Os placebos estão a fazer cada vez mais efeito

Cayusa / Flickr

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Antes de um novo medicamento ser posto à venda, testes clínicos avaliam o seu desempenho por comparação com remédios inertes conhecidos como placebos.

No entanto, estudos mostram que, nos últimos 25 anos, a diferença de eficácia entre os medicamentos reais e os falsos diminuiu – mais nos Estados Unidos do que noutros países. Os americanos estarão mais suscetíveis ao efeito placebo, ou há outra explicação para isso?

O fenómeno no qual os pacientes sentem-se melhor simplesmente porque acreditam que um tratamento os ajudará é conhecido como efeito placebo.

Para testar o efeito placebo, são realizados testes clínicos em que alguns participantes recebem a substância real e outros recebem um placebo – normalmente, os participantes não sabem qual dos medicamentos estão a tomar.

A eficácia do medicamento é determinada pela diferença entre o efeito placebo – em que nível os pacientes neste grupo se sentem melhor – e o efeito do medicamento. Para que um remédio seja colocado à venda nos EUA, é preciso que este supere a performance do placebo por uma margem significativa.

Contudo, parece que isto tem acontecido cada vez menos, porque o efeito placebo tem vindo a aumentar gradualmente. Experiências mostram que alguns conhecidos medicamentos para a depressão e a ansiedade teriam dificuldades em passar nos testes clínicos se fossem testados novamente em 2015.

Esta tendência tem-se tornado uma grande dor de cabeça para a indústria farmacêutica. Muitas substâncias falham nos testes clínicos finais – medicamentos nos quais, por essa altura, mais de mil milhões de dólares já tinha sido investido em investigação e desenvolvimento.

Ninguém sabe porque é que o efeito placebo está aumentar, mas um novo estudo da revista científica Pain pode ajudar a descobrir respostas.

Ao analisar dados de 80 testes de medicamentos para dor neuropática, os investigadores – coordenados por Jeffrey Mogil, da Universidade McGill, em Montreal (Canadá) – descobriram que a tendência estava a ser puxada pelos estudos conduzidos nos EUA, onde se verificou que os participantes pareciam sentir-se melhores pelo simples facto de estarem a participar nesses testes, independentemente de terem tomado o medicamento ou o placebo.

Mas o que faz com que os americanos sejam mais suscetíveis ao efeito placebo?

Expectativas

No topo da lista das possíveis explicações está o facto de que, ao contrários de alguns outros países, a publicidade a medicamentos dirigida diretamente ao consumidor é permitida nos EUA.

O efeito placebo está ligado à expectativa dos pacientes, e a publicidade pode ter efeitos nas mentes de pacientes que tomam medicamentos, mesmo que seja parte de um teste clínico.

A hipótese preferida de Mogil, contudo, não está relacionada com a influência da publicidade, mas antes com o facto de os testes americanos terem-se tornado maiores e durarem mais tempo do que os que são realizados fora dos EUA.

Para o investigador, as farmacêuticas provavelmente esperavam que testes maiores e mais ambiciosos fossem mais eficientes para demonstrar os efeitos reais das substâncias, mas pode estar a acontecer precisamente o contrário.

Um teste ambicioso e que envolve altos gastos pode gerar uma série de pequenos fatores que, em conjunto, acabam por dar espaço à crença dos pacientes de que estão a fazer parte de um processo benéfico. O mero facto de criar um logótipo para um teste, por exemplo, pode tornar o paciente mais otimista.

Mogil descreve que as empresas americanas costumam contratar outras organizações de investigação para realizar os testes. Pode ser que os funcionários que trabalham para essas empresas sejam mais simpáticos do que os investigadores que conduzem os testes académicos – o que por si só é outro fator que pode fazer com que as pessoas se sintam melhor.

“Houve uma pressão para reunir dados, para não faltar nada”, afirma John Farrar, neurologista e epidemiologista da Universidade da Pensilvânia.

“Por isso dá-se muito mais atenção aos pacientes, há muito mais contacto com os pacientes para se certificar que preenchem os formulários corretamente, e houve um aumento no que é dito sobre a atividade da droga – fala-se mais sobre a ciência por trás desta, como pode funcionar, etc. E tudo isso leva, potencialmente, a grandes expectativas nos pacientes”.

Contudo, Farrar acrescenta que os fins lucrativos das empresas de investigação podem estar a fazer com que recrutem pessoas que não deveriam estar sequer a fazer testes. Um médico que procura participantes pode encorajá-los a classificar os seus sintomas como mais graves do que realmente são para que possam participar no ensaio clínico.

“Também houve um aumento do que chamamos de ‘pacientes profissionais’ – pacientes que se candidatam a testes clínicos porque descobrem que podem ganhar dinheiro com isso”, diz Farrar.

Em ambos os cenários, depois de serem aceitos para os testes, os pacientes começam então a fazer relatos mais precisos sobre seus sintomas, que podem ser considerados como respostas positivas a placebos ao invés de uma realidade que, na verdade, não mudou.

“Dizer a verdade”

Farrar defende mudanças no formato dos testes para reduzir o efeito placebo, como mais controlo ao recrutar pacientes, ser mais específico sobre os critérios de seleção e acrescentar um terceiro grupo aos testes, que tomaria um medicamento já aprovado – se este grupo e o grupo que recebe o novo medicamento não superarem o placebo, os investigadores saberiam que o teste falhou.

Também há um tentativa de diminuir, através de conversas com os pacientes, as expectativas sobre a participação no teste. Qual seria a melhor forma de fazer isso? “Dizemos-lhes a verdade“, sugere Nathaniel Katz, presidente da Analgesic Solutions, uma consultoria que ajuda as farmacêuticas a evitar fracassos em testes.

A empresa também treina funcionários que participam nos testes para evitar “linguagem corporal otimista inapropriada”, como colocar o braço ao redor do paciente, apertar a mão ou olhá-los nos olhos. “Isto aumenta as expectativas”, explica Katz.

O consultor alerta, no entanto, que ao diminuir demasiado as expectativas dos pacientes, enquanto se minimiza o efeito placebo, também se perde algum efeito do medicamento que está a ser testado.

Isto foi demonstrado numa experiência no ano passado feita por Ted Kaptchuk, na Escola de Medicina de Harvard, em que se testou o medicamento Maxalt (e placebos) em pacientes com enxaquecas. Os pacientes foram divididos em três subgrupos, recebendo envelopes com um de três selos: “Maxalt”, “Placebo” ou “Maxalt ou placebo”.

“Quando lhes dávamos placebo e o envelope dizia Maxalt, a resposta positiva foi muito boa”, disse Kaptchuk à BBC. “Quando demos Maxalt e dissemos que era placebo, a resposta foi a mesma, o que significa que, só ao mudar as palavras no envelope, podemos tornar o placebo tão eficaz como o medicamento”.

O desafio, na visão de Kaptchuk, é encontrar uma forma de traduzir o extraordinário poder do placebo na prática diária do dia a dia. Enquanto os investigadores tentam diminuir as expectativas dos pacientes, os médicos fora dos laboratórios deveriam tirar algum proveito dessa fabulosa força da imaginação para ajudar os pacientes.

ZAP / BBC

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