Descoberto primeiro animal que não precisa de oxigénio para viver

(dr) Stephen Douglas Atkinson

Henneguya salminicola

Respirar oxigénio é uma característica fundamental dos animais multicelulares, mas os cientistas acabam de descobrir, pelo menos, um que não precisa de o fazer para sobreviver.

É muito provável que tenha aprendido que todos os organismos multicelulares precisam de oxigénio para viver. No entanto, um animal recém descoberto mostra que esta afirmação não está completamente correta. O artigo científico foi publicado no dia 24 de fevereiro na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Segundo Dorothee Huchon, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, o animal em causa “perdeu a capacidade de respirar oxigénio“. Para os cientistas, ainda é um mistério como é que este animal – um parasita geralmente encontrado no salmão – obtém a energia necessária para viver sem recorrer ao oxigénio.

Pensa-se que todas as plantas e animais usam oxigénio para criar uma espécie de combustível chamado trifosfato de adenosina (ATP), que alimenta os processos celulares. A geração de ATP a partir do oxigénio ocorre em estruturas conhecidas como mitocôndrias.

Cada mitocôndria tem o seu próprio genoma minúsculo que é separado do genoma principal no núcleo celular. Mas quando Huchon e a sua equipa sequenciaram o ADN de Henneguya salminicola, pensaram de imediato que haviam cometido um erro por não terem encontrado qualquer ADN mitocondrial.

Estudos posteriores confirmaram a descoberta: quando a equipa corou H. salminicola com um corante azul fluorescente que se liga ao ADN, não era visível qualquer material genético nas células fora do núcleo. Isto significa que, apesar de as células de H. salminicola terem estruturas que se parecem com mitocôndrias, elas não conseguem produzir as enzimas necessárias para usar o oxigénio para produzir ATP.

“Estas não são verdadeiras mitocôndrias”, explica Huchon, citada pelo New Scientist.

Isso significa que H. salminicola é um animal multicelular capaz de sobreviver inteiramente sem oxigénio. “Há muitos animais capazes de sobreviver durante longos períodos sem oxigénio, mas nenhum que consiga sobreviver durante um ciclo inteiro de vida“, resume Nick Lane, da University College London, no Reino Unido.

Pelo menos, nada confirmado. Em 2010, Roberto Danovaro, da Universidade Politécnica de Marche, na Itália, relatou que um grupo de pequenos animais, chamados loricíferos, que vivem em sedimentos no fundo do mar, não tinham mitocôndrias visíveis quando observados ao microscópio.

No entanto, outros biólogos dizem que são necessários estudos genómicos para confirmar que os loricíferos perderam mesmo a capacidade de respirar oxigénio.

Os cientistas desconhecem o motivo pelo qual H. salminicola perdeu essa mesma capacidade. À medida que estes parasitas se movem ao longo do seu ciclo de vida, eles passam a viver dentro de um hospedeiro, local onde também teriam que se contentar com praticamente nenhum oxigénio.

O hospedeiro de H. salminicola nunca foi identificado, mas, segundo os investigadores, é provável que também viva em sedimentos com níveis muito baixos de oxigénio.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. “Para os cientistas, ainda é um mistério como é que este animal – um parasita geralmente encontrado no salmão – obtém a energia necessária para viver sem recorrer ao oxigénio.” (…)

    “O hospedeiro de H. salminicola nunca foi identificado”

    Afinal, nunca foi identificado ou é o salmão?

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