/

A música pode ser tão infeciosa como uma doença. Os modelos matemáticos da covid-19 provam-no

O uso de modelos matemáticos para antecipar o nível de sucesso de uma música pode começar a ser usado por artistas e editoras para melhorar o desempenho dos novos lançamentos musicais. 

Se é verdade que a pandemia da covid-19 que atualmente vivemos trouxe aspetos terríveis para a humanidade, como um número histórico de mortes, também não deixa de o ser que muitas novidades positivas foram adicionadas ao quotidiano dos cidadãos.

Um grupo de matemáticos da McMaster University, em Ontario, no Canadá, decidiu levar esta máxima mais longe e aplicar os modelos matemáticos usados para estudar a disseminação das doenças infeciosas, tais como os coronavírus, à propagação das músicas — de forma a perceber até que ponto estas podem tornar-se virais.

Para dar seguimento ao estudo, Dora Rosati e a sua equipa usaram uma base de dados com cerca de 1,4 mil milhões de perfis registados no serviço de streaming de música MixRadio, atualmente extinto. O foco da sua atenção foram as mil músicas mais descarregadas no Reino Unido entre 2007 e 2014, às quais aplicaram um modelo standard para estudar doenças epidémicas, o modelo SIR, de forma a depreenderem as tendências de difusão destas mesmas músicas.

Os resultados da pesquisa, publicados na Proceedings of the Royal Society A: Mathematical and Pshysical Sciences, indicam que as previsões dos investigadores estavam mesmo corretas, com o modelo a descrever as tendências relativas ao download de músicas tão bem como o faz para a propagação de doenças infeciosas pela população.

“Os resultados sugerem que muitos dos processos sociais que orientam a propagação de uma doença, ou sistemas análogos, também podem orientar a difusão de músicas. Mais especificamente, apoia a ideia de que tanto a música como as doenças infeciosas dependem das ligações sociais para se espalharem através da população”, descreveu a investigadora responsável.

“Com uma doença, se existir um contacto com alguém que esteja doente, há uma possibilidade de sermos infetados. Com as músicas, parece-nos ser muito similar. A grande diferença, com as músicas, é que esse contacto não precisa de ser físico — poderá ser, por exemplo, através de um story de Instagram que um amigo possa partilhar, que um indivíduo ouve e depois vai procurar“, afirmou Rosati.

Thomas Rawson, especialista em modelos de doenças no Imperial College London que não esteve envolvido no estudo, corroborou a tese ao The Guardian. “É algo que faz todo o sentido quando se considera que o passa a palavra é algo muito parecido com uma doença, espalha-se através das pessoas. A principal diferença é que existem mais maneiras de a música se espalhar.”

A equipa de Dora Rosati também calculou o R0 — o número de reproduções básicas que parte do princípio de que nenhum membro da população tem imunidade contra a doença quer por via da infeção ou da vacina — consoante os diferentes géneros musicais.

Apesar do indicador variar consideravelmente entre géneros, a equipa descobriu que dance e metal obtinham o R0 médio mais baixo, ao passo que a música pop era mais transmissível, sem, contudo, conseguir chegar aos números do rock e do hip-hop. A eletrónica, por sua vez, tem o R0 mais elevado de todo o estudo 3,430.

Ainda assim, isto não significa que as músicas eletrónicas sejam mais descarregadas — pode apenas ser um sinal que estas se difundem mais rapidamente pelas franjas da população mais suscetíveis.

“As doenças estão limitadas nas formas como se podem propagar, visto que ser necessária interação física. A razão pela qual podemos ver R0’s muito elevados para músicas é que a propagação pode ser feita através da publicação de um tweet, uma ação que pode infetar uma centena de pessoas. É possível “espalhar” uma canção muito mais rapidamente do que uma doença infeciosa”, explicou a investigadora. “Provavelmente, há muitas pessoas que já estão imunes a determinados géneros, como a eletrónica, devido aos seus gostos.”

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Rosati avança ainda com outra explicação possível. “Talvez o que os números nos estão a dizer é que os fãs de eletrónica sejam mais apaixonados pelas suas músicas favoritas… Ou talvez as redes sociais dos fãs de eletrónica estejam mais fortemente conectadas.”

“Para géneros como pop e rock, eu acho que a rádio pode tê-los servido bem quando este era o principal método de transmissão. As maiores mudanças são mais prováveis de acontecer em géneros mais de nichos que não seriam transmitidos nas rádios ou em artistas que não eram tão reconhecidos. Acho que teriam mais hipóteses de se propagarem na atual situação de streaming e plataformas de redes sociais”, explicou a investigadora.

Se a popularidade de uma canção acontece pelos mesmos meios de contágio de uma doença, isto poderá abrir portas a novas formas de antever se um lançamento musical vai ser bem sucedido, podendo, por exemplo, um artista ou uma editora melhorar as suas hipóteses de alcançar sucesso.

“Da mesma forma que podemos agora usar modelos matemáticos da propagação de doenças para aprender coisas como o tempo médio em que um indivíduo está infetado, o tamanho final de uma epidemia ou quanto mais tempo uma epidemia pode durar, talvez possamos usar os mesmos modelos para aprender coisas como quanto tempo, em média, um indivíduo ouve uma determinada canção, quantas pessoas, no total, a vão descarregar, ou por quanto tempo pode uma música ser popular”, concluiu Rosati.

  ARM //

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.