O Aristides de Sousa Mendes francês. Marcel Marceau, o mimo que salvou crianças judaicas no Holocausto

(pd) Wikimedia

O mimo francês Marcel Marceau.

O mimo francês Marcel Marceau.

Marcel Marceau enveredou pela arte da mímica, onde se destacou a nível mundial, mas ficará também para a História pelos seus atos humanitários durante o Holocausto.

Quando pensamos em heróis no tempo do Holocausto, há um exemplo que nos é bastante próximo e provavelmente vem, de imediato, à memória: o de Aristides de Sousa Mendes.

Enquanto Cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha Nazi, na Segunda Guerra Mundial, Aristides de Sousa Mendes desafiou ordens expressas de Salazar e, durante três dias e três noites, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados de várias nacionalidades que desejavam fugir de França.

O número total de vistos passados por Aristides de Sousa Mendes é desconhecido, devido a muitos deles terem sido passados sem registo oficial. Algumas fontes sugerem que o número de judeus salvos pelo português ande na ordem dos dez mil.

No entanto, Aristides de Sousa Mendes não foi o único a efetivamente salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial. O mimo francês Marcel Marceau é outro nome que ficará para sempre na História pelas suas ações altruístas.

Antes de se tornar o mimo mais popular do período pós-guerra, Marceau atravessou várias dificuldades. O seu pai, um talhante judeu, foi preso pela Gestapo e morreu no campo de concentração de Auschwitz.

Escreve o All That’s Interesting que Marceau começou a treinar as suas habilidades de mimo de uma forma pouco convencional. O artista fazia-o para manter as crianças entretidas e caladas enquanto evitavam as patrulhas nazis no caminho para a fronteira com a Suíça.

Desde sempre, Marceau gostava de brincar com outras crianças. “A minha imaginação era rainha. Eu era Napoleão, Robin Hood, os Três Mosqueteiros e até Jesus na cruz”, relembrou, anos mais tarde, o francês.

Marceau gostava de falar da sua infância e de tudo mais. Em cima do palco, ninguém o ouvia. Fora dele, falava pelos cotovelos. “Nunca deixe um mimo falar”, disse uma vez a um jornalista. “Ele não vai parar”.

Quando os nazis invadiram França, em 1940, Marcel Marceau tinha apenas 17 anos. Enquanto fugia das tropas nazis, ficou na casa de Yvonne Hagnauer, diretora de um internato nos arredores de Paris, que abrigou dezenas de crianças judaicas durante a guerra.

Aos 18 anos, juntou-se com o seu irmão à Resistência francesa.

Após meses a forjar documentos para membros da Resistência, Marceau entrou na Armée Juive, ou Exército Judaico, cuja principal tarefa era colocar judeus em segurança . Marceau ficou encarregue de levar grupos de crianças para casas seguras para depois serem evacuadas.

“Fui disfarçado de líder de escoteiros e levei 24 crianças judaicas, também em uniformes de escoteiros, pelas florestas até à fronteira, onde outra pessoa os levaria para a Suíça”, recordou Marceau.

Em três destas viagens, o mimo francês salvou dos nazis mais de 70 crianças judaicas.

“Depois da guerra eu não queria falar sobre a minha vida pessoal. Nem mesmo que o meu pai foi deportado para Auschwitz e nunca mais voltou”, disse ainda Marceau numa entrevista à Jewish Telegraphic Agency. “Chorei pelo meu pai, mas também chorei pelos milhões de mortos. E agora tínhamos que reconstruir um novo mundo”.

Marcel Marceau viria a morrer no dia 22 de setembro de 2007, em Cahors, França.

  Daniel Costa, ZAP //

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