Há cada vez mais habitantes a dizer sayōnara a Tóquio

Tóquio, Japão (foto: Chris 73 / wikimedia)

Alteração nas prioridades dos japoneses, após a pandemia e a introdução do teletrabalho, parece ser um favor determinante no desejo de emigrarem para cidades mais pacatas e com maior qualidade de vida.

No momento em que Kazuya Kobayashi, de 40 anos, decidiu abandonar Tóquio para perseguir o seu sonho de ter o seu próprio restaurante de ramen, a cidade de Sano pareceu-lhe uma boa escolha. Para além de ser o lar espiritual do cricket japonês, o território nos subúrbios de Tochigi é famosa pelas suas lojas de ramen, muitas das quais a lutar para encontrar sucessores. “O coronavírus apareceu e, sendo a minha mulher débil, pareceu-nos ser a altura certa para nos mudarmos”.

O homem, que espera abrir o seu espaço no próximo ano, está longe de ser o único a querer abandonar a cidade mais populosa do mundo, com 13,9 milhões de pessoas, e com um Produto Interno Bruto superior ao dos Países Baixos. De acordo com uma estimativa recente do Governo, em 2021, a população da cidade caiu pela primeira vez em 25 anos, com uma perda líquida de 48.592 face ao ano anterior.

A tendência é visível também no número crescente de pessoas que procuram conselhos tendo em vista o início de uma nova vida fora dos limites de Tóquio, a qual os especialistas justificam com a pandemia, mas também com o advento do teletrabalho. Este parecia ser também um caminho há muito desejado pelas instâncias governamentais, que implementaram programas para revitalizar regiões mais rurais do Japão.

No ano passado, o Hometown Return Support Centre, uma organização sem fins lucrativos que ajuda pessoas precisamente a deslocar-se dentro do país, recebeu quase 50 mil pedidos de apoio de pessoas que pretendiam sair de Tóquio, 70% das quais com menos de 50 anos. O destino mais popular foi Shizuola, uma região na costa do Pacífico servida por um comboio de alta velocidade que faz a viagem até Tóqui numa hora. O segundo lugar foi arrecadado por Fukuoka, também próximo da capital.

Numa fase inicial, aquando do surgimento da pandemia, a relação das entidades patronais com o trabalho remoto não foi positiva, mas o tempo acabou por provar que a limitação do tempo nos escritórios poderia ser uma opção proveitosa para muitos indivíduos. Ainda assim, aqueles que optam por deixar Tóquio e as grandes cidades para trás citam questões como a qualidade de vida, os serviços de acolhimento de crianças e o custo de vida mais baixo para justificar o desejo de mudança.

Alterações recentes na economia japonesa também parecem ter contribuído para o comportamento dos japoneses. “Durante os anos que se seguiram à guerra, as pessoas sonhavam em viver em Tóquio”, explicou o responsável do Hometown Return Support Centre, Hiroshi Takahashi. “O Japão atingiu a sua transformação, mas, 30 anos após a explosão da bolha, a vida é mais incerta do que nunca e Tóquio perdeu alguma da sua atração. Agora mais pessoas sonham em sair.”

Takahashi acredita que a tendência continuará muito depois de a pandemia ter terminado. “No passado, o trabalho era tudo o que importava, mas agora as famílias estão a pensar no ambiente em que vivem, também. Os valores das pessoas mudaram.” Esta visão é sustentada por inquéritos recentes que mostravam que quase metade dos habitantes da cidade na casa dos 20 anos mostravam interesse em mudar-se.

Simultaneamente, a Sano parece ter capitalizado a sua associação com o ramen para atrair chefes de todo o país. Há dois anos, a cidade lançou uma iniciativa “projeto migração jamen” que providenciava aqueles que ali chegavam treino em tarefas tão diversas como fazer noodles, gestão ou contabilidade. As autoridades locais também ofereceu assistência financeira para ajudar a combinar novos chefs qualificados com lojas de ramen.

“Trabalhei em cozinhas de restaurantes em Tóquio e sempre quis gerir o meu próprio estabelecimento, por isso quando vi o ‘projeto ramen’ na televisão decidi candidatar-me”, disse Kobayashi, de 40 anos, cuja mulher está à espera do seu primeiro filho, ao The Guardian. “Passei 15 anos em Tóquio e gostei de estar lá, mas o custo de vida aqui é muito inferior  e as pessoas vêm de todo o lado para comer o ramen de Sano, por isso faz sentido financeiramente“.

Para além da capacitação dos que chegavam, Sano também começou a oferecer outros incentivos às famílias que chegavam, de forma a alimentar o movimento migratório interno, explica Mitsuru Ozeki, funcionária do departamento de emigração da cidade. “Queríamos encontrar uma forma de diferenciar Sano de outros territórios e a sua localização ao ramen pareceu-nos a forma mais óbvia de o fazer”, aponta. “Oferecemos incentivos aos jovens para comprarem casas aqui, assim como outros benefícios financeiros. As rendas são baixas, o ar é limpo e a comida é deliciosa.”

  ZAP //

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