Metrópole no Camboja medieval. Estudo mostra quantas pessoas viveram no Império de Angkor

Tom Chandler e Micheal Lim / Monash University

Reconstrução de um povoado medieval e um santuário de aldeia no sul de Angkor.

Um novo estudo arqueológico mostra quantas pessoas viveram no antigo Império de Angkor ao longo do tempo. A população era comparável à da Roma antiga.

Quão grandes eram as antigas cidades? No seu auge, há cerca de 5.000 anos, a primeira cidade do mundo, Uruk, pode ter tido cerca de 40.000 habitantes. Na era medieval, Londres pode ter tido uma população de cerca de um quarto de milhão de pessoas, crescendo para aproximadamente 600.000 no início do século XVII.

Uma das maiores e mais antigas cidades do mundo ficava nas selvas do sudeste da Ásia, na grande região de Angkor, localizada no Camboja contemporâneo. Este local medieval foi o lar do Império de Angkor ou Khmer do século IX ao XV, cujo templo de Angkor Wat é um dos maiores monumentos religiosos do mundo.

Mas a maioria das pessoas não percebe que Angkor Wat é apenas um dos mais de mil templos na grande região de Angkor. Um novo estudo sugere que esse assentamento pode ter abrigado entre 700.000 e 900.000 pessoas no seu auge no século XIII.

Isto significa que a população de Angkor era aproximadamente comparável às quase 1 milhão de pessoas que viveram no auge da Roma antiga.

Nos últimos 30 anos, arqueólogos têm explorado as selvas e os campos de arroz do Camboja, documentando milhares de características medievais que permanecem inscritas na paisagem.

O nosso conhecimento da região entrou numa nova era em 2012, quando investigadores do Khmer Archaeological Lidar Consortium organizaram uma missão em todo este local de Património Mundial. Chamada de LIDAR, a tecnologia usada foi capaz de em poucos dias analisar e processar meses, senão anos de trabalho de arqueólogos.

Desta forma, os investigadores foram capazes de mapear dezenas de milhares de características arqueológicas em Angkor. Como o povo angkoriano construiu as suas casas com materiais orgânicos e em postes de madeira, essas estruturas há muito desapareceram e não são visíveis na paisagem. Contudo, o LIDAR revelou uma paisagem urbana complexa.

O novo estudo publicado na revista Science Advances criou um banco de dados abrangente que une o trabalho de mapeamento LIDAR, de 2012, com um enorme conjunto de dados arqueológicos adquiridos por uma equipa internacional de cientistas nos últimos 30 anos.

O objetivo era combinar todos os dados disponíveis numa estrutura para que se pudesse entender quais edifícios existiram em vários pontos no tempo e, de seguida, atribuir o número certo de pessoas a cada estrutura, a fim de chegar a estimativas de população.

A parte da paisagem de Angkor com a qual a maioria das pessoas está familiarizada é o que chamamos de centro cívico-cerimonial. Essas áreas são semelhantes ao que se pode considerar o “centro da cidade”.

Os investigadores sugerem que muitas das pessoas que vivam aqui apoiaram o funcionamento dos templos e do governo estadual como artesãos, dançarinos, padres ou professores. Estas pessoas teriam contado com o excedente de arroz gerado pelos agricultores, embora estudos recentes sugiram que também cuidavam de pequenas hortas domésticas.

As pessoas que habitavam os montes e campos de arroz na área metropolitana de Angkor tinham um estilo de vida diferente. Estas pessoas eram predominantemente agricultores e passariam os dias a plantar e colher arroz.

A terceira área de ocupação era nas margens de estradas e canais. Alguns autores pensam que as pessoas viviam nestas áreas e se teriam envolvido no comércio.

Colocar as pessoas numa linha temporal

Combinando os dados LIDAR que mostram a localização dos montes e os dados sobre a paisagem, os autores foram capazes de estimar o crescimento da população ao longo do tempo nessas áreas. Mas foi complicado e exigirá algum trabalho adicional para confirmar este modelo.

Os autores sugerem que as casas no centro cívico-cerimonial de Angkor e nas margens tinham aproximadamente 600 metros quadrados. Os dados etnográficos sugerem que pode ter havido cinco pessoas a morar numa casa deste tamanho.

Estimar a população nos campos de arroz ao redor do centro cívico-cerimonial foi mais difícil. No entanto, dispersos entre os campos de arroz estavam os templos, que provavelmente eram a base social para estas comunidades.

Estas áreas são semelhantes às comunidades agrícolas dos EUA, onde as pessoas se envolvem principalmente na agricultura, mas se reúnem nos seus locais de culto. Os dados etnográficos sugerem que cada um destes pequenos templos pode ter servido a cerca de 100 famílias ou 500 pessoas.

Nos estágios iniciais do crescimento de Angkor, os arqueólogos encontraram uma população razoavelmente igual no centro cívico-cerimonial e na área metropolitana de Angkor, mas depois a população no campo explodiu quando a cidade começou a crescer.

Em contraste, a população do centro cívico-cerimonial cresceu mais lentamente até ao final do século XII. As densidades também aumentaram tanto na área metropolitana de Angkor quanto no centro cívico-cerimonial, que fornece pistas sobre como os níveis populacionais e os padrões de uso da terra evoluíram ao longo da vida da cidade.

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