Estranhos pigmentos vermelhos desvendam mistério sobre o colapso da civilização da Ilha de Páscoa

Um novo estudo lança luz sobre a continuidade cultural dos Rapa Nui após o início do desflorestação através de uma investigação dos pigmentos vermelhos usados ​​por esta civilização durante séculos.

Seguindo a trilha do lendário Terra Australis, o navegador holandês Jacob Roggeveen chegou em 5 de abril de 1722 a uma pequena ilha no meio do Pacífico. Exploradores europeus chamaram-na Ilha de Páscoa em homenagem ao dia da sua chegada, a Páscoa.

Ao desembarcar, encontraram as colossais e enigmáticas esculturas Moai e um pequeno número de indígenas. Naquela altura, a ilha não tinha árvores e a civilização Rapa Nui estava a caminhar para o seu desaparecimento.



Quando e como o colapso aconteceu é um grande mistério. A teoria mais popular sustenta que ocorreu no século XVII, após uma catástrofe ecológica, cultural e demográfica. Porém, a cronologia destes eventos permanece envolta em ambiguidade até hoje.

Agora, de acordo com o jornal espanhol ABC, um novo estudo liderado pelo Museu Moesgard, na Dinamarca, lança luz sobre a continuidade cultural dos Rapa Nui após o início da desflorestação, através de uma investigação meticulosa dos pigmentos vermelhos usados ​​pela civilização durante séculos.

“Ainda não foi determinado para que eram usados. No entanto, é claro que a cor vermelha era considerada sagrada na Ilha de Páscoa. Representava força espiritual, força física e fertilidade”, disse Marco Madella, especialista em arqueologia ambiental da Universidade Pompeu Fabra.

Embora a presença desse pigmento tenha sido bem documentada por cientistas, a sua origem e possível processo de produção não eram claros.

Ervas secas para combustível

Equipas de Museu Moesgard e da Universidade de Kiel já tinham documentado a existência de centenas de poços a conter vestígios destes pigmentos em vários pontos da ilha. Foram datados entre os séculos XIII e XV, após o início da desflorestação da ilha e antes da chegada dos europeus, e foi documentado que a sua finalidade era a sua elaboração e foi sugerido que existia uma produção em larga escala de pigmentos na ilha.

O novo trabalho arqueológico encontrou mais poços em diferentes pontos de Rapa Nui, pelo que “a sua presença era muito mais comum na ilha“, segundo Madella. O material analisado data as construções no período entre os séculos XV e XVII.

Assim, a produção e o armazenamento de pigmentos continuaram a ocorrer em considerável quantidade após a desflorestação. Assim, as descobertas apoiam a teoria da continuidade cultural dos Rapa Nui em vez do colapso.

Embora a sua finalidade exata seja desconhecida, “é possível que fossem usados ​​para pintar o corpo, porque a sua consistência fina torna-os fáceis de aplicar sobre a pele. Outro uso poderia ter sido a decoração de imagens de pedra ou para pintar parte dos moai”, arriscou a cientista, realçando que tal isso daria suporte ao facto de que precisavam de os produzir em abundância.

A investigação também conseguiu identificar, pela primeira vez, a forma como os pigmentos eram produzidos nas construções encontradas. A equipa analisou fitólitos, partículas microscópicas de sílicas opalinas que se formam nas células vegetais, e o estudo mostrou que o pigmento vermelho é baseado em hematita de óxido de ferro, que os Rapa Nui produziam nestas construções aquecer rochsa, que eram depois trituradas.

“A evidência do uso do fogo para processar as pedras vem do material vegetal carbonizado, que se encontra em camadas de cor escura em todo o pigmento avermelhado que preenche os poços”, disse o especialista.

Os habitantes da Ilha de Páscoa já tinham derrubado grande parte das suas florestas, pelo que a madeira mal se encontrava presente como combustível. Em vez disso, os Rapa Nui usavam grandes quantidades de ervas secas.

Os poços onde eram produzidos os pigmentos funcionavam também para os armazenar, e alguns deles possuíam uma espécie de rolha para proteger o seu conteúdo.

Assim, o estudo não encontrou evidências de um colapso anterior à colonização da Ilha de Páscoa. Pelo contrário, junta as suas conclusões à ideia de que comunidades resilientes continuaram com as suas tradições ancestrais, apesar do impacto da chegada dos europeus — ideia que parece agora ganhar força.

Este estudo foi publicado em dezembro na revista científica The Holocene.

Maria Campos, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. É no que dá quando uma sociedade não tem uma economia baseada na gestão de recursos. Como praticamente todas as economias actuais. A diferença é que nós sabemos o que pode acontecer. No entanto, como os naturais da ilha, não mudamos. Temos o conhecimento necessário mas somos mais contraditórios do que nunca. O resultado, poderá ser o mesmo.

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