Uma empresa e uma equipa de cientistas vão tentar trazer o icónico dodó de volta, após ter sido extinto há quase 400 anos.
Já passaram 361 anos desde que alguém viu um dodó, o pássaro que se tornou um símbolo da extinção de espécies por culpa dos humanos. Isso não impede a empresa biotecnológica Colossal Biosciences de tentar trazer trazê-lo de volta.
Nativos das Ilhas Maurício, os dodós sofreram com a época dos descobrimentos, na viragem para o século XVI. Nessa época, a ilha foi invadida por colonos que trouxeram animais exóticos como porcos, ratos e principalmente macacos, que destruíam os ninhos dos dodós.
Sem experiência real com predadores, o dodó era uma ave dócil e facilmente morta por humanos e outras espécies. Além disso, a rápida destruição do seu habitat florestal pelos humanos, levou o dodó à extinção ainda antes século XVIII.
A Colossal Biosciences esforça-se agora para trazer o animal de volta a vida, através de um processo que é apelidado de “desextinção”. Os cientistas esperam conseguir o regresso de uma “cópia” dessa ave — uma espécie com ADN editado e não um clone exato.
Beth Shapiro, bióloga da Universidade de Santa Cruz, lidera a equipa de cientistas que, pela primeira vez, sequenciou a totalidade do genoma do dodó.
Shapiro e os seus colegas tentam “costurar” um animal parecido com um dodó, usando genomas que foram sequenciados de espécimes reais de dodós, bem como genomas dos seus parentes próximos, como o pombo-de-Nicobar e o solitário-de-rodrigues.
A Colossal Biosciences não é novata nestas andanças. Em 2021, a empresa anunciou que ia avançar com um projeto para “desextinguir” o mamute-lanoso.
A ideia dos cientistas responsáveis pelo projeto consiste é criar um híbrido elefante-mamute. Para que isso seja possível, estão a ser criados em laboratório embriões que contenham ADN de mamute.
“Depois de uma espécie ser extinta, não é possível trazer de volta uma cópia idêntica”, sublinhou Shapiro, em declaração ao Motherboard. “A esperança é que possamos usar, primeiro, genómica comparativa para que possamos obter pelo menos um, e esperamos mais, genomas de dodó que possamos usar para olhar e ver como os dodós são semelhantes entre si, e diferentes de coisas como o solitário-de-rodrigues”.
A partir daí, a equipa vai “compará-los com o pombo-de-Nicobar e outros pombos e identificar mutações nesse genoma que acreditamos que possam ter algum impacto” fenotípico naquilo que fez o dodó parecer-se com um dodó e não com um pombo-de-Nicobar.
De acordo com a IFLScience, uma equipa da Universidade da Califórnia já tentou “ressuscitar” o dodó, mas sem sucesso. Nem mesmo com um espécime em excelentes condições, vindo da Dinamarca, que ofereceu um ADN suficientemente bem preservado.
Isso não demoveu a equipa de Shapiro e a Colossal Biosciences de tentar esta proeza, mas recorrendo à ajuda do solitário-de-rodrigues e do pombo-de-Nicobar.
De acordo com a Gizmodo, a empresa biotecnológica já conseguiu angariar 150 milhões de dólares em financiamento. Este é um valor muito superior aos 15 milhões de dólares que levaram a empresa a lançar o projeto do mamute-lanoso.
O professor Ewan Birney, vice-diretor do Laboratório Europeu de Biologia Molecular, disse ao The Guardian que seria “muito, muito desafiador” a nível técnico recriar o genoma do dodó.
Birney argumentou ainda que, mesmo que seja possível, não sabe se é o melhor a fazer. Segundo ele, há quem entenda que devemos alocar os recursos disponíveis para “salvar as espécies que temos antes que elas sejam extintas”.
A recriação do dodô levanta questões éticas e científicas sobre a interferência humana na natureza. Embora a biotecnologia possa trazer de volta espécies extintas, seu habitat original não existe mais, tornando sua sobrevivência incerta. Além disso, recursos poderiam ser melhor utilizados na preservação das espécies ameaçadas hoje. No entanto, esse avanço pode contribuir para novas descobertas na biologia e na conservação.