Cientistas descobrem porque Joana d’Arc ouvia vozes misteriosas

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"Jeanne d'Arc", de Eugene Romain Thirion (1839-1910)

“Jeanne d’Arc”, de Eugene Romain Thirion (1839-1910)

As alegações que tornaram Joana d’Arc célebre – as misteriosas visões e vozes que ouviu durante a Guerra dos 100 anos – podem ter sido, na verdade, devido a uma forma de epilepsia.

Os investigadores Giuseppe d’Orsi, neurologista da Universidade de Foggia, e Paolo Tinuper, professor de ciências biomédicas e neuromotoras da Universidade de Bolonha, descreveram a sua hipótese numa carta ao editor publicada em maio na revista Epilepsy & Behavior.

De acordo com os investigadores italianos, Joana d’Arc pode ter tido um tipo de epilepsia que afeta a parte do cérebro responsável pela audição, ou “epilepsia parcial idiopática com características auditivas (IPEAF)” (“idiopática” significa que a epilepsia provavelmente tem uma causa genética).

A epilepsia causa convulsões crónicas não provocadas, que acontecem quando ocorrem falhas nos sinais elétricos cérebro.

O local do cérebro onde estas falhas ocorrem determina como uma pessoa age durante uma convulsão. Por exemplo, um ataque pode causar sacudidelas nos músculos, ou deixar a pessoa tonta ou confusa, ou então fazê-la ouvir vozes.

D’Orsi e Tinuper descrevem que começaram a trabalhar nesta hipótese há 10 anos, ao examinarem documentos sobre o julgamento de condenação de Joana d’Arc, durante o qual foi acusada de ser uma herege e uma bruxa, e foi condenado a ser queimado na fogueira.

Pistas históricas

Vários aspectos dos sintomas de Joana d’Arc, que foram detalhadas em relatos históricos, ajudam a apoiar este diagnóstico.

Por exemplo, Joana relatou ouvir vozes e afirmou ter visto diferentes santos, como Santa Catarina e Santa Margarida. De acordo com os investigadores, estas alucinações auditivas e alucinações visuais ocasionais são sintomas deste tipo de epilepsia.

Joana terá afirmado, durante o julgamento, que o “som dos sinos” muitas vezes desencadeava as vozes – o que bate certo com o facto de que determinados sons podem desencadear convulsões, explicam d’Orsi e Tinuper.

Durante uma audiência pública em 22 de fevereiro de 1431, Joana afirmou que ouvia vozes “duas ou três vezes por semana”. Vários dias depois, a 1 de março de 1431, relata-se que a jovem afirmou que “não há um único dia que eu não as ouça”.

No entanto, a frequência com que Joana d’Arc relatou ouvir vozes não é totalmente consistente com o diagnóstico dos investigadores.

Outros investigadores têm apontado que os pacientes com este tipo de epilepsia têm uma baixa frequência de crises, podendo ter menos crises ao início ou ter ataques quando deixam de consumir certas substâncias – e não há informações que comprovem que Joana d’Arc tenha consumido quaisquer substâncias que possam ter afetado as convulsões, acrescentam os investigadores, citados pelo Live Science.

Por vezes, a mártir também teria convulsões durante o sono. “Estava a dormir e a voz acordou-me. Acordou-me sem me tocar”, lê-se no relatório de um exame privado a 12 de março de 1431. D’Orsi e Tinuper associam estas pistas ao facto de que 40% das pessoas com este tipo de epilepsia tem convulsões durante o sono.

É claro que fazer o diagnóstico de uma doença a alguém que viveu no século XV não é uma tarefa simples, e os investigadores reconhecem que, “600 anos depois da morte de Joan, reafirmamos a impossibilidade de chegar a uma conclusão final“.

No entanto, pode haver uma oportunidade de encontrar uma resposta, que se encontra num fio do cabelo de Joana.

Conta-se que Joana d’Arc selava as suas cartas com lacre com “a marca de um dedo e um fio de cabelo”, de forma a provar a sua identidade. Se os historiadores conseguirem localizar essas cartas, os cientistas podem ter a oportunidade de testar o ADN do cabelo.

Em estudos recentes, os cientistas descobriram genes que estão ligados ao tipo específico de epilepsia que d’Orsi e Tinuper suspeitam que Joana d’Arc sofria.

Contudo, os esforços para encontrar as cartas e os fios de cabelo têm sido em vão. “Ao fim de 10 anos, ainda estamos à procura desses fios de cabelo…”, escrevem d’Orsi e Tinuper.

ZAP

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7 COMENTÁRIOS

  1. Já cá faltava a tacanhez intelectual de uma ciência que é cada vez menos científica. O querer interpretar, formatar e confinar tudo à luz das limitações actuais do conhecimento, em vez de procurar desenvolver e expandir o conhecimento para englobar os fenómenos que este ainda não consegue explicar.

    Dizer que fenómenos como a percepção extra sensorial de Joana D’Arc, se explicam todos por meio de patologias mentais já conhecidas (Epilepsia, neste caso), é tão tacanho e tão quadrado como era há 500 anos explicar a própria Epilepsia à luz das limitações do conhecimento de então, dizendo que eram possessões demoníacas.

  2. Para já acho que o título deve ser “Cientistas ainda não descobriram porque Joana ouvia vozes misteriosas” ou “Cientistas têm novas hipóteses porque Joana ouvia vozes misteriosas”.

    Na minha opinião não sei quais os fatos em que os estudos se basearam, mas pela noticia posso concluir que apenas houve hipóteses, não conclusões.

    Acho que o método cientifico não fica a ganhar com este tipo de noticias. Se se continuar a fazer este tipo de títulos corre-se o risco, na minha opinião, de as pessoas “vulgarizarem” e “banalizarem” este jornalismo cientifico.

    Penso que é necessário distinguir “hipóteses” e conclusões. Distinguir entre “Hipóteses” e “descobertas. Para se chegar a uma descoberta é preciso uma aceitação maioritária da comunidade cientifica. Por isso acho que é mais fácil encontrar descobertas a nivel da matemática que a nivel da fisica, quimica ou biologia.

    Assim, os leitores, acho que não saem daqui mais bem informados. Penso que sairiamos mais bem informados se fosse dito no titulo “novas hipóteses porque Joana ouvia vozes misteriosas”.

    Fica a sugestão.

    • Caro Fernando Saraiva,
      Obrigado pelo seu reparo. Talvez pudessemos de facto ter usado como título “Cientistas poderão ter descoberto porque Joana d’Arc ouvia vozes misteriosas ”
      Mau grado o título impreciso, não concordamos no entanto que os leitores saiam da notícia mais pobres ou mal informados.

  3. Vozes misteriosas? Deuses e demónios, santos e milagres? Pois é evidente que são tudo construções humanas e, quando não são premeditadas, intencionais e com um fim em vista, devem-se a desordens no funcionamento do cérebro.
    Não esquecer que a Joana acabou derrotada militarmente, humilhada (eventualmente violada durante o cativeiro), torturada e queimada na fogueira, o que, convenhamos, para quem tem Deus todo poderoso do seu lado não é lá grande coisa.

    • Caro Che, discordo. Não vejo de porque Deus não poderia muito bem utilizar de meios naturais e também sobrenaturais para fazer no mundo e no abandono dos santos a sua vontade. Muitos milagres não tem evidentes hipóteses para responde-los, visto que os corpos incorruptos, os estigmatizados e muitos outros casos ainda permanecem sem respaldo científico claro, permanecendo a ciência em seus questionamentos e dúvidas.
      Quando Cristo estava no Calvário, narram as escrituras, dizem a ele: “Os que iam passando injuriavam-no e abanavam a cabeça, dizendo: Olá! Tu que destróis o templo e o reedificas em três dias, salva-te a ti mesmo! Desce da cruz! (Marcos 15:29,30)” rindo da condição de humilhação e morte que o Senhor Jesus se permitiu obedientemente passar. Visto que Joana d’Arc era católica, nada mais santo e mártir que morrer também humilhada e estendida, tenho certeza que ela sofria e amava muito a Deus, dizendo o nome de Jesus até a morte no tribunal. O que se humilha será exaltado e não morre, mas entra para a vida.
      Salve Maria! Deus o abençoe.

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