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Negócios de imigrantes em Portugal são um risco. Mas para quem?

Estela Silva / Lusa

Os imigrantes em Portugal estão a criar cada vez mais rápido o seu negócio, alguns “três ou quatro meses depois” de residirem no país. A presidente da associação Empreendedores Vencedores diz que “é um risco muito grande”.

O número de pequenos empresários imigrantes cresceu a um ritmo acelerado na associação Empreendedores Vencedores, passando de 25 elementos em 2020 para 700 hoje.

A presidente da associação Empreendedores Vencedores vê este cenário como um “risco muito grande”.

“Tem sido cada vez mais rápida a inserção [de imigrantes] no mercado empreendedor. As pessoas ou estão com mais necessidade ou com mais coragem”, afirmou à Lusa Andréa Santos, que lidera a associação de apoio a pequenos e médios investidores imigrantes.

Em 2017, quando a empresária brasileira, também fundadora da Empreendedores Vencedores, chegou a Lisboa, já atenta ao mundo dos negócios, “as pessoas começavam a lançar-se no mercado português depois de dois ou três anos em Portugal”, referiu.

Agora, assegura que vê pessoas “a lançarem-se no mercado empreendedor, estando aqui [em Portugal] há três ou quatro meses”. “É muito, muito rápido”, considerou.

Mas é um “risco” para quem?

Na opinião de Andréa Santos, este cenário representa “um risco muito grande” para os próprios imigrantes, porque muitas vezes vendem todo o património que tem no seu país para investir em Portugal. E, se o negócio não correr bem, fica sem nada e sem trabalho em Portugal, alerta.

Por isso, tem insistido muito, diz, “na revisão da análise de investimentos” com as pessoas que procuram o apoio da associação.

E fala-se “muito sobre isso” no grupo dos Empreendedores Vencedores, aconselhando os imigrantes a manter um fundo de maneio, ou seja, a não investirem tudo o que têm, a começarem aos poucos, a fazerem testes de mercado primeiro para depois desenvolverem o negócio, adiantou.

Dois fatores determinantes

Para a presidente da Empreendedores Vencedores, este aumento explica-se em boa parte pelo crescimento da comunidade imigrante brasileira em Portugal, mas também pela capacidade de arriscar dos brasileiros. Por isso, estão em “grande maioria” na associação, representando já 72% dos pequenos e médios empresários que dela fazem parte, frisou.

“Os brasileiros são mais destemidos do que criativos”, frisou, o que na sua opinião se torna por vezes até “um pouquinho perigoso”.

Os outros aspetos que, no seu entender, contribuíram para o crescimento e fortalecimento da associação foram os resultados da rede de ‘networking’ criada no whatsapp, a educação para os empreendedores, desenvolvida às quartas-feiras, com palestras ‘online’, e as feiras durante dois anos no Mercado da Vila, em Cascais, que despertaram o interesse e adesão de novos elementos.

“A maior das maiores dificuldades para estas pessoas é ser reconhecida, ter contactos”, o que a rede de ‘networking’ da associação lhes oferece, sublinhou.

Há uma prática em que “cada um escolhe ser o comercial de três outras pessoas do grupo e passa 30 a 40 dias fazendo a função de um verdadeiro comercial daquele empreendedor”, explicou. Ou também um contabilista a ajudar os empreendedores do grupo.

“Cada um vai fazendo o seu nome através da sua doação. E não é doar dinheiro, é doar apoio aos outros empreendedores”, mas sempre com o objetivo de vender para fora do grupo, salientou.

A educação empreendedora, que se traduz em ‘workshops’, palestras, com especialistas em diversas áreas todas as quartas-feiras é a outra vantagem que os empreendedores encontram, realçou.

“Das 700 pessoas que temos hoje, posso dizer que metade veio pela educação empreendedora e a outra metade veio pelas feiras”, afirmou Andréa Santos, ela própria empresária.

93% dos empreendedores são mulheres

Quanto ao facto de 93% dos 700 empreendedores serem mulheres, a presidente explica que isso tem a ver com o modo como estas emigram. “As mulheres emigram de duas formas, ou com a família, ou porque tiveram uma separação ou algo assim que fez com que a família se separasse e elas decidem fazer alguma coisa diferente na vida e dar uma educação melhor para os filhos”, continuou.

Por isso, “entre os empreendedores há muitas famílias monoparentais”, frisou, acrescentando que “mesmo as que vêm com apoio dos maridos acabam se colocando mais rápido como empreendedoras”, pela necessidade de criarem uma forma de sustento para a família.

Isto também pode explicar que a maioria dos negócios dos empreendedores se divide por três áreas: gastronomia, acessórios femininos, o que inclui roupas, e a do bem-estar, que abrange terapias olísticas, saúde, beleza e estética.

A associação Empreendedores Vencedores nasceu em 2020, durante a pandemia de covid-19, porque quando emigrou para Portugal e quis entrar no mercado português, como empresária, Andréa sentiu como maior dificuldade “a falta de pessoas que confiassem” na qualidade do seu trabalho.

Hoje, a associação já não é só para brasileiros e outros imigrantes, mas também para pequenos e médios empreendedores portugueses, que já representam 24% das pessoas da associação. E ainda há venezuelanos, espanhóis, moçambicanos e argentinos, disse. Além disso a organização ultrapassou fronteiras e já tem uma parcela de empreendedores brasileiros que estão no Reino Unido e em Espanha.

ZAP // Lusa

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