Pessoas que pintam com os pés têm uma adaptação neurológica brilhante

Numa nova investigação que demonstra o quão flexível é o nosso cérebro, cientistas mostraram que os cérebros das pessoas que pintam com os pés estão a mapear os membros inferiores quase como se fossem mãos.

No Reino Unido, moram dois pintores profissionais que nasceram sem mãos. Face à impossibilidade de usarem os membros superiores para as atividades o dia-a-dia, estes dois artistas pintam, vestem-se e usam talheres com os pés.

Uma equipa de cientistas da University College London (UCL) decidiu analisar as ressonâncias magnéticas de ambos, comparando com os exames realizados a um grupo de controlo composto por 21 pessoas, todas nascidas com mãos.

Os exames cerebrais dos pintores revelaram que os dedos foram mapeados individualmente – algo que não acontece em seres humanos. Além disso, os resultados mostraram uma representação “em forma de mão” dos pés dos pintores, representação essa que não estava presente nos resultados do grupo de controlo.

“Cada um dos dedos dos seres humanos é representado por uma determinada parte do cérebro. No entanto, não há qualquer distinção entre as áreas cerebrais responsáveis por cada um dos nossos dedos”, começa por explicar Daan Wesselink, investigador citado pelo Science Alert.

“Contudo, noutras espécies de primatas não humanos, que usam regularmente os dedos dos pés para tarefas como escalar, os dedos dos pés surgem especificamente representados nos seus cérebros. Desta forma, com a nossa investigação descobrimos que as pessoas que usam os dedos dos pés de forma semelhante à dos primatas não humanos têm os dedos dos pés representados de uma forma nunca antes vista nas pessoas.”

Estes são conhecidos como mapas somatotópicos: partes específicas do corpo que se combinam com partes específicas do cérebro. Tal como a maioria das pessoas nascidas sem mãos, os artistas que pintam com os pés usam, habitualmente, um pé para a estabilidade e um outro pé para segurar e manipular objetos. Na análise, os cientistas notaram que os mapas eram mais distintos para o pé mais ativo.

(dr) UCL

Os cientistas sugerem que o uso constante dos pés para tarefas mais exigentes pode ser o motivo desta mudança no desenvolvimento do cérebro. Além disso, os investigadores notaram que a área do cérebro que correspondia aos dedos dos pés dos pintores era a mesma área que administra as mãos. O artigo científico foi publicado recentemente na Cell Reports.

“O nosso estudo demonstra um exemplo extremo da plasticidade natural do cérebro, uma vez que é capaz de se organizar de maneiras diferentes em pessoas com experiências totalmente diferentes desde o início das suas vidas”, explica o neurocientista Tamar Makin, da UCL.

Outra descoberta surpreendente foi o facto de os pintores de pés não serem melhores a movimentar os dedos do que as pessoas que integravam o grupo de controlo. No entanto, os pintores mostraram uma maior perceção sensorial para os dedos dos pés.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. A plasticidade do nosso cérebro deveria ser mais conhecida do grande público.
    A possibilidade de reforço e/ou a criação de novos “caminhos” neurais, dá-nos sempre novas alternativas, novas soluções. Precisamos é estar conscientes dessas nossas capacidades, sendo sempre necessário recorrer ao treino para que essas novas ligações entre os neurónios se fortaleçam e se automatizem. “Água mole em pedra dura…”
    Hoje em dia até se fala que o cérebro tem a capacidade de criar novos neurónios destinados a novas funções (ou objetivos específicos), quando é confrontado com essa necessidade. Mas, nada acontece num estalar de dedos. É sempre preciso treinar.
    Em linguagem popular costumamos ouvir a expressão: “A Natureza compensa sempre quem precisa…” Mas, se tivermos conhecimento da nossa natural capacidade neural, nós podemos interferir conscientemente na construção dessas alterações, em nosso próprio benefício. Um exemplo disso é a PNL
    Nós temos muitas mais capacidades para além daquelas que, tradicionalmente, nos ensinam. Este conhecimento não pode continuar a ser privilégio de apenas alguns… infelizmente, muito poucos….
    Tenho toda a consideração e faço sempre a minha vénia a todos os que pintam com a boca ou com o pé.
    Assinado: Maria da Maia

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