“Ou o Governo nos recebe ou levam-nos de ambulância ou caixão”. Ljubomir e mais 8 em greve de fome

Luís Forra / Lusa

Nove elementos do movimento “A pão e a água” estão em greve de fome desde a passada sexta-feira, 27 de Novembro. São empresários da restauração e da animação nocturna, entre os quais se encontra o conhecido chef Ljubomir Stanisic, que exigem ser recebidos pelo Governo, criticando os apoios destinados ao sector.

“Eu vou ficar aqui até que o Governo nos receba. Eu represento as discotecas deste país, tenho nove espaços fechados. Estou há nove meses sem poder sustentar a minha família, portanto, estou aqui até que o Governo diga alguma coisa, até que o Governo me ajude. Estou sem reservas nenhumas”, lamenta na TSF o empresário Alberto Cabral, confessando que “tem sido muito complicado” e “muito doloroso”.

“Temos três hipóteses: uma é o ministro, ou o primeiro-ministro, receber-nos; a segunda é levarem-nos de ambulância, a terceira, é de caixão. Estamos preparados para tudo“, acrescenta na mesma rádio outro dos manifestantes, o empresário Ricardo Tavares.

“Sou como um bambu, vergo mas não parto”

Munidos de aquecedores e mantas, com duas árvores de Natal e velas como companhia, e a consumirem apenas “café, água, chá e vitamina C”, segundo revelam à Rádio Renascença, os manifestantes começam a sentir no corpo as dores da greve de fome.

Estou um pouco fraco, o corpo está a reagir, tive cãibras, já houve aqui duas quedas hoje”, conta à revista Sábado o chef Ljubomir Stanisic, outro dos manifestantes.

“Estamos a tentar não nos movimentarmos. Estou um pouco zonzo, é normal, tenho tonturas. Mas sou como um bambu, vergo mas não parto, não tenham duvidas disso”, assegura ainda Stanisic.

O chef jugoslavo, mas há muito radicado em Portugal, diz que participa na greve de fome “por uma luta” que “é do povo”. “Sou guerreiro, venho de um país [ex-Jugoslávia] que nunca baixou os braços. Não é por mim, tenho casa quente, tenho comida na mesa, não me falta nada. Estou aqui para as pessoas que se aguentaram e para as que se suicidaram”, salienta também.

“Um distribuidor de bebidas no Algarve suicidou-se logo ao segundo mês porque já não aguentava. Um chef de cozinha em Santarém pendurou-se pelo pescoço em junho, dentro do restaurante. Com uma filha de três meses”, refere ainda Stanisic, realçando que o movimento entregou à Casa Civil da Presidência da República “trinta e tal chaves de restaurantes que faliram, eram só famílias”. “Pai, mãe, filho”, acrescenta.

Se deveres um euro que seja à Segurança Social ou às Finanças, o Estado não te dá apoio. Isso é uma das maiores causas por que estou aqui. Há pessoas que em Abril não conseguiram pagar Segurança Social porque não quiseram deixar os empregados com fome. Porque é que tendo pago toda a vida, agora não têm direito a apoio? Isto é o pior fascismo de regra que conheci”, aponta também o chef.

Pagam impostos durante 60 anos e por causa de um mês não tiveram direito à linha de crédito Covid, não tiveram direito a isenção de TSU de subsídio de natal, por causa de 12 euros, 14 euros, não tiveram direito a baixa de renda, a nada? Porquê? Porque lhes faltou o dinheiro e deram ordenado às pessoas para terem que comer. Quem é que inventou esta lei? Não se pode abrir precedente para os restaurantes? E pode abrir-se um precedente para a TAP? E pode abrir-se um precedente para o Novo Banco?”, critica ainda Stanisic.

No caso do seu negócio em específico, o chef refere que está a “negativos em 1 milhão e 800 mil euros”. “No ano passado paguei em impostos 1 milhão e 340 mil, este ano ainda não facturei isso. Como é que vou pagar subsídio de natal aos empregados?”, questiona ainda Stanisic.

Há “histórias de terror” por todo o país

Por seu lado, o empresário João Shima, proprietário de restaurantes e gerente de uma discoteca e outro dos manifestantes, refere na Renascença que tem “cerca de 20 pessoas” a seu cargo na restauração e “120 na discoteca” e que precisa “de apoios já”.

Já Carlos Saraiva, dono de uma empresa que detém sete restaurantes que empregam “perto de 80” pessoas e que está também em greve de fome, nota na mesma Rádio que já teve de encerrar dois e “muito possivelmente, até ao final do ano” terá que encerrar todos os estabelecimentos.

“Não percebemos o que este Governo está a pensar, para afundar uma economia em nove meses, e sem dar resposta, porque não nos dão uma luz ao fundo do túnel”, critica ainda Ricardo Tavares na TSF.

“Temos tido manifestações por todo o país, e por todo o país nos vêm contar histórias de terror, de famílias que tinham a vida toda organizada. Ontem, esteve aí um senhor que tinha um restaurante há 60 anos. O senhor tem 80 anos e perdeu o restaurante“, conta ainda Ricardo Tavares, salientando que “o tecido empresarial português” está em risco de sobrevivência “se o Governo não resolver isto”.

Ricardo Tavares deixa ainda críticas a Marcelo Rebelo de Sousa, considerando que os empresários queriam ter sido recebidos pelo Presidente da República e não por dois assessores seus, na passada sexta-feira.

Sempre que vê um marginal deitado no chão, em maus lençóis, vai lá para tirar uma selfie. Devia ter atenção aos empresários deste país, que estão aqui representadas por estas nove pessoas que estão em greve de fome, e ter vindo aqui dar uma palavra”, salienta Ricardo Tavares sobre Marcelo, concluindo que “se calhar está muito preocupado com a recandidatura, ou não”.

Sector está “há nove meses em agonia”

O movimento que junta empresários e trabalhadores da restauração, bares, discotecas, cultura, eventos, alojamento e táxis foi recebido na Casa Civil da Presidência da República, na sexta-feira, e revelou que teve a oportunidade de “expor as suas ideias e propostas, solicitando ao Presidente que interceda urgentemente a favor do sector”.

Sem respostas concretas e imediatas aos pedidos apresentados, e considerando a urgência de medidas que apoiem um sector que já há nove meses se encontra em agonia, e que, agora, com as novas restrições, entra numa fase ainda mais dramática, o Movimento não tem outra opção senão a de prosseguir esta luta”, realça uma nota do movimento.

Em representação do movimento estiveram no encontro Ljubomir Stanisic, José Gouveia e Manuel Salema e a reunião “surgiu na sequência de um pedido de audiência” em 16 de Novembro, dirigido a Marcelo Rebelo de Sousa, a António Costa e a Siza Vieira, ministro da Economia.

“Dos três pedidos enviados, apenas o ‘email’ dirigido ao Gabinete da Presidência obteve resposta, concretizando-se hoje [ou seja, na sexta-feira] a audiência solicitada”, destaca ainda o comunicado.

Para o movimento “Sobreviver a Pão e Água”, apesar de não ser responsabilidade do Presidente da República legislar, é “uma das suas funções chamar a atenção da Assembleia da República para qualquer assunto que, no seu entender, reclame uma intervenção do parlamento”.

Assim, justificam a greve de fome de alguns dos seus elementos, “como forma de protesto e em solidariedade por todos aqueles que, neste momento, não têm já o que comer“.

“Pelos 43% de nós, empresas de restauração e similares, que ponderam avançar para a insolvência. Pelos 19% de nós, empresas de alojamento turístico, que ponderam fechar as portas. Pelos que ficaram pelo caminho. Pelos mais de 49 mil empregos perdidos no setor da restauração e hotelaria durante o terceiro trimestre de 2020. Por todos os que perderão o emprego, o sustento, a comida na mesa se as ajudas não chegarem já”, destaca ainda o movimento.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Percebe-se o problema da economia. Talvez alguns agentes económicos devessem ter-se reinventado, na medida do possível, de modo a minimizar ou reduzir os prejuízos. Alguns fizeram-no ou, pelo menos, tentaram-no. Mas é extremamente difícil sem apoios do Estado (sendo que não há dinheiro para tudo, como sabemos). No entanto, o número de infeções tem vindo a baixar o que por si atesta o acerto das medidas tomadas no plano sanitário. Os ziguezagues, contradições e atrasos na aplicação de medidas cautelares justificam-se mais pela tentativa política de manter em atividade a economia do que por razões de saúde pública. A verdade é que tudo isto é muito difícil de gerir, mas se quebrarmos a coesão social mas difícil se tornará e com maior prejuízo. Mas há que fazer alguma coisa para salvaguardar os setores mais afetados e algumas das propostas que têm sido feitas pelo movimento “Sobreviver a Pão e Água” parecem atendíveis, pelo menos como medidas provisórias a vigorarem durante um período de tempo limitado.

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