A falta de tempo pode levar-nos a tomar decisões erradas

Quando estamos stressados e pressionados pelo tempo, a nossa atenção e largura de banda cognitiva estreitam-se como se estivéssemos num túnel, explica a investigadora Antonia Violante.

Um dia-a-dia atarefado e vivido em correria faz com que muitas pessoas acabem por levar trabalho para casa, sentindo-se culpadas por isso. Além de tempo, esta sobrecarga rouba também disposição, fazendo com que se sintam exaustas. E mesmo que admitam que resolver o problema é uma prioridade, a verdade é que a realidade do dia seguinte costuma ser muito semelhante.

Antonia Violante, uma investigadora que dedica a sua pesquisa ao equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, presenciou este cenário nos locais de trabalho que analisou, nos Estados Unidos.

Investigadores comportamentais batizaram este cenário de “tunnelling“, algo como “viver num túnel”: quando nos sentimos pressionados pelo tempo, a nossa atenção e largura de banda cognitiva estreitam-se como se estivéssemos dentro de um túnel. Este fenómeno pode até ser bom, uma vez que nos ajuda a concentrar no trabalho mais importante.

No entanto, tem também um lado mais negro: quando nos envolvemos numa armadilha de escassez de tempo, podemos ter a tendência de focar apenas nas tarefas mais imediatas, normalmente de baixo valor, em vez de focar nos grandes projetos ou numa estratégia de longo prazo.

O email é, segundo Violante, um excelente exemplo de uma distração que nos pode sair caro. Os nossos cérebros estão, inevitavelmente, ligados à novidade e, por isso, adoram ser interrompidos a cada notificação. Acresce o facto de os humanos gostarem de se sentirem produtivos.

Ora, escassez de tempo combinada com atração pela novidade e um desejo incontrolável por novas ocupações faz com que acabemos por concentrar as nossas atenções no que está à nossa frente – neste caso, no email – em vez de nos focarmos no mais importante.

Apesar de verificar constantemente a nossa caixa de entrada nos permitir estar ocupados, é, no fundo, uma recompensa falsa, uma vez que confundimos ocupação com produtividade. Para sair deste túnel de ocupação específico, Violante sugere definir horários específicos para ler os emails.

Esta solução, adotada pela própria investigadora, foi baseada em investigações anteriores que descobriram que fumadores que têm uma horário específico para fumar tiveram mais sucesso em deixar este vício do que através de outros métodos. No fundo, determinar horários dava aos fumadores autoconfiança e prática para passarem períodos sem fumar.

No caso do email, acontece uma reação semelhante: um estudo de 2015 identificou que pessoas que verificam a sua caixa de entrada em horários específicos sentem-se mais felizes e menos stressadas do que aquelas que verificam o email constantemente.

A verdade é que o conceito de tunnelling foi inicialmente associado a pesquisas comportamentais relacionadas com a pobreza, nas quais os investigadores queriam entender o motivo que levava as pessoas com rendimentos mais baixos a fazer más escolhas com o seu dinheiro – como empréstimos ou jogar na lotaria.

A investigação acabou por indicar que a escassez criava um fardo tão grande no espaço mental que o QI dos agricultores analisados no estudo caía 13 pontos entre o período de bonança e o de pouco dinheiro, explica a BBC.

Anuj Shah, professor de ciência comportamental na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, defende que a escassez leva à criação de uma mentalidade própria.

A investigação, na qual os participantes jogavam jogos online e ficavam “ricos” ou “pobres”, teve resultados surpreendentes. Os que eram “pobres” ficavam, na verdade, mais cuidadosos com os seus recursos. No entanto, como a escassez reduzia o espaço mental, ficavam tão focados no jogo que não conseguiam elaborar estratégias para o futuro e acabavam por fazer escolhas desastrosas.

Desta forma, defende Shah, para evitar o tunnelling (e para não negligenciar tarefas importantes que parecem menos urgentes no momento), as pessoas precisam de reconhecer que tempo e espaço mental são recursos limitados.

Sendhil Mullainathan, colega de Shah, sugere uma analogia: pensar nas agendas menos como uma despensa, e mais como uma galeria de arte, onde decidimos o que é mais importante e como a organizar, de forma a que tudo tenha o seu lugar.

ZAP //

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