Tensão no Porto de Setúbal. Estivadores em protesto arrastados (um a um) pela polícia

Rui Minderico / Lusa

Elementos da polícia retiram estivadores em greve do porto de Setúbal

Os estivadores estão em protesto contra o carregamento, assegurado por trabalhadores substitutos, de um navio com viaturas produzidas na fábrica da Autoeuropa. Os trabalhadores sentaram-se no chão, mas a desmobilização forçada pela polícia permitiu a passagem do autocarro.

Dezenas de trabalhadores estão concentrados desde as 06h00 à entrada do terminal de embarque de automóveis do porto de Setúbal, em protesto contra o carregamento de um navio com viaturas produzidas na fábrica da Autoeuropa, em Palmela.

“Estamos aqui para assistir a este dia vergonhoso para a democracia portuguesa porque [é isto que acontece] quando um Governo se põe ao lado de criminosos – porque aquilo que estamos a denunciar é um crime que se vive um pouco por todo o país, de perseguição aos sócios do sindicato, discriminação salarial e tudo mais”, disse à Lusa António Mariano, do Sindicato dos Estivadores e Atividade Logística (SEAL).

“Temos a informação de que os trabalhadores que vêm substituir os eventuais do Porto de Setúbal vêm ganhar 500 euros para trabalhar três dias. Durante 20 anos nunca tiveram disponibilidade para fazer um contrato sem termo aos 150 trabalhadores eventuais do Porto de Setúbal [90 da Operestiva e os restantes Setulsete]”, acrescentou.

O dirigente sindical, que se juntou ao protesto dos trabalhadores eventuais do porto de Setúbal, admite que a luta dos trabalhadores portuários se poderá agudizar “face a este comportamento” das empresas portuárias, mas remete para mais tarde uma decisão sobre um eventual agravamento das formas de luta.

António Mariano também considera “criminoso” que os associados do SIL em diversos portos sejam perseguidos e lamenta que as entidades patronais do porto de Setúbal não se tivessem ainda disponibilizado para reunir com o sindicato, que, segundo disse, propôs esta semana algumas datas para essas reuniões.

Junto ao porto de Setúbal está montado um forte dispositivo policial com pelo menos dezenas de elementos na Unidade Especial de Polícia e da brigada de intervenção rápida da PSP.

Os trabalhadores eventuais do Porto de Setúbal estão parados desde o dia 5 de novembro para exigirem um contrato coletivo de trabalho.

A empresa Operestiva propôs, entretanto, a integração de 30 trabalhadores, mas só dois assinaram os contratos individuais que lhes foram propostos. A grande maioria dos estivadores eventuais exige um contrato coletivo, previamente negociado entre os operadores portuários e o SEAL.

Na segunda-feira, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, enviou uma carta ao IMT – Instituto da Mobilidade e Transportes e à APSS – Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra na qual pedia a correção das “disfunções” provocadas pelo excesso de trabalhadores precários, o que parecia indiciar que a solução do problema iria passar pela via do diálogo.

No entanto, as empresas portuárias recusam-se a dialogar enquanto o sindicato não levantar a greve ao trabalho extraordinário, que se deverá prolongar até janeiro próximo.

O SEAL alega que esta greve nada tem a ver com o problema dos trabalhadores eventuais do porto de Setúbal, mas com a “discriminação” de trabalhadores filiados no sindicato que trabalham nos portos do país.

Já na quarta-feira, a Autoeuropa recebeu garantias do Governo para a realização do carregamento de automóveis que está marcado para esta quinta-feira. Segundo a empresa, o planeamento do navio, que faz parte das escalas regulares para o porto de Emden, na Alemanha, “teve por base a garantia de uma solução para o embarque de veículos dada pelo Governo e pelo operador logístico”.

A este propósito, António Mariano afirma: “Com esta santa aliança entre patrões e o Governo, aquilo que vai acontecer no porto de Setúbal é que este navio de transporte de automóveis vai trabalhar, mas vão ficar quatro ou cinco parados”.

“Se calhar vamos ganhar por quatro ou cinco a um”, disse o sindicalista, convicto de que os trabalhadores podem perder esta batalha, mas que vão acabar por ser integrados no efetivo do porto de Setúbal.

PSP afasta estivadores um a um

Pelas 08h50 desta quinta-feira, os elementos da Unidade Especial de Polícia da PSP começaram a afastar os estivadores que bloqueavam à entrada do porto de Setúbal a passagem de um autocarro com trabalhadores contratados que os vão substituir.

Em protesto contra o carregamento de um navio com viaturas produzidas na fábrica da Autoeuropa, dezenas de estivadores que permaneciam sentados no chão a bloquear a passagem do autocarro, sob vigilância atenta da PSP, começaram já a ser retirados, um a um, pelos elementos da polícia, depois de serem inicialmente afastados os que estavam em pé em protesto por um cordão policial.

A barreira humana acabou por ser desmobilizada pela polícia, permitindo que o autocarro avançasse com a escolta das carrinhas da PSP, percorrendo a estrada que os estivadores ocupavam.

ZAP // Lusa

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9 COMENTÁRIOS

  1. Trabalho precário em pleno sé. XXi é próprio de países de 3º Mundo e não de um país da UE. A escravatura de quem trabalha tem de acabar.

  2. Sempre os mesmos, os que nao conseguiram o controle dos trabalhadores da auto Europa agora querem rebenta-la por fora ao controlar os estivadores, os mesmos que rebentaram com a cintura industrial de lisboa e Setubal! Escravatura existe em cuba, na Venezuela, no vietname, no camboja como existia na gloriosa urss em que os desgracados ate arriscavam a vida para fugir do paraiso! Lembram-se do muro da vergonha em berlim?

  3. Parabens PSP ! Esta vergonha das greves constantes tinha que acabar . O porto de Lisboa está 6 meses por ano em Greve por isso já não há armador que vai la.

  4. Trabalho precário ?… estar a contrato é trabalho precário ?… quanto mais têm mais querem, deixem-se lá de grupinhos e trabalhem como os outros do privado… eles comem tudo o que há e não querem deixar nada para os outros…

    • Ah?
      Se não saber mais, devias evitar mostrar a tua ignorância!…
      Contrato DIÁRIO (por SMS no dia anterior!), sim é precário!!
      “e trabalhem como os outros do privado”… mas eles são funcionários públicos?!
      Enfim… tanto disparate em tão pouco comentário!…

  5. Até os Juizes fazem greve. Para as regalias são Orgãos de Soberania, mas para o resto são trabalhadores dependentes ( Dependentes de todos os outros que trabalham no privado e que tem de aguentar ).
    Os estivadores que continuem com a greve e depois queixem-se de ter novamente a TROIKA.

  6. Esta agora, de repente parece que são os empregados que mandam nos patrões e que decidem aquilo que se há-de fazer na empresa.
    É curioso que os estivadores não gostam das condições, mas não se vão embora, e também não permitem que mais ninguém venha, nomeadamente aqueles que parecem que não se importam com as condições!
    Com trabalhadores assim, fosse eu patrão e muito dificilmente faria um contrato sem termo a este tipo de trabalhadores, é que depois tinha autênticos sabotadores dentro da empresa e seria muito difícil tirá-los de lá.
    A questão é simples: se os estivadores não gostam das condições que actualmente têm, se estão convencidos que merecem mais e arranjam melhor, então digam aos patrões que se vão embora. Se os estivadores forem assim tão bons e insubstituíveis, então certamente os patrão irão oferecer mais para os manter. Qualquer patrão quer manter um trabalhador que traz mais valias para a empresa que gere.

  7. Os Estivadores precários, deveriam usar os Coletes Amarelos, como na França, mas com uma condição continuar a laborar como forma de protesto.

  8. Desde que o partido «comunista» se transformou em oportunista. na mais pura versão estalinista, pode exclamar urbi et orbi: NÓS OS ABRANHOS (estalinistas) ESTAMOS NO POLEIRO (da «GERICOnsia»)! Os estivadores que vão para o… GULAG…

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