A desertificação está a progredir na Índia. Mas a solução pode estar no conhecimento tradicional

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Quase 45% da área de Maharashtra está a transformar-se em deserto, assim como uma grande parte da Índia. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o ritmo da desertificação no país é agora 35 vezes mais rápido.

A degradação do solo – processo no qual a terra perde a sua produtividade e a sua capacidade para sustentar as plantas – é normalmente causada por alterações climáticas, pela atividade humana ou por uma combinação das duas. Quando as terras em áreas secas se degradam, o ritmo da desertificação intensifica-se.

Segundo um artigo do OZY, divulgado na quinta-feira, na estação das monções, os agricultores do distrito de Dhule, em Maharashtra, ficam divididos entre esperar pela chuva ou receá-la. É que embora as zonas áridas precisem de água, à medida que o solo já seco fica mais degradado, a água da chuva pode corroer a sua camada superficial, destruindo as poucas plantas que ainda resistem.

São mais de 82 milhões de hectares, concentrados no oeste do país. Uma estimativa de 2018 mostrava que a degradação dos solos custou à Índia mais de 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB).

Como revelou a ONU, devido à desertificação, 50 milhões de pessoas em todo o mundo correm o risco de serem deslocadas na próxima década. Um relatório divulgado em agosto pelo Intergovernmental Panel on Climate Change, indicava que a desertificação afetou a área habitável de aproximadamente 500 milhões de pessoas desde os anos 80.

Em setembro, a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação realizou a sua reunião bienal em Noida, na Índia, onde líderes mundiais e organizações internacionais discutiram como combater esse problema. No encontro, os membros defenderam a restauração de terras degradadas através de um movimento global.

As respostas mais imediatas, no entanto, podem estar no conhecimento tradicional. No deserto de Thar, entre a Índia e o Paquistão, há 133 habitantes por quilómetro quadrado, fazendo deste o deserto mais populoso do mundo. As temperaturas podem atingir os 50 graus e os ventos soprar a mais de 55 quilómetros por hora. As áreas mais secas da região recebem menos de 150 mm de chuva por ano.

Localizada à beira do deserto, a vila de Laporiya tem 2.500 habitantes, que se sustentam por meio da agricultura e da criação de gado. Nas últimas três décadas, tornou-se conhecida pelas práticas de captação de água da chuva, que permitem aos moradores sobreviver com apenas 254 a 508 mm de água da chuva por ano.

“Durante o ano de 1977 houve secas severas, foi quando começamos a falar com as pessoas da região. Como primeiro passo, começamos a restaurar as lagoas da região”, contou Laxman Singh, diretor da Gram Vikas Navyuvak Mandal Laporiya, uma organização não governamental focada na gestão de recursos naturais nas comunidades rurais do Rajastão desde a década de 1980.

A comunidade restaurou lagoas antigas e construiu novas, identificando terras apoiadas por pedras subterrâneas e construindo áreas de captação. As lagoas foram classificadas de acordo com o seu uso: duas para recarga de águas subterrâneas, uma para irrigação dos campos. Construíram-se canais e aterros para capturar as chuvas escassas e canalizá-las para as lagoas. Em alguns casos, árvores foram plantadas perto das lagoas para sustentar o solo e fornecer sombra aos moradores.

Foram destacadas parcelas retangulares de terra, designadas por chaukas, para armazenar a água durante as monções. Tendo aproximadamente 61 por 131 metros, são dispostas em ziguezague através de uma secção de terra comum. Estas são especialmente importantes para capturar o escoamento e armazená-lo para os períodos secos.

“Durante as monções, as lagoas se enchiam, o ambiente local melhorava porque as águas subterrâneas estavam a ser recarregadas e as pessoas também podiam irrigar os seus campos”, disse Laxman Singh.

Após o sucesso do sistema em Laporiya, oito mil pessoas em 58 aldeias vizinhas implementaram sistemas semelhantes.

“Tradicionalmente, a água era um problema que as comunidades resolviam sozinhas”, referiu Maulik Sisodia, diretor executivo da Tarun Bharat Sangh, uma organização que capacita modelos de autogovernação em aldeias da Índia. “A conservação da água da chuva é a melhor solução para adaptação e mitigação das alterações climáticas”.

Essas técnicas podem até reverter a degradação da terra, lê-se no OZY. Segundo os especialistas, a restauração de terras degradadas depende da conservação da água e da reflorestação. Embora o Rajastão tenha a maior percentagem de degradação de terras na Índia, foi um dos quatro estados a reduzir os solos afetados entre 2003 e 2013.

  ZAP //

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