Conchas de molusco em forma de coração funcionam como fibras óticas. Mas ao contrário das fibras óticas sintéticas, que requerem uma bainha isolante de revestimento, os seus fios naturais funcionam eficazmente sem essa proteção.
Um molusco em forma de coração, conhecido como berbigão-coração (Corculum cardissa), desenvolveu com o tempo estruturas de conchas transparentes que imitam a tecnologia da fibra ótica, segundo um estudo publicado esta terça-feira na Nature Communications.
Segundo o New Cientist, esta é a primeira vez que a Ciência descobre esta adaptação única. O molusco tem uma relação simbiótica com as algas fotossintéticas, ao canalizar com sucesso a luz até estas últimas.
Os berbigões são moluscos bivalves semelhantes às amêijoas, que albergam algas fotossintéticas que, por sua vez, fornecem nutrientes em troca de um habitat seguro e de acesso à luz solar.
Ao contrário de muitos outros bivalves, os berbigões mantêm as suas conchas fechadas, mas conseguem direcionar a luz para as algas no seu interior.
Os investigadores responsáveis pelo novo estudo, liderados por Dakota McCoy, da Universidade de Chicago, descobriram como é que esta proeza acontece.
A equipa descobriu que as conchas dos moluscos contêm estruturas transparentes de carbonato de cálcio que funcionam como feixes de fibras óticas, permitindo a penetração da luz e protegendo o interior da exposição nociva.
Estas estruturas, compostas por fibras longas e finas de aragonite, deixam entrar duas vezes mais luz fotossinteticamente benéfica do que a luz ultravioleta (UV) nociva. Este “protetor solar” natural protege as algas dos danos causados pelos raios UV.
A equipa analisou fragmentos das conchas e viu como os fios de aragonite transmitiam a luz. Ao contrário das fibras óticas sintéticas, que requerem uma bainha isolante de revestimento, os fios naturais funcionam eficazmente sem essa proteção.
A descoberta pode vir a inspirar cabos de fibra ótica mais eficientes e sem revestimento, com menores custos de fabrico, acreditam os investigadores.
Para além das aplicações tecnológicas que promete, o estudo sugere que as propriedades de bloqueio dos raios UV das conchas de berbigão podem beneficiar os recifes de coral. Os corais também dependem de algas fotossintéticas, mas são mais vulneráveis a stresses ambientais, como a luz e o calor. Os mecanismos do molusco podem dar-nos mais informações sobre a proteção destes delicados ecossistemas.