria da unificação, uma vez que propõe relacionar a gravidade à física quântica, entendendo as leis da natureza, que descrevem todo o mundo físico desde de as partículas mais pequenas até à maior estrutura do Universo.

Nesta hipótese, as cordas são os blocos fundamentais da matéria. A teoria sugere que as partículas que compõem o universo não são realmente pontos, mas antes cordas uni-dimensionais que vibram.

Para que a Teoria das Cordas seja uma explicação viável para o Universo, deve incorporar a energia escura. Originalmente, a ideia partiu de Einstein, que a adicionou como uma “constante cosmológica” à teoria da Relatividade Geral, de forma a construir um Universo que não se expande.

Quando, em 1929, Edwin Powell Hubble comprovou que o Universo estava efetivamente em expansão, Einstein retratou as suas equações e considerou este o maior erro da sua vida. Entretanto, com a descoberta da expansão acelerada do Universo, a constante cosmológica foi reintroduzida como energia escura no atual modelo padrão da cosmologia.

Para o bem da Ciência, as hipóteses que vão emergindo serão, pelo menos em parte, testadas experimentalmente. No futuro, a expansão do Universo será medida com mais precisão do que nunca – até lá, o debate promete continuar aceso.

SA, ZAP // Live Science / Phys.org

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13 COMENTÁRIOS

  1. O artigo acima está incorreto quando menciona o Hubble em 1929. Penso que queria mencionar Edwin Powell Hubble, que revolucionou a Astronomia ao constatar que o Universo estava se expandindo.

    • Amigo João, estes conceitos são difíceis de interiorizar por “simples mortais” como eu e o João. Mas falando simples e dentro dos meus parcos conhecimentos no assunto a verdade é que não existe “nada” para além do Universo; ao expandir-se ele próprio se cria a si mesmo; se se vai expandir eternamente (hipótese mais aceite pelos cientistas na actualidade), estacionar ou regredir isso já vai depender da “constante cosmológica” e de um maior conhecimento sobre a famosa e misteriosa”matéria negra”.
      Abraço…

  2. Acontece com frequência cientistas ateus ou panteístas (a esmagadora maioria dos homens da ciência enquadra-se numa destas definições) utilizarem expressões do género desta e que depois, usadas fora do contexto original, são utilizadas abusivamente para legitimar a existência de Deuses e afins. Fica entretanto no mínimo estranho, que religiões que adoram um ser dito omnipotente, omnipresente e tudo mais tenham que ir procurar legitimação na palavra de “simples mortais”.

    • Caro A,
      Nós não somos os criadores da expressão “Partícula de Deus”. Limitamo-nos a usá-la, entre aspas, como faz a generalidade da imprensa e, diga-se, a própria comunidade científica.
      Obrigada pelo reparo e pela sua visita.

  3. Vejo o universo como o conteúdo do cilindro de um motor Diesel ou a gasolina. Ele terá utilização para transformar energia em movimento e vice versa. Assim pode haver n universos, de acordo com as necessidades dos seus donos que por sua vez existem num super universo e assim por diante.
    Mas pouco interessa para um ser que só tem uma média de 78 anos de existência.
    Este tempo deveria de ser utilizado para viver e deixar viver. Aí é que a (con)ciência podia melhorar muito

  4. O maior gênio atual na Ciência, é o cientista Fernand Pontes, que levou 47 anos de pesquisa solitária, até provar fisicamente que existe um autor como RAZÃO prístina na causa do Universo e da Vida existir.
    Não parou e foi mais adiante, tornando-se o único cientista a conhecer um dos maiores mistérios na criação do Universo e mais além.
    E o mais incrivível, é que o Cientista, Fernand Pontes, não teve ninguém financiando seu trabalho, e nem verba de governo, ele fez tudo usando a mente como laboratório no campo da Metafísica, igual Nikola Tesla, também conseguia fazer.

    • Interessante, vou tentar saber mais sobre Fernand Pontes.
      Outros “Galileus” modernos que vale a pena conhecer:Dr Halton Arp (cujo mentor foi Dr.Hubble),Dr Harold Aspden,Dr William Tift.

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