Os pica-paus da bolota não são só comunistas. São também swingers

Os pica-paus da bolota, famosos por criar celeiros com dezenas de milhares de bolotas, têm um comportamento social tão peculiar e laços familiares tão estreitos que os ornitólogos da Guerra Fria lhe chamaram “pássaro comunista”.

Os pica-paus da bolota – Melanerpes formicivorus – são pássaros de porte médio com plumagem exuberante que chamam a atenção. No entanto, o que os faz especialmente conhecidos é a sua dependência de bolotas.

Uma vez que estas aparecem sazonalmente, estes pica-paus garantem um fornecimento constante ao longo do ano, construindo grande “celeiros” para as armazenar. São muitas vezes construídos por dezenas de milhares de aves, que perfuram milhares de buracos nas árvores ou numa outra estrutura de madeira.

Mas este não é o único traço que os torna únicos: os pica-paus de bolota têm uma estrutura social complexa que os distingue das outras aves. Vivem em grupos familiares que podem ter até 15 adultos, mantêm e defendem o celeiro e ajudam a criar os pintainhos num único ninho.

Esta é uma estrutura familiar tão incomum nos pássaros que o ilustrador de animação Walter Lantz se inspirou nesta espécie para criar o Woody Woodpecker, o famoso pica-pau que nem durante a sua lua-de-mel deixava de perfurar o telhado da sua cabana para construir o celeiro.

A estrutura familiar dos pica-paus das bolotas foi inicialmente estudada em 1925 pelo cientista Frank Leach, que na altura, pouco mais de 7 anos após a revolução russa, publicou um artigo onde não hesitou em chamar comunistas aos pica-paus da bolota.

Frank A. Leach / The Condor

Observações de campo a longo prazo da actividade destas simpáticas aves sugerem que o seu comportamento peculiar e a demografia das suas comunidades deriva da sua dependência das bolotas, que influenciam os seus comportamentos sociais.

Durante mais de 40 verões, o ornitólogo Walter Koenig, professor da Universidade de Cornell em Nova York, e a sua equipa viajaram para o Hastings Natural History Reservation, na California, para estudar a complexidade social destas aves. Os resultados da pesquisa foram publicados em 2015.

A equipa tem recolhido o ADN das aves para conseguir acompanhar a relação genética entre os animais. Os resultados revelaram que estes animais são poliginandros, um comportamento extremamente raro em aves, em que machos e fêmeas trocam entre si os parceiros de acasalamento durante a época de reprodução.

“Os machos reprodutores estão todos relacionados uns com os outros, as fêmeas reprodutoras também”, explicou o professor Koenig. “Mas os machos reprodutores não estão relacionados com as fêmeas”, uma vez que os pássaros evitam a endogamia.

A genética revelou também que alguns adultos não se reproduzem, limitando-se a ajudar as crias. Começar um grupo familiar exige iniciar a construção de um novo celeiro, e isso faz com que deixar o grupo parental seja uma decisão séria, que deve ser ponderada.

“Como não se conseguem reproduzir, estes pica-paus preferem permanecer no grupo em que nasceram e ajudar a criar os irmãos mais novos“, explica o professor Koenig.

Quando há 100 anos Frank Leach estudou os pica-paus da bolota, estava ainda longe de adivinhar a complexidade das relações familiares destas aves, que são não só comunistas, mas também verdadeiros swingers.

ZAP // Forbes

 

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