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As células imortais de Henrietta Lacks revolucionaram a Ciência

O ano de 1951 foi muito importante no campo da biotecnologia e, surpreendentemente, tudo começou com a chegada de Henrietta Lacks a um hospital norte-americano.

Descendente de escravos, Loretta Pleasant nasceu a 1 de agosto de 1920, em Roanoke, no interior do estado da Virgínia, Estados Unidos. De acordo com o IFL Science, mudou depois o seu nome para Henrietta Lacks, mas não se sabe o motivo pelo qual o terá feito, nem tampouco quando terá acontecido.

Em meados de 1924, perdeu a mãe durante o parto do seu décimo irmão e mudou-se com o pai para Clover, na Carolina do Sul, onde foi criada pelo avô e dividiu quarto com o primo David Lacks. A convivência fez com que se apaixonassem um pelo outro e acabaram por casar, em 1941.

Depois de se mudarem para Maryland, já com dois filhos, Henrietta deu à luz mais três e foi diagnosticada com cancro do colo do útero, quando nasceu o último.

A 4 de outubro de 1951, com apenas 31 anos, Lacks morreu. Mas as suas células não.

Células “imortais”

Quando foi diagnosticada com um cancro do colo do útero, os médicos do hospital Johns Hopkins retiraram amostras de tecido como parte do tratamento (sem o seu consentimento) e, depois de as analisarem, descobriram que as células continuaram a reproduzir-se a uma taxa muito alta.

Na altura, as células de Loretta ficaram conhecidas como a “linha celular imortal HeLa“.

A maioria das células que são cultivadas para pesquisa em laboratório morre em poucos dias, tornando impossível realizar uma variedade de testes na amostra. Mas, com uma célula “imortal” capaz de se dividir e replicar, os cientistas podederiam realizar todos os tipos de pesquisa, desde a clonagem até à fertilização in vitro.

Em 1954, três anos depois de Henrietta ter falecido, Jonas Salk usou as células numa investigação em torno do desenvolvimento da vacina contra a poliomielite, produzindo-as em massa para testar o produto desenvolvido pela equipa.

Estas células “imortais” acabaram por ser produzidas para servir estudos de cientistas um pouco por todo o mundo, sendo que, segundo o portal, foram produzidas mais de 50 milhões de toneladas de células, usadas em mais de 60 mil estudos científicos. Tudo sem o seu consentimento e, durante vários anos, sem o conhecimento da família.

Os familiares só tomaram conhecimento do uso das células em 1973.

“Um dia, um investigador ligou para o marido de Henrietta, que não tinha terminado a escola e não sabia o que era uma célula, e disse-lhe: a sua esposa vive num laboratório e utilizamo-la na pesquisa científica há 25 anos”, contou a jornalista Rebecca Skloot à Smithsonian Magazine, numa entrevista sobre o livro “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”.

Quando os familiares se aperceberam do que estava a acontecer já há vários anos, procuraram um advogado para reivindicar os seus direitos. Com o processo judicial, a família espera uma indemnização do Centro Médico John Hopkins.

No final das contas, as células foram usadas para criar uma indústria multimilionária.

Além da questão financeira, a família lutou pelo reconhecimento da contribuição de Henrietta para a Ciência e lançou uma campanha. No entanto, apesar de Henrietta Lacks se ter tornado uma heroína científica, a família não teve sorte no que diz respeito à compensação financeira. Pelo menos, até agora.

Sem saber, Henrietta salvou inúmeras vidas e contribuiu para muitas descobertas científicas. Agora, décadas após a sua morte, estão a ser feitos alguns avanços.

Em agosto de 2013, a família Lacks conquistou o controlo parcial do acesso dos cientistas ao código de ADN das células. Além disso, em outubro de 2020, uma importante organização de investigação biomédica, o Howard Hughes Medical Institute (HHMI), doou uma soma de seis dígitos para a Fundação Henrietta Lacks.

  Liliana Malainho, ZAP //

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