Reconstruído crânio de Homo naledi, o elo que não se encaixa na evolução humana

(dr) Mark Thiessen / National Geographic

Reconstituição da face do Homo naledi a partir do crânio (detalhe)

A descoberta há cinco anos do Homo naledi, uma nova espécie de hominídeo que conviveu na savana sul-africana com os humanos mais próximos ao homem moderno, poderia mudar para sempre o que sabemos sobre a evolução.

Uma equipa de investigadores russos apresentou na semana passada em Moscovo a reconstrução científica da cabeça do misterioso ser, descoberto na África do Sul pelo paleoantropólogo americano Lee Berger, que presenteou com uma cópia do crânio do naledi os seus colegas russos.

O resultado do trabalho científico foi divulgado num ato organizado na Universidade Nacional de Ciência e Tecnologia MISiS.

O naledi é metade símio, metade homem. Em vez de responder a perguntas sobre a origem da nossa espécie, é um elo que não se encaixa muito bem na cadeia evolutiva, explicou à EFE o antropólogo russo Stanislav Drobishevski.

“Combina aspetos muito primitivos, como o cérebro, mais próprios dos primatas, com outros muito desenvolvidos (como os dentes e as pernas), que se assemelham aos do homem contemporâneo”, explicou o cientista.

São muito peculiares. Medem 1,5 metros e têm um cérebro que pesa entre 400 e 600 gramas”, no limite que o separa o Australopithecus (primatas bípedes) do Homo habilis, o primeiro hominídeo considerado humano.

De facto, a primeira análise dos restos de 15 indivíduos encontrados numa profunda câmara da caverna sul-africana Rising Star fizeram os seus descobridores pensar que estavam perante uma das primeiras espécies humanas, que teria vivido há três milhões de anos.

(dr) National Geographic

Eis o novo Homo naledi, um dos mais antigos ancestrais conhecidos do Homem

A surpresa foi grande quando as provas de datação revelaram que o naledi viveu há apenas 300 mil anos, quando o Homo rhodesiensis – uma das espécies humanas mais próximas do homem contemporâneo – já caminhava comodamente pela savana sul-africana.

“A convivência destas duas espécies num mesmo ecossistema indica que a evolução humana pode ter seguido caminhos diferentes“, afirmou Drobishevski.

Outras espécies humanas conviveram numa mesma época histórica, mas ou eram tão diferentes como o homem e o chimpanzé (como é o caso do Australopithecus e o habilis), ou habitavam em diferentes continentes ou separados por fronteiras geográficas intransponíveis.

A forma como se relacionavam os naledi e os rhodesiensis, que alguns antropólogos colocam dentro da espécie Homo sapiens, é um mistério.

Puderam cooperar e inclusive puderam cruzar. De facto, o genoma de alguns povos africanos, como os pigmeus e bosquímanos, têm genes que até agora não puderam ser explicados”, afirmou o antropólogo russo.

Da mesma forma que os sapiens europeus têm algo de neandertais no seu ADN, o elo perdido nos genes de alguns povos africanos poderia ser herança dos naledi, embora para resolver o mistério seja preciso decifrar o genoma da nova espécie.

Por outro lado, o cérebro dos naledi, de um tamanho similar ao dos homens mais primitivos, e a sua caixa torácica de primatas, que lhe impediria de falar, apontam que o seu intelecto era muito pouco desenvolvido.

O único indício de cultura pode ser notado no local foram encontrados os restos: uma câmara a mais de 16 metros de profundidade, à qual só se pode ter acesso por um orifício muito estreito, de apenas 20 centímetros de largura, o que em princípio descarta que a usassem para viver.

O mais provável, explicou Drobishevski, é que os naledi, que eram bastante miúdos, usavam este tipo de buracos para a sepultura dos seus mortos, embora não como um ritual, mas por motivos de higiene.

As mandíbulas e os dentes destes hominídeos são inclusive menores que os do homem moderno, o que rompe um dos postulados da teoria da evolução. “Até agora acreditou-se que na evolução do homem o tamanho dos dentes diminui sempre”, disse Drobishevski.

Ao contrário, a curvatura dos dedos pelas mãos, maior que a dos símios atuais, aponta que puderam ter evoluído em algum momento para adaptar-se ao meio no qual viviam.

“A tendência evolutiva é o endireitamento dos dedos. Embora a forma pelas mãos quase coincida com a do homem moderno e seja capaz de construir ferramentas, a curvatura dos dedos rompe todos os modelos nos quais se acreditava até agora“, acrescentou o cientista russo.

Com estes dados, os cientistas acreditam que o naledi podia andar e construir ferramentas como um homem, e ao mesmo tempo subir árvores como um macaco.

“Algumas ferramentas encontradas no passado e que se relacionaram com o sapiens, na realidade poderiam pertencer ao naledi. Embora não se tenha encontrado nenhum resto da cultura destes seres, a forma da sua mão indica que eram capazes de fazer instrumentos, apesar de terem um cérebro muito pequeno”, conclui Drobishevski.

// EFE

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