Estatísticas no futebol: “Os coletes até evitam lesões”

O presente e o futuro dos números, na perspetiva de Hernâni Ribeiro. Em Portugal ainda não há uma utilização massiva dos dados estatísticos no futebol.

Daqui a 10 ou 15 anos, cada clube vai ter alguém centrado só nas estatísticas. Esta foi uma das ideias deixada por Hernâni Ribeiro, um dos fundadores da Goal Point, empresa focada na recolha e na análise de dados relacionados com o futebol.

Em entrevista a Vasco Samouco, o data scientist destacou exemplos de topo, essencialmente provenientes do futebol inglês, na utilização das estatísticas no futebol: “As análises dos dados influenciam até o modelo de jogo do Liverpool e a forma de cada jogador jogar. No Brentford e no Midtjylland, os dados são os pilares do crescimento desses clubes. E têm sucesso, têm atingido níveis que não atingiriam se tivessem uma gestão mais tradicional”.

Em Portugal ainda não há uma utilização massiva das estatísticas no futebol. Um distanciamento ligado sobretudo “à falta de visão de quem dirige os clubes”, acredita Hernâni Ribeiro, que no entanto vê o interesse e a curiosidade aumentarem, por parte dos clubes portugueses. “Outras pessoas desconfiam”, por outro lado. Esse interesse cresce porque alguns responsáveis de clubes começam a reparar que, através destas estatísticas, conseguem chegar às mesmas conclusões mas com outro tipo de análise e de forma mais rápida: “Eles percebem que podem poupar muito tempo nas análises deles e focarem-se noutros detalhes”.

O que é falar de estatísticas, hoje?

Hernâni comentou que, durante muito tempo, falar sobre estatísticas era falar de dados históricos, usar factos com pouco contexto. “E ainda há gente com esses vícios, ouve-se em conferências de imprensa”, avisou. Mas nos anos recentes foram aparecendo empresas que se dedicaram à recolha de dados estatísticos do jogo em si e o volume de dados foi aumentando: “Hoje em dia, quando se fala em estatísticas, gosto de acreditar que já falamos de coisas diferentes, relacionadas com o jogo em si”.

O que permitem estas análises profundas aos números das equipas e dos jogadores? O co-fundador da Goal Point responde: “Estudar as equipas permite identificar comportamentos padronizados nas equipas, nos jogadores, nos treinadores e permite analisar melhor um jogo e prever melhor o resultado de um jogo”.

Big data e lesões

Entre as expressões mais frequentes e os termos técnicos mais utilizados neste contexto, surge a big data: “É uma expressão que está muito em voga mas não é mais do que a utilização de dados em grandes volumes. As novas ferramentas e a evolução tecnológica melhoraram o nosso trabalho e o armazenamento dos dados”, explicou o especialista, que por vezes dispensava utilizar termos que parecem muito complicados: “Tenta-se tornar a linguagem complexa para tornar mais complexo o que é fácil. Mas se calhar há o erro de nos fecharmos no nosso casulo quando utilizamos essas palavras. A linguagem é uma parte importante“.

Hernâni Ribeiro acha que um dos pontos mais interessantes deste novo método de trabalho está relacionado com a prevenção de lesões: “Os dados biométricos e físicos dos jogadores, todos os pormenores sobre coletes, o uso dos coletes, o tipo de coletes, até a legalização dos coletes… Tudo isto permite uma imensidão de dados físicos que, bem utilizados, podem deixar alertas sobre o risco de lesões”.

Relação humana com os números

A capacidade humana nunca será a mesma da capacidade dos números, em termos de armazenamento. O cérebro humano não guarda tudo, a nossa memória é limitada: “Durante um jogo, ouvimos alguém dizer «este jogador está infeliz hoje, ainda não acertou um passe»: vais ver as estatísticas e vês que esse jogador acertou em 80 por cento dos passes que fez. Se isso acontece num jogo, imagina quando analisamos várias épocas”.

E o olho humano está sempre relacionado com a elaboração de números. A perceção humana tende a perder importância? Não convém, segundo Hernâni: “Não é desejável termos treinadores provenientes das estatísticas, ou treinadores-robots. Isso iria tirar muito do lado emocional do jogo. As máquinas podem ajudar nas decisões, podem deixar sugestões, até durante os jogos; mas acho que nunca vais ter uma máquina a tomar a decisão final. Contudo, pode acontecer haver alguém lá em cima na bancada a dizer que a máquina está a deixar uma sugestão e depois o treinador pega nessa informação e toma a decisão”.

Ajuda nas finanças

Uma das grandes vantagens das estatísticas é poupar dinheiro ao comprar jogadores, acrescentou o data scientist: “Apostar nas análises estatísticas permite gastar menos dinheiro em jogadores que podem ser tão bons como os mais caros. Encontra-se valor e talento antes dos outros”.

  Nuno Teixeira, ZAP //

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