Biden distancia-se, Trumpistas querem guerra civil. O rescaldo da rusga sem precedentes do FBI a um ex-Presidente

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Donald Trump

A Casa Branca diz que soube das buscas pelos meios de comunicação e os Republicanos já estão a usar a rusga para tentar angariar fundos e mobilizar a base. O caso não tem precedentes na história dos Estados Unidos e nem no âmbito do escândalo Watergate houve buscas à casa de Richard Nixon.

A porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, revelou ontem numa conferência de imprensa que Joe Biden não foi informado previamente da rusga do FBI à casa de Donald Trump na Flórida e só soube do sucedido pelas notícias.

O Presidente não foi avisado, não foi informado de nada. Ninguém na Casa Branca sabia. Soubemos disto da mesma forma que o povo americano soube”, revelou.

Jean-Pierre sublinhou ainda que o Departamento de Justiça actua de forma independente, algo que Biden já tinha dito, apesar de o procurador-geral Merrick Garland, que lidera o Departamento, ter sido nomeado pelo chefe de Estado.

Durante a manhã desta segunda-feira, o FBI apareceu na casa de Donald Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, em busca de documentos oficiais da Casa Branca que estavam desaparecidos.

Os meios de comunicação norte-americanos avançam que 15 caixas de registos estavam desaparecidas, sendo que alguns dos documentos em causa eram confidenciais. A investigação já estava a decorrer desde Abril.

Segundo a lei dos registos presidenciais, os chefes de Estado têm de transferir todos os seus documentos, cartas e correio eletrónico para os Arquivos Nacionais quando abandonam a Casa Branca. Especula-se que estarão cartas de Barack Obama e de Kim Jong-un entre os documentos desaparecidos.

As notícias sobre o desprezo de Donald Trump por documentos oficiais não é de agora. Em 2018, o jornal Politico falou com Solomon Lartey, um funcionário dos registos da Casa Branca, que disse que muitas vezes teve de usar fita-cola nos papéis que o então Presidente rasgava e que havia casos em que os pedaços dos papéis eram tão pequenos que “pareciam confetti“.

Entretanto, o Axios também divulgou fotografias de pedaços de papel de documentos da Casa Branca que Trump terá tentado descarregar pela sanita abaixo. O novo livro de Maggie Haberman, jornalista do The New York Times, vai também revelar mais detalhes sobre este hábito do ex-Presidente.

O The Washington Post escreve mesmo que Trump tinha um processo tão distinto que os funcionários sabiam logo quando teria sido o próprio a destruir os documentos — dois rasgões grandes que deixavam o papel em quatro pedaços, que depois eram distribuídos por caixotes do lixo, secretárias e pelo chão.

Donald Trump não estava em casa na hora da rusga, que considera que “não era necessária nem apropriada”. “A minha linda casa, Mar-A-Lago em Palm Beach, na Flórida, está actualmente sob cerco, a ser invadida e ocupada por uma grande grupo de agentes do FBI. Até arrombaram o meu cofre! Um tal assalto só poderia ter lugar em estados falhados do terceiro mundo”, reagiu o ex-Presidente, que diz estar a ser vítima de uma perseguição política.

O desaparecimento dos documentos pode abranger vários crimes, especialmente se estiverem em causa segredos que põem em risco a segurança nacional. Caso seja considerado culpado, Trump poderá ter de pagar uma multa, poder ser preso e será impedido de se voltar a candidatar à Presidência dos Estados Unidos.

Que documentos é que o FBI procurava?

Até agora, não há indicações de que estas buscas estas relacionadas com a investigação do Departamento de Justiça ao envolvimento de Donald Trump no ataque dos seus apoiantes ao Capitólio a 6 de Janeiro de 2021, quando tentaram impedir que o Congresso certificasse a vitória de Joe Biden nas presidenciais.

Apesar disto, há especialistas que suspeitam que Trump levou alguns dos documentos consigo porque estes o incriminariam na investigação. Quando a comissão parlamentar que investiga a insurreição pediu registos da Casa Branca aos Arquivos Nacionais, muitos documentos estavam rasgados.

Alguns dos papéis estavam mesmo desaparecidos, principalmente os relativos à pressão que Donald Trump fez ao seu vice-presidente, Mike Pence, para que este participasse no seu golpe e o ajudasse a reverter os resultados eleitorais.

Pence acabou por não ceder às exigências do então Presidente, o que lhe valou várias ameaças de morte por parte dos apoiantes de Trump, com muitos a dizer que o queriam enforcar.

“Sabemos que isto não foi um grupo de agentes do FBI que um dia acordaram e decidiram pregar uma partida. Quanto mais específica for a declaração que acompanha o mandado, melhor. Suspeito que para esta busca na casa do ex-Presidente Trump, a declaração era bem específica“, explica Steve Vladeck, professor de Direito da Universidade do Texas, ao NPR.

Para além da autorização de um juiz federal, dada a sensibilidade do caso, é provável que o director do FBI, Christopher Wray, que foi nomeado em 2017 por Trump, também tenha dado luz verde à rusga. Até agora, o procurador-geral Merrick Garland recusou comentar a situação, mas há analistas que acreditam que uma busca deste nível não teria avançado sem a sua autorização.

“Garland é um homem muito cauteloso. E podemos ter a certeza de que ele queria que ter a certeza de que tudo o que foi feito não podia ser criticado”, afirma Stephen Gillers, professor de Direito da Universidade de Nova Iorque.

Garland é tão cauteloso que até já foi criticado por ter dado a entender que não ia acusar Trump formalmente pelo assalto ao Capitólio, pelo pelos antes das eleições intercalares de Novembro.

Um memorando polémico foi divulgado nas últimas semanas onde Garland reforçou uma ordem do procurador-geral de Trump, Bill Barr, que determina que nenhuma investigação pode ser aberta a um candidato declarado a Presidente, o que numa altura em que se antecipa uma recandidatura de Trump, faltando apenas um anúncio oficial.

 

“Nunca vimos nada assim”

As buscas dos agentes federais a Donald Trump suscitaram inúmeras reacções. “Nunca vimos uma cena assim em toda a História presidencial”, escreveu no Twitter o historiador norte-americano Michael Beschloss, que se especializa no estudos dos Presidentes dos EUA.

Nem no caso Watergate, que Trump referiu na sua reacção às buscas, houve uma rusga à residência do ex-Presidente no centro da polémica, Richard Nixon.

“A maioria dos Presidentes entende o valor de criar e preservar um legado, por isso são mais cuidadosos com a preservação dos registos. Simplesmente nunca houve um outro Presidente tão despreocupado com os seus registos que tornasse necessário fazer buscas”, explica Lauren Harper, directora do departamento de políticas públicas do Arquivo de Segurança Nacional, uma organização sem fins lucrativos que advoga o acesso livro à informação governamental.

O caso está também, inevitavelmente, a ganhar contornos políticos. Apesar de alguns congressistas terem aplaudido as buscas, no geral, os Democratas têm sido contidos nas reacções. O líder da maioria Democrata no Senado, Chuck Schumer, apareceu visivelmente desconfortável quando recusou comentar as buscas no programa de televisão de Rachel Maddow, na MSNBC.

Do lado dos Republicanos, a história é outra. Várias figuras do partido, incluindo o líder da minoria na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, o ex-Secretário de Estado de Trump, Mike Pompeo, ou o seu ex-vice-presidente, Mike Pence, já acusaram o FBI de abuso de poder e dizem que o Departamento de Justiça está a ser instrumentalizado para fins políticos.

Os candidatos Republicanos e grupos políticos de direita, assim como o próprio Donald Trump, estão a aproveitar a situação para mobilizar a base e angariar fundos.

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“MAR-A-LAGO foi alvo de uma RUSGA. A Esquerda Radical é corrupta. Devolvam o poder ao povo? Vão lutar comigo? Façam doações”, escreveu Trump aos seus apoiantes na manhã de terça-feira.

Apoiantes de Trump querem “guerra civil”

Os apoiantes do ex-Presidente dos EUA já manifestaram a sua revolta com as buscas a Trump nas redes sociais, com muitos até a apelarem à violência, escreve a VICE.

A Guerra Civil 2.0 arrancou“, escreve um no Twitter. “Mais um passo até à guerra civil cinética”, disse outro. Um terceiro diz que até já tem prontas as suas munições.

Nos grupos no Telegram do QAnon, as mensagens eram semelhantes. “A guerra civil está a chegar à América e não vai haver mais eleições“, pode ler-se. “Ataques contra Alex Jones, Trump e réus do Dia do Patriota estão apenas a criar um precedente para um futuro em que só nós é que nos opomos ao Deep State”, afirmou outro, referindo-se à invasão ao Capitólio e à recente condenação de Alex Jones, uma das vozes mais influentes no mundo das teorias da conspiração, por ter dito durante anos que o tiroteio na escola de Sandy Hook era uma encenação.

Estas ideias são repetidas por muitos apresentadores e convidados de canais conservadores, como a Fox News. “Isto parece um golpe de Estado preventivo“, disse o apresentador Buck Sexton no programa de Jesse Watters.

“Isto é tão errado, tão tirânico”, disse o comentador de extrema-direita Steven Crowder no seu canal de YouTube, que conta com mais de cinco milhões de subscritores, num vídeo onde apela à “guerra” e pede aos seus seguidores que “combatam o fogo com fogo”.

Este caso é mais um que vem deitar mais achas à fogueira e agravar ainda mais a enorme polarização política nos EUA. Nas últimas semanas foi divulgada uma sondagem que concluiu que quase 70% dos norte-americanos acredita que a democracia no país está sob ameaça e mais de metade acha que o país será palco de uma nova guerra civil num futuro próximo.

O impacto nas intercalares

Numa altura de clima pré-eleitoral e quando as sondagens não são favoráveis às esperanças dos Democratas de segurarem o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes em Novembro, esta rusga está longe de significar a morte política de Trump.

Pelo contrário, e tal como mostram as reacções online, é possível que os seus apoiantes se sintam ainda mais mobilizados devido àquilo que acreditam ser uma “caça às bruxas” em torno do ex-Presidente — isto numa altura em que o apoio de Trump aos candidatos nas primárias Republicanas continua a ser um trunfo valioso.

E Trump não é simplesmente um ex-Presidente, já que está a considerar uma nova candidatura em 2024, o que torna um adversário de Biden. A administração está ciente dos riscos de criar uma imagem de que Biden está a usar o seu poder para acusar criminalmente um oponente político e o afastar da corrida, o que também pode ajudar a explicar os comentários parcos e aparente distanciamento da Casa Branca na reacção às buscas do FBI.

Durante a campanha eleitoral em 2020, o próprio Joe Biden reconheceu as consequências políticas de uma situação destas. “Acho que é muito, muito incomum e provavelmente não muito bom para a democracia estar a falar de acusar ex-Presidentes”, disse em Agosto de 2020.

Resta-nos aguardar pelos desenvolvimentos do caso.

  Adriana Peixoto, ZAP //

9 Comments

  1. Estes americanos (republicanos) são loucos! Se as eleições deste ano e de 2024 derem a vitória aos Republicanos, temo que os EUA se vão desintegrar (e assim entregar de bandeja a supremacia economica, política e militar ao bloco sino-russo). E o que será da Europa nesse contexto?

    • @Otto Matik: Pois é. Isso vindo de si só pode ser piada. Vê-se logo quem é que está a abusar da supremacia económica, politica e militar. O melhor seria mesmo retirar as palas. Mas isso é impossível

    • Querem uma guerra Civil , só para matar Saudades !…..mas poderia ser evitado , pondo o Trump e o Biden num ring com um par de luvas de boxe cada um , e que o melhor ganhe !

    • Não achas que se o Trump, ou mesmo os seus apoiantes, quisessem uma guerra civil. Esta já teria começado à muito?

      Quem está a levar o país nessa direção é o Biden e a sua administração de aberrações.

      E antes de falares de trampas de outros países. Olha bem para aqueles que governam o TEU país.

  2. A esquerdalhada é um perigo. Querem arrumar com o homem para não ser candidato – no Brasil, a justiça colocou um ladrão como candidato.

  3. Sinceramente o Trump saiu tudo piorou.
    Esse Biden só não foi deposto; pela vice ser pior que ele.
    Parabéns Di Capri e os artistas que fizeram isso.
    Graças a quem votou no Biden; matas pegam fogo à anos e ninguém faz nada.
    Quem sofre? São os bichinhos.

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