Marte já foi um “destino de férias de praia”, confirma o rover Zhurong

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O rover Zhurong na superfície marciana

“Estamos a encontrar locais em Marte que se assemelhavam a antigas praias e antigos deltas de rios”, diz geólogo em novo estudo. Parece cada vez mais certo que Marte foi, há mais de 3 mil milhões de anos, a casa de um enorme oceano.

O rover chinês Zhurong, na superfície marciana desde maio de 2021, descobriu provas de uma antiga linha costeira no Planeta Vermelho que mostram que este pode ter sido “uma verdadeira praia de um destino de férias”.

“Estamos a encontrar locais em Marte que se assemelhavam a antigas praias e antigos deltas de rios”, disse, em comunicado citado pelo EurekAlert, o geólogo Benjamin Cardenas, coautor de um estudo publicado esta terça-feira sobre a descoberta na Proceedings of the National Academy of Sciences: “encontrámos indícios de vento, ondas, um local onde não falta areia — uma verdadeira praia de férias”.

A nova descoberta do rover chinês reforça a teoria evidenciada por um estudo de novembro, publicado na Scientific Reports, de que Marte foi, há mais de 3 mil milhões de anos, a casa de um enorme oceano chamado Deuteronilus.

Foi precisamente para procurar sinais de água e gelo antigos que o Zhurong pousou na bacia da Utopia Planitia. Em quase 4 anos em Marte, identificou estruturas estratificadas por baixo da superfície do planeta, que incluíam depósitos de costa, que sugerem que Marte já teve no passado ambientes costeiros dinâmicos muito semelhantes aos da Terra primitiva.

O que os investigadores encontraram “é uma estrutura simples, mas diz-nos que teve de haver marés, teve de haver ondas, teve de haver um rio próximo a fornecer sedimentos e todas estas coisas tiveram de estar ativas durante um longo período de tempo”, disse Cardenas ao The Guardian.

“Excluímos os vulcões, os rios e as dunas de areia sopradas pelo vento. Todos estes fenómenos são muito comuns em Marte, mas a estrutura não se enquadra em nenhum deles”, acrescentou.

As descobertas partilhadas esta semana provam que as ondas e as marés interagiam com a atmosfera marciana. Os investigadores explicam que tais condições poderiam ter suportado vida microbiana, uma vez que se acredita que ambientes semelhantes na Terra foram o berço da vida primitiva. A descoberta “reforça a hipótese de habitabilidade passada nesta região de Marte“, disse Hai Liu, professor na Universidade de Guangzhou e coautor do estudo.

“Isto chamou-nos imediatamente a atenção porque sugere que havia ondas, o que significa que havia uma interface dinâmica de ar e água”, explicou Cardenas. “Quando olhamos para trás e vemos onde se desenvolveu a vida mais antiga na Terra, foi na interação entre os oceanos e a terra, por isso isto está a pintar um quadro de antigos ambientes habitáveis, capazes de albergar condições favoráveis à vida microbiana.”

O antigo oceano marciano Deuteronilus terá desaparecido há cerca de mil milhões de anos na história de Marte, com 4,5 mil milhões de anos, mas este período poderá ter sido longo o suficiente para vida se desenvolver.

“Estamos a ver que a linha de costa desta massa de água evoluiu ao longo do tempo. Temos tendência para pensar em Marte como um retrato estático de um planeta, mas ele estava a evoluir. Os rios corriam, os sedimentos moviam-se e a terra estava a ser construída e erodida. Este tipo de geologia sedimentar pode dizer-nos como eram as paisagens, como evoluíram e, mais importante, ajudar-nos a identificar onde queremos procurar vida passada.”

Para já não há ainda provas conclusivas de vida em Marte, mas o rover Perseverance pode por esta altura já ter recolhido amostras que podem fornecer informações valiosas sobre o passado do planeta.

A NASA tinha inicialmente planeado recolher amostras marcianas até 2026 mas, devido a questões orçamentais, a missão foi adiada até 2040. A iniciativa do setor privado parece fazer parte do “plano B” da agência espacial norte-americana para acelerar a eventual descoberta de vida no nosso vizinho.

Tomás Guimarães, ZAP //

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