A crise climática original. Eis como a Pequena Idade do Gelo devastou a Europa

A Pequena Idade do Gelo devastou a Europa moderna e dá-nos pistas das consequências que as alterações climáticas podem ter.

À medida que o Reino Unido recuperava das tempestades Eunice e Franklin, cientistas do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) da ONU divulgaram um relatório histórico a alertar para um futuro com extremos climáticos, tempestades mais ferozes, inundações repentinas e incêndios florestais.

Esta não é a primeira vez que a Grã-Bretanha sentiu alterações climáticas drásticas. Nos séculos XVI e XVII, o norte da Europa tinha deixado o seu período quente medieval e estava a definhar no que é chamado de Pequena Idade do Gelo.

No início do século XIV, as temperaturas médias nas Ilhas Britânicas arrefeceram 2°C, com anomalias semelhantes registadas em toda a Europa.

Seguiram-se invernos muito mais frios. Rios e mares costeiros congelaram, paralisando o comércio e as comunicações. As colheitas e o gado mirraram enquanto as chuvas estragavam as plantações, desencadeando fome e dificuldades às popuilações.

Esta crise climática do início da era moderna foi politicamente tão explosiva quanto a nossa se está a tornar. Houve rebeliões, revoluções, guerras e pestes. Mulheres acusadas de bruxaria e de causar o mau tempo foram usadas como bodes expiatórios.

O recente relatório do IPCC prevê terríveis impactos sociais das futuras alterações climáticas, particularmente para os 3,6 mil milhões de pessoas que vivem nos países predominantemente mais pobres, que são altamente vulneráveis às mudanças climáticas.

Podemos aprender muito sobre o nosso destino ao estudar os efeitos que a última crise climática teve nas pessoas.

Investigadores ofereceram inúmeras explicações para a Pequena Idade do Gelo, desde erupções vulcânicas até à destruição de sociedades indígenas nas Américas, que fez com que as florestas voltassem a crescer em terras agrícolas abandonadas.

Quaisquer que sejam as causas, há muitas evidências históricas que documentam a Pequena Idade do Gelo.

Em Londres, o rio Tamisa congelou muitas vezes entre 1400 e 1815, com congelamentos a aumentarem em frequência e gravidade do início do século XVII ao início do século XVIII.

Google Art Project / Wikimedia

"Caçadores na Neve", de Pieter Bruegel, o Velho.

“Caçadores na Neve”, de Pieter Bruegel, o Velho.

As pessoas aproveitaram a oportunidade para realizar feiras na superfície gelada do rio. As pessoas jogavam futebol, lutavam, dançavam e patinavam no Tamisa.

Estas feiras também viram uma mistura improvável de classes sociais. Entre janeiro e meados de fevereiro de 1684, milhares de pessoas, do rei Carlos II e da família real ao mais humilde mendigo, aventuraram-se na “Freezeland”, como um panfleto a batizou.

No auge, a feira estendia-se por cerca de cinco quilómetros, da London Bridge a Vauxhall. De olho numa hipótese de ganhar dinheiro, muitos comerciantes abriram barracas e montaram feira na superfície do rio gelado.

Muitas barracas vendiam comidas e bebidas: cerveja, vinho, café e conhaque; carne, tortas, ostras e pão de gengibre. O entretenimento incluía patinagem, trenó, dança, futebol e corridas de cavalos. Havia marionetas e peep shows com macacos, bem como cuspidores de fogo, engolidores de facas e uma lotaria.

Por trás deste cenário caprichoso estava um revés: uma crise do custo de vida. Muitos dos feirantes do gelo eram na realidade barqueiros desempregados.

O preço do combustível, predominantemente lenha, aumentou à medida que a procura por aquecimento disparou. Os pobres e recém-desempregados de Londres entraram em desespero, muitos sem dinheiro para comer e se aquecer. O cenário era semelhante em toda a Europa. A fome era o maior inimigo.

O terrível inverno de 1684 ceifou muitas vidas.

Nesse ano, o rei Carlos II de Inglaterra autorizou o bispo de Londres a angariar dinheiro para os pobres da cidade, e doou uma quantia do tesouro real. O apoio das paróquias locais à população ajudou a atenuar os efeitos da fome, e em Inglaterra houve menos mortes do que, por exemplo, em França.

A história mostra que os efeitos das alterações climáticas podem durar séculos, e ter profundas consequências na civilização.

E, então como agora, a solidariedade é a melhor defesa contra as ameaças e perigos imprevisíveis que afetam a Humanidade.

  ZAP // The Conversation

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