Lendária cruz espanhola com 370 anos encontrada em Maryland

Travis Parno / Historic St. Mary’s City

A cruz de Caravaca na altura em que foi encontrada, e depois de limpa

O artefacto encontrado em Maryland, nos Estados Unidos, remete para uma lenda espanhola sobre um fragmento da cruz em que Cristo morreu.

De acordo com o The Washington Post, a pequena cruz apareceu num local de escavações de Maryland e, quando a arqueóloga Stephanie Stevens a encontrou, disse “Oh meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

Era um objeto estranho, com duas barras transversais em vez de uma, e com as invulgares extremidades abertas das peças verticais e horizontais.

Stevens, a líder da expedição arqueológica no recém-descoberto forte colonial em St. Mary’s, não sabia exatamente o que tinha descoberto, mas sabia que era importante.

O objeto desenterrado era uma rara cruz espanhola com 370 anos, que terá sido feita na cidade de peregrinação de Caravaca, em Espanha, por volta de 1650. Depois de criada, a cruz de alguma forma percorreu 6437 quilómetros — até ser encontrada num prado no sul de Maryland.

É um objeto fascinante“, afirmou o arqueólogo Travis Parno, diretor de pesquisa da Cidade Histórica de St. Mary.

“Habituámo-nos a encontrar artefactos católicos, porque havia uma presença católica tão poderosa e particular jesuíta”, acrescentou.

Mas a investigação revelou rapidamente que a cruz era de origem espanhola, e estava ligada a uma antiga lenda sobre o aparecimento de uma cruz milagrosa que continha uma lasca da cruz original em que Jesus morreu.

Mas St. Mary’s era uma colónia inglesa. “O que é que um artefacto espanhol está aqui a fazer”?, questionou-se Parno. “Dadas as relações tensas entre Espanha e Inglaterra, é sempre interessante encontrar um objeto espanhol”.

O artefacto apareceu a 25 de outubro, durante a escavação do forte histórico em St. Mary’s, a primeira terra inglesa em Maryland, que viria a fazer parte dos Estados Unidos, mais tarde.

Três descobertas importantes

Em março do ano passado, a Cidade Histórica de St. Mary’s anunciou que os contornos do forte, erguido pelos colonos em 1634, tinham finalmente sido descoberto. Os arqueólogos andavam à sua procura desde a década de 1930.

Os 150 colonos originais de Maryland, incluindo muitos católicos ingleses em fuga da perseguição protestante, chegaram a St. Mary’s em dois navios, o Ark e o Dove, em finais de março de 1634.

O forte começou logo a mostrar os seus segredos antigos aos arqueólogos. Peças de cerâmica, alfinetes, armas para disparar contra os pássaros e pontas de flecha.

Mais tarde, em abril do ano passado, Parno revelou que os arqueólogos tinham encontrado um xelim inglês com 380 anos, feito de prata, na casa da moeda real da Torre de Londres. Segundo o investigador, “foi uma grande revelação“.

Mas uma terceira descoberta aguardava os arqueólogos: a rara cruz de barra dupla.

“Normalmente, associamos as cruzes de barra dupla e uma barra cortada no fundo da cruz aos ortodoxos russos ou aos ortodoxos gregos“, explica Parno.

Lenda das cruzes de Caravaca

Os investigadores não conseguiam inicialmente chegar a consenso sobre a origem do artefacto, e consideram a hipótese de ser uma Cruz de Lorena francesa, por ter duas peças horizontais planas.

“Esta não correspondia bem a nenhuma dessas imagens“, notou Parno. “Tem aqueles sinalizadores nas extremidades das barras. Quase parecem sinos, com um desenho quase barroco muito ornamentado”.

“Foi então que começámos realmente a investigar, e encontrámos este exemplar de uma cruz de Caravaca”, explicou o investigador.

As cruzes de Caravaca estão ligadas a uma lenda com 700 anos sobre anjos que, milagrosamente, teriam dado uma relíquia com um fragmento da cruz de Cristo a um padre aprisionado, que estava prestes a rezar a Missa a um rei muçulmano em Caravaca.

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Em algumas versões da cruz, esta é carregada por anjos na barra vertical, enquanto Jesus está pendurado crucificado na barra superior. À cruz de Santa Maria faltam os anjos e a figura de Jesus. “Esta é uma espécie de versão reduzida“, disse Parno.

O artefacto é bastante pequeno, e cabe facilmente na palma de uma mão. É feito de uma liga de cobre, segundo os investigadores.

Mas como é que chegou a Maryland?

Não existem provas de que houvesse espanhóis, na altura, em Maryland, relembra  Parno. Foi trazido para St. Mary’s por um padre católico jesuíta que tinha visitado Espanha? Também improvável, porque as datas não fazem sentido, acrescenta.

Foi levada por um católico devoto entre os colonos? Possivelmente. Talvez o cenário mais provável seja aquele em que a cruz tenha sido comprada aos nativos americanos locais, notou o investigador.

“Sabemos que a cultura espanhola, particularmente a cultura material religiosa, foi comercializada na costa oriental”, afirmou. Havia na altura centros de comércio espanhóis na Florida e na Carolina do Sul.

A cruz pode ter sido oferecida aos nativos americanos como parte do trabalho missionário espanhol e depois trocada por alguém em St. Mary.

“Se um colonizador católico estiver interessado numa cruz de Caravaca que um indígena estivesse a usar, talvez tenha sido uma troca inversa. Um objeto europeu que acabou em mãos indígenas e depois de novo em mãos coloniais”, referiu Parno.

“Todos os dias temos novos mistérios que nos deixam a abanar a cabeça. Cada vez que pensamos ter descoberto algo, surgem mais três questões“, conclui o investigador.

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