Além de um ícone da ciência, Marie Curie também foi uma heroína de guerra

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Marie Curie no seu laboratório, em Paris

Marie Curie foi, além de uma cientista conceituada, vencedora de dois prémios Nobel, uma filantropa que usou as suas competências na área da ciência para ajudar a salvar vidas na I Guerra Mundial.

Se perguntarmos a alguém qual é a mulher mais importante na história da Ciência, muito provavelmente a resposta será Madame Marie Curie. A polaca, que se naturalizou em França, descobriu os elementos rádio e polónio e foi a única mulher a ganhar dois prémios Nobel: o da Física em 1903 e o da Química em 1911. Mas poucos saberão que foi também uma grande heroína da I Guerra Mundial.

Para Curie, a guerra começou no início de 1914, quando as tropas alemãs se dirigiram até Paris, cidade onde morava. A cientista percebeu que a sua investigação precisava de ficar suspensa, por isso, reuniu todo o seu stock de rádio, colocou-o num recipiente revestido de chumbo e transportou-o de comboio para Bordeaux, onde o guardou num cofre de um banco local. Regressou à capital, confiante de que voltaria para o ir buscar, quando França vencesse o conflito.

Com o seu objeto de trabalho escondido, precisava de algo para fazer. Foi então que decidiu participar na luta e utilizar as suas competências científicas, não para fazer armas, mas para salvar vidas.

Raios-X na guerra

Os raios-X, um tipo de radiação eletromagnética, foram descobertos em 1895 por outro vencedor do prémio Nobel, Wilhelm Roentgen. Quase imediatamente depois da sua descoberta, os médicos começaram a usar raios-X para fazer imagens dos ossos dos pacientes e encontrar objetos estranhos como, por exemplo, balas.

Porém, no início da guerra, as máquinas de raios-X só existiam nos hospitais das cidades, longe dos campos de batalha onde os soldados feridos precisavam de ser tratados. A solução de Curie foi inventar o primeiro “carro radiológico” – um veículo que tinha uma máquina de raios-X e equipamento fotográfico de câmara escura.

Um dos principais obstáculos foi a necessidade de energia elétrica para produzir os raios-X. A cientista resolveu esse problema incorporando um dínamo, um tipo de gerador elétrico, no design do carro. O motor do carro poderia assim fornecer a eletricidade necessária.

Frustrada com os atrasos para obter financiamento por parte do Exército francês, Curie tentou a União das Mulheres de França, organização filantrópica que disponibilizou o dinheiro necessário para produzir o primeiro carro, que acabou por ter um papel crucial no tratamento dos feridos na Batalha de Marne, em 1914, uma grande vitória dos Aliados que impediu os alemães de entrarem em Paris.

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Marie Curie num dos “carros radiológicos” usados na I Guerra

Foram precisos mais carros deste tipo e Curie encontrou a solução: com a sua influência no meio científico, pediu às mulheres parisienses ricas para doarem carros. Rapidamente, já tinha na sua posse 20 veículos, que equipou com os equipamentos raios-X.

No entanto, os carros eram inúteis sem operadores de raios-X treinados, por isso, começou a treinar voluntárias. Recrutou 20 mulheres para o primeiro curso, que ensinou com a ajuda da sua filha Irene, que mais tarde venceu o Nobel da Química (1935). No total, 150 mulheres receberam instrução e foram para a frente da batalha ajudar.

A própria cientista teve o seu “pequeno Curie”, nome pelo qual o carro foi batizado. Além dos veículos, a polaca também supervisionou a construção de 200 salas radiológicas em vários hospitais de campo fixo atrás das linhas de batalha.

Efeitos colaterais

Muitas destas mulheres não conseguiram escapar aos efeitos colaterais e sofreram queimaduras pela exposição excessiva a raios-X. Curie sabia que isto representava riscos futuros para a saúde, tal como o cancro, mas não teve tempo para aperfeiçoar as práticas de segurança de raios-X no campo de batalha. A cientistas preocupou-se muito com este tema e, posteriormente, escreveu um livro sobre segurança de raios-X inspirado nas suas experiências de guerra.

Curie sobreviveu à guerra mas estava preocupada com o facto do seu intenso trabalho acabar por causar a sua morte. Anos depois, contraiu anemia aplástica, um distúrbio sanguíneo por vezes produzido por alta exposição à radiação.

Muitos assumiram que a doença era o resultado de décadas de trabalho com o rádio. Mas Curie sempre desconsiderou essa opinião. Em vez disso, atribuiu a sua doença à alta exposição de raios-X que recebeu durante a guerra.

Provavelmente nunca saberemos se os raios-X da guerra contribuíram para a sua morte, em 1934, mas uma análise aos restos mortais, em 1995, mostrou, de facto, que o seu corpo estava livre deste elemento químico.

Marie Curie era uma pessoa multidimensional, que trabalhou obstinadamente como cientista e humanitária. Era um forte patriota do seu “país adotado” e aproveitou a sua fama para contribuir nos esforços do país na guerra. Por exemplo, usou o prémio monetário do segundo Nobel para comprar títulos de guerra e tentou até derreter as suas medalhas do conceituado galardão para convertê-las em dinheiro e comprar ainda mais.

Apesar das dificuldades intrínsecas para as mulheres no início do século XX, num mundo que era totalmente dominado por homens, Curie mobilizou um pequeno exército de mulheres numa tentativa de reduzir o sofrimento humano e ganhar a I Guerra. Através dos seus esforços, estima-se que o número total de soldados feridos que puderam fazer exames de raios-X tenha ultrapassado um milhão.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Por tudo o que se diga de Grande Senhora, Marie Curie, nós seres humanos unicamente devemos prestar a nossa homenagem por tudo o que ela prestou a humanidade. “Simplesmente único e exemplar a vida desta grande cientista. “Obrigado” ! ! !

  2. No artigo é dito: “mas uma análise aos restos mortais, em 1995, mostrou, de facto, que o seu corpo estava livre deste elemento químico.” Ora, visto que o rádio é extremamente radioactivo (um milhão de vezes mais radioactivo do que a mesma massa de urânio), o corpo humano pode ficar seriamente afectado sem que haja absorção dessa substância. Basta estar na sua proximidade. Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/R%C3%A1dio_(elemento_qu%C3%ADmico)

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